sábado, fevereiro 04, 2012

5 Momentos Memoráveis

#16: Deleted Scenes



São raras as expressões artísticas que detêm um carácter tão "plástico" como o Cinema. Enquanto existir material filmado, previamente descartado na sala de montagem mas disponível para visualização, será sempre possível observar as diferentes nuances de uma sequência sobejamente conhecida, descobrir momentos cinematográficos que se tornariam inesquecíveis ou absorver significados totalmente diferentes nos filmes que amamos.

A revitalização de sequências cortadas ganhou impulso com os director's cut (prática popularizada por Ridley Scott no seu BLADE RUNNER — PERIGO IMINENTE) de vários títulos, transformando a sua visualização em algo de emocionante para qualquer cinéfilo. Os momentos memoráveis também são feitos de sequências que, durante algum tempo, estiveram afastadas do olhar do grande público. Assim, aqui ficam cinco exemplos, acompanhados da habitual menção honrosa, de como "filme acabado" pode ser termo bastante enganador...

MENÇÃO HONROSA: ALIEN — O 8º PASSAGEIRO (1979), de Ridley Scott



Um dos aspectos mais brilhantes de ALIEN — O 8º PASSAGEIRO é a sua sonoplastia, que desde o genérico coloca o espectador em permanente sentido de alerta, muito antes da revelação dos horrores que se abatem sobre a tripulação da Nostromo (e convém recordar que tal só sucede a partir da hora de filme...).

Resignados, por intermédio do computador de bordo, a investigar um sinal acústico de origem desconhecida, cedo se procede à sua descodificação. E caso esta sequência estivesse incluída na montagem final, a natureza agressiva do som assumir-se-ia como um dos primeiros grandes "sustos" do filme.



5. MAGNOLIA (1999), de Paul Thomas Anderson



A semântica e grandiloquência das palestras de "auto-motivação masculina", promovidas por Frank 'TJ' Mackey (Tom Cruise), constituem um dos momentos altos do impressionante filme-mosaico que é MAGNOLIA. Contudo, observar o próprio Mackey a colocar em prática os seus "ensinamentos" oferece toda uma nova dimensão, não só à própria personagem, como também ao contexto dramático em que se insere.

Continuo a achar que Tom Cruise deveria ter sido o recipiente do Óscar de Melhor Actor Secundário daquele ano. Para além da convicção com que proferiu frases como "Respect the cock!" ou "Fucking Denise! Denise the Piece!", eis aqui mais alguns argumentos para apoiar esta opinião...



4. THIS IS SPINAL TAP (1984), de Rob Reiner



Neste que é, para mim, o "rei" de todos os mockumentaries, o processo de montagem foi tudo menos nobre. Embora os motivos que justificaram o corte de sequências como esta, ou desta também, permaneçam em mistério, há que agradecer aos deuses da preservação cinematográfica pelo quarto lugar da presente lista.

Bruno Kirby, no papel do motorista dos Spinal Tap, descobre, da forma mais hilariante possível, os surpreendentes efeitos de substâncias psicotrópicas — e somos brindados com uma preciosa amostra do talento de Kirby, actor a quem falta prestar devido reconhecimento mediático.



3. NIXON (1995), de Oliver Stone



Neste tour de force cuja duração excede os 190 minutos, excisar-lhe uma sequência de dez minutos que encena uma reunião pouco amistosa entre Richard Nixon e Richard Helms, naquela altura director da CIA, afigurou-se como decisão lógica e nada prejudicial para a compreensão integral deste magnífico e subvalorizado biopic.

Embora se limite a reforçar temas sobre a vida de Nixon que o filme já explora em vários momentos-chave — as memórias traumáticas da sua infância, o passado político obscuro, os caminhos sinuosos que a sua Administração percorreu, etc. —, merece destaque nesta lista por provar que é possível haver dinâmica num "simples" confronto de palavras e ideias, enriquecida pelo (saudoso) estilo de montagem histórico-intelectual de Oliver Stone e ainda nos proporciona uma fabulosa declamação do poema The Second Coming, de W.B. Yeats. Electrizante.



2. O TUBARÃO (1975), de Steven Spielberg



Só com o argumento de que "abrandaria o ritmo" do filme se pode explicar a omissão desta hilariante sequência. Reveladora do lado mais bipolar e diabólico de Sam Quint (Robert Shaw) que só testemunhamos na última meia hora de filme, vemo-lo aqui entretido a atormentar os esforços de um jovem clarinetista durante uma interpretação da Nona Sinfonia de Beethoven.

Sendo tarefa quase impossível determinar o seu contexto no filme de Spielberg, atesta que Quint será, muito provavelmente, a primeira personagem da história do Cinema a merecer um filme só seu — fosse ele prequela ou spin-off...



1. QUASE FAMOSOS (2000), de Cameron Crowe



Cameron Crowe afirmou que, caso soubesse que lhe seria vedada permissão para incluir esta sequência na montagem final, muito provavelmente nunca faria QUASE FAMOSOS. À última da hora, a produção não conseguiu assegurar os direitos de «Stairway to Heaven», dos Led Zeppelin, e observando a cena, percebe-se como não faria qualquer sentido utilizar outro tema que não esse para o jovem protagonista (Patrick Fugit) demonstrar à sua mãe (Frances McDormand), reticente em deixar o filho adolescente acompanhar uma tournée de um grupo musical, o poder do rock'n'roll.

Dez fabulosos minutos de Cinema, recheados de elementos visuais e sonoros que nenhum cinéfilo se deveria privar de assistir.



2 comentários:

annastesia disse...

Algumas cenas deletadas realmente são interessantíssimas. Aliás, um dos meus bonus favoritos nos dvds que compro são as cenas cortadas. A do Spinal Tap é ótima!

Bruno Cunha disse...

A do Magnolia é incrível mas a do Quase famosos é do outro mundo! Grande música de Led Zeppelin mas Hollywood não gosta de cenas paradas com 7 minutos a dar uma música...


Abraço
Frank and Hall's Stuff