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sábado, junho 29, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dogville, de Lars von Trier




Depois de ONDAS DE PAIXÃO (1996) e DANCER IN THE DARK (2000), eis que o génio de Lars von Trier surge em alta mais uma vez em DOGVILLE. Ancorado por mais uma magnífica interpretação de Nicole Kidman na sua fase mais áurea — tendo mesmo viajado para a Dinamarca no dia seguinte a receber o Óscar — DOGVILLE rouba inspiração a Brecht e a Wilder para criar uma fábula contra a americanização e, mais que isso, uma alegoria interessante sobre a crueldade e egoísmo da condição humana.

Von Trier reinvigora as suas temáticas habituais de opressão e realismo com uma radical abordagem à história, inventando um cenário despido, com as paredes das casas da pequena aldeia onde a narrativa decorre simplesmente desenhadas a giz. Este efeito de alienação, foi amplamente discutido e aplicado por Brecht no seu teatro por obrigar o espectador a focar-se nos temas e ideias em discussão ao invés dos cenários ou do ambiente. A crítica está lá, como sempre, acutilante, agressiva e ousada, bem ao estilo do provocateur dinamarquês. John Hurt, que narra o conto, apresenta-nos Grace (Kidman) que ao fugir das autoridades dá de caras com a pequena aldeia de Dogville, nas Rocky Mountains, nos anos 30. Quando os cidadãos da isolada e retrógada pequena comunidade não a recebem da forma mais calorosa, Tom (Bettany), filósofo e filho do médico da aldeia, vê-se obrigado a interceder por ela, pedindo que lhe seja dado abrigo e uma oportunidade. Grace, buscando ardentemente a aprovação dos seus pares, sujeita-se ao seu escárnio, discriminação e escravidão, ganhando esforçadamente o afecto e admiração de todos ao longo do tempo perdendo a sua identidade e personalidade até se tornar definitivamente um deles. Mal sabia ela que quando dados do seu passado se revelassem a tortura e opressão aumentaria e aquela pequena e dócil comunidade revelaria a sua real personalidade. Desde o mais mesquinho ao idealista Tom, cada um assume as suas cores verdadeiras e todos, da sua forma, condescendem e maltratam Grace.

DOGVILLE nem sempre consegue executar as ideias e ambições a que von Trier se propõe. Nem sempre o seu conceito resulta na prática e partes do filme parecem esforçar-se para encaixar e muito depende da capacidade que o espectador tenha para analisar criticamente e absorver o que está a ser exposto em ecrã. Não deixa nunca de ser uma obra viva, elegante, experimental e incrivelmente original. A exposição do dinamarquês sobre a injustiça que reina na sociedade contemporânea, violenta, desumana, fechada e antipática, em que muitas vezes julgamos os outros pela sua aparência e não damos oportunidade a quem é diferente de nós, é pertinente, actual e justificada. O seu voraz apetite para introduzir missivas contra os americanos, apesar de desnecessário, não retira valor ao resultado final do filme. Desafiador e profundo, DOGVILLE deve ser comemorado, porque além de uma obra-prima singular, de cunho indelével do cineasta dinamarquês, procura algo mais: fazer o espectador pensar criticamente, para variar.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Nicole Kidman (Grace Margaret Mulligan), Paul Bettany (Tom Edison, Jr.), John Hurt (Narrador), Lauren Bacall (Ma Ginger), Chloë Sevigny (Liz Henson), Stellan Skarsgård (Chuck), Udo Kier (Homem de casaco), Ben Gazzara (Jack McCay), James Caan (The Big Man), Patricia Clarkson (Vera)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Lars von Trier), Melhor Fotografia (Anthony Dod Mantle)


Sobre Lars von Trier

Depressivo, controverso e literalmente considerado como persona non grata pelo Festival de Cannes, é conhecido como um dos principais impulsionadores do Dogma 95 — colectivo avant-garde de realizadores baseado em valores narrativos, representativos e temáticos tradicionais — e a sua obra está preenchida por uma abordagem variada e iconoclasta a ambientes opressivos e pessimistas, onde a Humanidade é, invariavelmente, a causa de todos os males. Da sua filmografia, realce para O ELEMENTO DO CRIME (1984), EUROPA (1991), ONDAS DE PAIXÃO (1996), DANCER IN THE DARK (2000, Palma de Ouro em Cannes) e ANTICRISTO (2009).



sábado, maio 04, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Horas, de Stephen Daldry




As vicissitudes e defeitos nas adaptações ao Cinema de romances considerados "infilmáveis", é uma das questões que divide, amiúde, crítica, público, leitores compulsivos e cinéfilos aguerridos. No entanto, AS HORAS é digno do "estatuto" de excepção à regra. Stephen Daldry, juntamente com o argumentista David Hare, convertem a premiada obra literária de Michael Cunningham, um exercício meditativo onde pouco acontece, num filme complexo e meticulosamente construído, capaz de dissolver fronteiras temporais e narrativas através da reflexão sobre a influência que um determinado livro — mais concretamente, o Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf — tem na vida de três mulheres (Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep) em três épocas distintas.

Desde a repetida referência à frase que abre o livro supracitado ("Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself") até ao espectro do suicídio (a primeira sequência do filme é, precisamente, o momento em que Virginia Woolf decide terminar a sua própria vida) que paira sobre a maioria das personagens, AS HORAS é uma profunda e desconfortável observação de sofrimento humano. Quase como se tratasse de um filme de terror psicológico, Daldry aborda uma série de temáticas (para além do suicídio, disfunção familiar, ambiguidade sexual, distúrbios mentais e doença terminal são pratos fortes neste contexto dramático) para ilustrar traumas quotidianos, íntimos mas universais, e de inegável poder emocional.

Paralelamente, AS HORAS é, também, uma obra que pertence ao seu extenso e perfeito elenco, numa diversidade de registos que lhe garante uma imediata e duradoira identificação pelo espectador. Torna-se, em jeito de conclusão, impossível não falar sobre os dois "destaques no feminino" do filme: Nicole Kidman "desaparece" sob a camada de make-up da sua personagem, mas traz à luz do dia uma irrepreensível encarnação no corpo e alma de Virginia Woolf, combinando a sensualidade andrógena e semblante depressivo da escritora inglesa, e Meryl Streep, aqui transfigurada no centro emocional do argumento pela sua contida mas fascinante versão da mulher de meia-idade, que não teme assumir responsabilidades, em plena década de 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Nicole Kidman (Virginia Woolf), Julianne Moore (Laura Brown), Meryl Streep (Clarissa Vaughan), Stephen Dillane (Leonard Woolf), Ed Harris (Richard "Richie" Brown), Miranda Richardson (Vanessa Bell), John C. Reilly (Dan Brown), Toni Collette (Kitty), Allison Janney (Sally Lester), Claire Danes (Julia Vaughan), Jeff Daniels (Louis Waters)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Actriz (Nicole Kidman)
. BAFTA: Melhor Actriz (Nicole Kidman), Melhor Banda Sonora (Philip Glass)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Drama, Melhor Actriz — Drama (Nicole Kidman)
. Festival de Berlim: Urso de Prata — Melhor Actriz (Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore), Prémio do Júri "Berliner Morgenpost" (Stephen Daldry)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actriz Estrangeira (Julianne Moore)
. National Board of Review: Melhor Filme
. Writers Guild of America: Melhor Argumento Adaptado (David Hare)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actriz (Julianne Moore)


Sobre Stephen Daldry

Um dos principais realizadores, na última década, a abordar dramas históricos com dimensão trágico-romântica, Daldry faz uso extensivo da sua experiência teatral para obter desempenhos únicos dos seus actores e experiências cinematográficas de respeitável apelo comercial. BILLY ELLIOT (2000), O LEITOR (2008) e EXTREMAMENTE ALTO, INCRIVELMENTE PERTO (2011) são os restantes títulos da sua filmografia.



sexta-feira, março 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Os Outros, de Alejandro Amenábar




A tremenda e eficaz simplicidade de OS OUTROS começa logo pelo seu próprio título, sugestiva e misteriosamente indicando a presença de uma ameaça que o filme, de modo sedutor, teima em deslindar — e se tal revelação nunca ocorresse, Alejandro Amenábar continuaria a ter concebido uma das obras de terror mais completas e impactantes dos anos 2000.

O ano da acção é 1945. Grace (Nicole Kidman), os seus dois filhos (Alakina Mann e James Bentley), alérgicos à luz, e três criados recém-chegados habitam uma casa atmosférica e quase intemporal. Corredores estreitos, quartos cavernosos e soalhos que rangem compõem aquela mansão, onde "nenhuma porta deve ser aberta sem que a anterior esteja fechada" e que em breve demonstrará sinais de estar assombrada. Grace escuta risos e choros infantis através das paredes, a sua filha afirma vislumbrar pessoas estranhas à casa, portas trancadas surgem misteriosamente abertas, um piano toca sozinho: por outras palavras, território adequado para uma história de fantasmas, sem pejo de exibir truques familiares mas que, nas mãos de Amenábar, figura uma delicada subversão na mecânica técnica e narrativa do género.

Extravasando o terror físico e/ou material, OS OUTROS opera a um nível totalmente primordial. Tal surge na forma como, no seio de uma provável presença fantasmagórica naquele "lar", se inquieta também o espectador através das circunstâncias dúbias do passado recente da protagonista, do papel das duas crianças (cuja natureza, a certa altura, parece dever mais a J.D. Salinger do que a O GÉNIO DO MAL) no desenrolar dos acontecimentos ou das misteriosas intenções dos serviçais.

O inexorável twist final de OS OUTROS, permeável a repetidas e obrigatórias visualizações, não é impedimento para o deslavar de diversas camadas e pormenores visuais do filme — canalizados, sobretudo, pela sensibilidade europeia do seu realizador, capaz de "fugir" às mais óbvias referências cinematográficas, sendo A CASA MALDITA (1963) exemplo principal. O seu proeminente imaginário religioso, quando confrontado com os conteúdos sobrenaturais (heréticos?) aqui dispostos, eleva o potencial psicológico do argumento, como poucos horror movies da última década alcançaram, a um patamar de perturbação essencialmente humana. Pois se o desconhecido, esse temeroso factor da nossa existência ("o medo daquilo que não vemos é sempre um chamariz para os nossos próprios medos"), encontra no invisível seu proeminente sinónimo, os sustos gerados pelos "outros" de Amenábar revelam-se inteiramente quotidianos.

por Samuel Andrade.

Elenco
Nicole Kidman (Grace Stewart), Alakina Mann (Anne Stewart), James Bentley (Nicholas Stewart), Fionnula Flanagan (Bertha Mills), Eric Sykes (Edmund Tuttle), Elaine Cassidy (Lydia), Christopher Eccleston (Charles Stewart).


Palmarés
. Academia de Cinema de Ficção-Científica, Fantasia e Terror: Melhor Filme — Terror, Melhor Actriz (Nicole Kidman), Melhor Actriz Secundária (Fionnula Flanagan)
. Prémios Goya: Melhor Filme, Melhor Realizador (Alejandro Amenábar), Melhor Argumento (Alejandro Amenábar), Melhor Fotografia (Javier Aguirresarobe), Melhor Montagem (Nacho Ruiz Capillas), Melhor Direcção Artística (Benjamín Fernández), Melhor Direcção de Produção (Emiliano Otegui e Miguel Ángel González), Melhor Som (Ricardo Steinberg, Tim Cavagin, Alfonso Raposo e Daniel Goldstein)


Terror made in Spain

Nos anos 2000, observou-se o incremento da produção hispânica dedicada ao cinema de terror, a qual saldou-se, na sua maioria, em sucessos de crítica e público internacionais e inúmeros remakes por parte da (no que a este género cinematográfico diz respeito) pouco inspirada indústria norte-americana. Uma realidade potenciada, para além de Alejandro Amenábar, por realizadores como Guillermo del Toro (NAS COSTAS DO DIABO, 2001), Juan Carlos Fresnadillo (INTACTO, 2001), Jaume Balagueró ([REC], 2007) ou Juan Antonio Bayona (O ORFANATO, 2007).



segunda-feira, julho 26, 2010

Em memória de Stanley Kubrick #9



O cineasta favorito do Keyzer Soze's Place completaria hoje 82 anos.

Para o recordar — como se fosse impossível não o fazer de cada vez que vemos um filme — esta segunda-feira será preenchida por excertos memoráveis e exemplificativos da carreira e talento de Stanley Kubrick.


DE OLHOS BEM FECHADOS (1999)

'If you men only knew...'