O título em português de TOUCHING THE VOID referencia mais do que as provações físicas e mentais, vividas por Joe Simpson e Simon Yates, dois alpinistas britânicos que, em 1985, decidiram enfrentar — com um desenlace quase fatal — as escarpas geladas e traiçoeiras do Siula Grande, nos Andes. Na verdade, em todas as circunstâncias desta "História de Sobrevivência", fica subjacente uma profunda observação sobre a importância da tomada de decisões na vida e (tendo em conta o caso abordado pelo filme) na morte de qualquer um de nós.
Entrecruzando entrevistas a Simpson e Yates com a vívida e atmosférica recriação de uma escalada peculiarmente acidentada, Kevin Macdonald privilegia os contornos morais da situação em detrimento de qualquer exagero emocional, ou gratuitidade na apresentação de sofrimento humano, que a mesma poderia suscitar. Numa abordagem documental séria e cuidadosa, que não sofre por recorrer a técnicas como a Snorricam ou a distorções na sonoplastia — ferramentas até então exclusivamente presenciadas no cinema de ficção —, o espectador permanece facilmente envolvido nas implicações éticas das acções e poderosa superação humana dos intervenientes, as quais são, e sempre, os principais motores "narrativos" de TOUCHING THE VOID.
Objecto singular no seio do cinema documental dos anos 2000 (capaz, inclusive, de obrigar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a alterar as regras do Oscar de Melhor Documentário, para assim justificar a sua ausência entre os nomeados daquele ano), TOUCHING THE VOID — UMA HISTÓRIA DE SOBREVIVÊNCIA sacrifica o suspense e o grande espectáculo pela introspecção e a quietude das consequências da extrema iniciativa humana num dos piores cenários naturais do nosso planeta.
por Samuel Andrade.
Elenco
. Brendan Mackey (Joe Simpson), Nicholas Aaron (Simon Yates), Richard Hawking (O próprio), Joe Simpson (O próprio), Simon Yates (O próprio), Ollie Ryall (Richard Hawking)
Palmarés
. BAFTA: Melhor Filme Britânico (John Smithson, Kevin Macdonald)
As possibilidades de um homem como Robert McNamara ser fascinante objecto de estudo para um documentário poderiam afigurar-se mínimas. Nomeadamente por tratar-se de um tecnocrata assumido, um dos principais mentores do processo que levou aos indiscriminados bombardeamentos em massa sobre cidades japonesas durante a Segunda Guerra Mundial, Secretário da Defesa para os mandatos na Casa Branca de John F. Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon, e a quem foi dedicado o epíteto de "A Guerra de McNamara" para caracterizar o envolvimento militar norte-americano no Vietname. Contudo, THE FOG OF WAR: ELEVEN LESSONS FROM THE LIFE OF ROBERT S. MCNAMARA extravasa todos esses pressupostos.
Observar McNamara em pose de confissão, no indubitável estilo de Errol Morris de ter o seu "protagonista" olhos nos olhos do espectador, e a evocar as circunstâncias pivotais da sua longa carreira político-profissional, é um dos momentos de auto-revelação mais entusiasmantes e analíticos no Cinema dos Anos 2000. Figura pouco consensual entre a opinião pública norte-americana (devido, sobretudo, a algumas decisões militares por ele adoptadas), THE FOG OF WAR passa "a pente fino" o discurso íntimo (por vezes, demonstra-se um inusitado voz-off do filme) de McNamara com imagens de arquivo, documentos oficiais e gráficos explicativos, sem nunca parecer parcial ou acusador da personalidade que examina.
No fim, ficam revelações bombásticas de McNamara — como a sua opinião, a propósito da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, de que o conflito nuclear foi evitado apenas por "pura sorte" — e a dicotomia Bem versus Mal nas suas memórias para a digestão do observador de THE FOG OF WAR. Assim como as onze lições referidas no título original, semelhantes a ditados extraídos de A Arte da Guerra, para a reflexão da História (seja ela revisionista ou não) e do veredicto das gerações futuras:
1. forme empatia com o inimigo;
2. a racionalidade não nos salvará;
3. existe sempre algo para além de nós mesmos;
4. maximize a eficiência;
5. a proporcionalidade deve ser uma directriz na guerra;
6. obtenha a informação;
7. acreditar e ver podem estar errados ao mesmo tempo;
8. esteja preparado para reexaminar o seu raciocínio;
9. para fazer o bem, por vezes há que fazer o mal.
10. nunca diga nunca.
11. não é possível mudar a natureza humana.
por Samuel Andrade.
Elenco (imagens de arquivo)
. Robert McNamara, Errol Morris, Fidel Castro, Barry Goldwater, Lyndon Johnson, John F. Kennedy, Nikita Khrushchev, Curtis LeMay
Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Documentário (Errol Morris)
. National Board of Review: Melhor Documentário (Errol Morris)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Filme Não-Ficção (Errol Morris)
Sobre Errol Morris
Cineasta incisivo e cativante nos temas (guerra, crime, direitos humanos) que aborda e inovador (criou o Interrotron, sistema tecnológico que revolucionou o processo de entrevista em filmes documentais) na abordagem técnica, os seus filmes permitem a observação contemporânea da História das sociedades urbanas através de pontos de vista que, a priori, poderiam assemelhar-se como meros fait-divers. Da sua filmografia, destacam-se THE THIN BLUE LINE (1988), A BRIEF HISTORY OF TIME (1991), FIRST PERSON (2000) e STANDARD OPERATING PROCEDURE (2008).
Numa pequena cidade rural dos EUA, a construção de um grande centro comercial e o seu impacto ambiental são tema de uma audiência pública local, em que actores e não actores protagonizam os habitantes participantes no debate. — IndieLisboa.
De que outras formas dispõe a Democracia, além do "direito e dever cívicos" configurados no sufrágio universal, para se expressar? Segundo PUBLIC HEARING, obra de estreia do norte-americano James N. Kienitz Wilkins, a figura da audiência pública revela-se, neste título, como instrumento primordial de análise acerca das possibilidades do cidadão comum — desde o mais informado ao menos letrado — de apresentar, on the record perante as instituições do poder, a sua visão pessoal sobre determinado assunto.
Dramatizando o conteúdo das actas de uma audiência pública verídica, o filme de Kienitz Wilkins extravasa as meras palavras no papel através da criação de um ambiente multitextual, inteiramente centrado nas reacções (sempre registadas em close-up) dos vários intervenientes, "fastidioso" como a maioria dos procedimentos administrativos e em total desconstrução dos mecanismos do documentário de reconstituição factual.
Rodado no lustroso preto e branco do 16mm, PUBLIC HEARING é o mais recente e desafiador testemunho de como funciona a Democracia. Ou seja, e a vida real comprova-o, longa, intrincada, de árdua adesão integral e, no fim, de resultados e apreciação ambíguos.
[Filme exibido na secção Pulsar do Mundo durante o IndieLisboa 2013.]
Algures entre a orgânica de um documentário etnográfico e o cinema "árido" de Pedro Costa, EN CONSTRUCCIÓN é o retrato discreto mas estimulante da deslocação geográfica, estratificação social e obliteração cultural economicamente imposta ao bairro de El Chino, em Barcelona.
Enquanto regista ostensivamente a construção de um condomínio naquele bairro, financiado com dinheiros comunitários e parte integrante de um projecto com aspirações de requalificação residencial, José Luis Guerín concebe um documentário provocador e poético sobre a marginalização de vidas arrastadas pelo fluxo constante de demolição, construção, urbanização e despovoamento que a objectiva do filme captou ao longo de 18 meses. Na senda de um suposto renascimento económico, o elo mais fraco acaba por se revelar na gradual recessão (quase se poderia apelidar de "ocultação") da comunidade circundante às obras: emigrantes clandestinos, operários não-comunitários e trabalhadores sem segurança de prolongamento contratual após o término dos empreendimentos, assim como os naturais de El Chino que observam, serenos, impotentes e a partir das janelas de apartamentos que os próprios sabem um dia terem de abandonar, o inexorável erguer de habitações das quais nunca terão capacidade orçamental de usufruir.
Esta dicotomia é sublinhada por Guerín através do foco em Juani e Iván, um casal jovem que, no início do filme, acaba de receber ordem de despejo pela incapacidade de pagar a renda mensal. Sobrepondo a iminente condição de sem-abrigo dos protagonistas com o plano em que uma equipa de demolição arrasa o arruinado prédio de apartamentos (o qual ostentava um graffiti com o nome de Juani) para dar lugar a mais um novo local de construção, EN CONSTRUCCIÓN subverte a noção institucional de requalificação urbana em prol de uma nova economia. Pelo contrário, é uma dinâmica que apenas substitui a anterior, sem garantias de estabilidade social nem respeito cultural — nesse âmbito, o filme prende-se, a certa altura, na descoberta das ossadas e ruínas de um cemitério romano em El Chino, a imagem derradeira da impossibilidade de total descarte histórico das acções humanas.
Importante objecto de análise em torno da austeridade antes da afirmação da austeridade económica contemporânea, é obra fundamental para a compreensão do documentarismo dos anos 2000.
por Samuel Andrade.
Palmarés
. Prémios Goya: Melhor Documentário
. Festival Internacional de San Sebastián: Prémio Especial do Júri (José Luis Guerín), Prémio da Crítica, Prémio FIPRESCI,
. Fotogramas de Plata: Melhor Filme
A ARCA DO ÉDEN é um filme-poema sobre a memória e a preservação. Através de uma analogia discreta entre os problemas da conservação na botânica e no cinema, e seguindo os passos de um viajante indeciso entre guardar e descobrir, o filme liga o passado e o futuro, ambos míticos, da nossa luta com a perda do que nos rodeia e faz parte de nós.
A 2 de Abril de 2011, os LCD Soundsystem deram o seu último concerto no Madison Square Garden. SHUT UP AND PLAY THE HITS: O FIM DOS LCD SOUNDSYSTEM é, simultaneamente, uma narrativa cinematográfica que documenta esta actuação única e um retrato íntimo de James Murphy, antes do concerto e no dia seguinte, bem como as ramificações pessoais e profissionais da sua decisão.
Em 2011, os EUA deportaram cerca de 400 mil pessoas, atingindo um recorde histórico. São maioritariamente imigrantes ilegais oriundos dos países da América Central que são detidos na fronteira com o México. No entanto, há um conjunto de imigrantes deportados que são residentes legais de longa duração: é o caso dos muitos açorianos que, devido a penas criminais, todos os anos, são obrigados a regressar à sua terra natal, os Açores, um arquipélago português de 9 ilhas situado no Atlântico norte. São sobretudo homens que partiram ainda crianças com os seus pais à procura de uma vida melhor, que cresceram e viveram nos EUA e que, quando regressam, já não sabem falar a língua nem têm qualquer ligação com a ilha onde nasceram. Sem expectativas de encontrar uma casa, um trabalho, uma companheira, vão-se deixando desanimar em centros de acolhimento.
Entre recordações longínquas, esperanças abandonadas e a distância das pessoas queridas, a ilha paradisíaca vai-se transformando, lentamente, numa prisão a céu aberto.
Começando com uma análise incisiva da investigação policial de 1993 sobre o assassinato de três rapazes de oito anos Christopher Byers, Steven Branch e Michael Moore na pequena cidade de West Memphis, no Arkansas, o filme revela novas provas acerca da prisão de outros três jovens — Damien Echols, Jason Baldwin and Jessie Misskelley — acusados e condenados por este crime.
Os três eram ainda adolescentes quando se tornaram alvo da investigação policial; perderam 18 anos das suas vidas, presos por um crime que, veio agora a descobrir-se, não cometeram. O documentário é, em si, parte fundamental da história da luta de Damien Echols, condenado a pena de morte, para salvar a sua própria vida. — cinema.sapo.pt
O enviesamento factual, no âmbito do cinema documental, assume-se sempre como perigoso e natural influenciador das conclusões finais para o espectador. E, nos últimos tempos, A OESTE DE MEMPHIS será um dos exemplos mais flagrantes dessa circunstância: documentário activista, exaustivo na recapitulação de eventos, tecnicamente magistral e, sobretudo, frontalmente tendencioso no pior sentido da palavra. Amy Berg, Peter Jackson e Fran Walsh assumem a sua luta pela inocência dos — tal como foram denominados pela imprensa norte-americana — West Memphis Three; ilibam, incriminam e estigmatizam suspeitos com argumentos tão ou mais suspeitos quanto os apresentados no julgamento de 1994; e munem-se da exibição de vedetas para uma suposta legitimação de intenções.
O sentimento de frustração em relação a A OESTE DE MEMPHIS agrava-se quando analisamos a sua construção formal, pois trata-se um documentário capaz de provar (criativa e empiricamente), perante a câmara e através de interessantes pormenores de montagem e som, os factos que deitam por terra as penas impostas a Echols, Baldwin e Misskelley. Ou observe-se a forma como algumas testemunhas-chave no processo dos West Memphis Three confessam ter mentido em tribunal provocam ressonância imediata e duradoira.
A resolução alternativa do crime, proposta pelos cineastas, não se revela tão inspirada e ameaça, inclusivamente, desperdiçar o potencial do documentário. Na sua explanação, somos brindados com propaganda activista, emocionalmente esforçada e, a partir de certa altura, extenuante (a duração do filme — 150 minutos —, embora favoreça o discurso de todos os contornos do processo, nem sempre encontra razão de ser).
Grande parte do movimento que originou a produção de A OESTE DE MEMPHIS tomou outro documentário, PARADISE LOST: THE CHILD MURDERS AT ROBIN HOOD HILLS (1996, Joe Berlinger e Bruce Sinofsky), como ponto de partida. Deste lado, fica a sugestão que também se comece por esse título.
Durante cinco anos, Ed Pincus gravou episódios da sua vida com a esposa, Jane, os seus filhos e as várias mulheres com quem Ed teve casos amorosos. É, também, o retrato de uma era particular — o início dos anos 70, ou talvez, de forma mais precisa, o pós-anos 60 —, onde o ensejo de experienciação na vida, no amor e na expressão política ainda estava presente mas, do ponto de vista cultural, já começava a desvanecer. — sinopse traduzida de Harvard Film Archive.
Há quem o considere como um dos melhores documentários alguma vez produzidos. E aplicar esse veredicto a DIARIES, observando como Ed Pincus (realizador de actividade esporádica) "discute" o poder visual persuasivo do cinema de não ficção a partir da sua vida pessoal, ao longo de três horas de filme que mal se sentem e no seio de uma estética simultaneamente home video e cinematográfica — uma possibilidade para a qual o 16mm ainda não encontrou formato rival —, poderá não ser exagerado. Certo é estarmos perante um filme iconoclasta, singular, de culto instantâneo.
Surpreendentemente, e não obstante o seu alargado período de produção, não se sente em DIARIES qualquer natureza episódica nas cenas de convívio familiar, mais ou menos harmonioso, da casa de Pincus, ou nas interacções que o realizador vai tecendo com "personagens" geradas pela sociedade norte-americana da Administração Nixon — destaque para a fulgurante e, a espaços, surreal aparição de Dennis Sweeney, um jovem activista dos direitos humanos.
O desenvolvimento pessoal e emocional dos intervenientes no filme apresenta-se natural, fluído e, acima de tudo, real. Rapidamente, a omnipresença da câmara de Ed Pincus deixa de ser pressentida, e é então que percebemos o feito técnico e humano que DIARIES representa.
Retrato único de uma geração que, no actual sabor dos tempos, mostra-se menos distante do que se poderia supor, DIARIES é título obrigatório para os apreciadores do cinema documental e coloca, imediatamente, Pincus ao lado dos principais nomes do género dos anos 60 e 70, como Frederick Wiseman, D.A. Pennebaker ou Jonas Mekas.
Cine-diários dos Madredeus, de 1987 a 2006, da Europa ao Oriente. — Doclisboa 2012.
Documentário poético e experimental, VISÕES DE MADREDEUS extravasa os cânones do género do filme-concerto através do olhar sempre irrequieto e invulgar de Edgar Pêra e, acima de tudo, do que só um longo processo de maturação (afinal de contas, este é o produto de quase vinte anos a filmar os Madredeus) poderia ajudar a consolidar.
Do Teatro Ibérico até à "conquista" de Tóquio, com recursos que vão do Super 8 ao videotape, esta visão íntima do agrupamento musical fundado por Pedro Ayres de Magalhães é construída sem qualquer carácter biográfico directo — a evolução de Teresa Salgueiro, desde a tímida adolescência até ao seu "bailante" desprendimento em palco, a transformação da ambição e sucesso dos Madredeus, etc., apresentam-se subtilmente, sem legendas nem abundante voz-off. Apenas as imagens (mais ou menos nítidas), os sons (dos diegéticos aos totalmente distorcidos) e os acordes de O Pastor, Vaca de Fogo, Vem (Além de Toda a Solidão) e Haja o Que Houver configurados sob a égide criativa do cineasta português esteticamente mais inconformado da actualidade.
A experiência sensorial final é fresca, única e revigorante. Poderá não ser do agrado de todos, mas merece toda a exposição pública que lhe concederem.
A 2 de Abril de 2011, os LCD Soundsystem deram o seu último concerto em Madison Square Garden. O líder James Murphy decidira desmembrar uma das bandas mais famosas e influentes da sua geração no pico da sua popularidade. A extravagância de quase quatro horas esgotou de imediato e levou os milhares de espectadores às lágrimas de alegria e tristeza. — Doclisboa.
Para quem nunca ouviu falar de James Murphy nem dos LCD Soundsystem, SHUT UP AND PLAY THE HITS constituirá um agradável e, por registar o seu concerto de despedida, irónico cartão-de-visita a um singular percurso musical.
Situando-se entre o documentário e o filme-concerto (é nesta última "categorização" que Will Lovelace e Dylan Southern se desmarcam de outros títulos), explica o fenómeno cultural aqui abordado através das imagens, captadas por 13 câmaras e efusivamente montadas, de um Madison Square Garden lotado, da visão de fãs em lágrimas após os últimos acordes do concerto, do dia seguinte de James Murphy (com pequenos momentos que vão do jocoso ao comovente) determinado a não abandonar a música mas empenhado em não ficar "atolado" pela fama maciça.
No fim — do filme e dos LCD Soundsystem —, somos eficazmente brindados com o poder emocional que só um último concerto pode encerrar, ao mesmo tempo que realça o introspectivo perfil cultural de James Murphy. "Acho que o maior falhanço da minha vida será desistir", afirma ele a certa altura. Contudo, SHUT UP AND PLAY THE HITS será, com o tempo, tudo menos um falhanço para Murphy, para os realizadores e para nós. Muito recomendado.
Faz agora um ano que o Keyzer Soze dedicou um post aos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2001, nomeadamente através da referência a títulos que, no âmbito da ficção cinematográfica, tentaram expor os efeitos económicos, sociais e humanos daquele que será, definitivamente, o evento histórico mais significativo das primeiras décadas do Século XXI.
Hoje, e assinalando a data, debruçamo-nos sobre o que de melhor o cinema documental proporcionou durante os últimos anos: desde a crónica, em tempo real e em pleno ground zero, dos acontecimentos, até às reflexões sobre o que aconteceu e ainda está por explicar em relação àquele fatídico dia.
Seguem-se os cinco documentários, acompanhados de menção honrosa, que o Keyzer Soze's Place considera serem os melhores dedicados ao 11 de Setembro. E fica expressa a vontade, assim como o realce para a sua importância, de nunca deixar de ver o tema abordado pela vertente documental da Sétima Arte.
Documentário incendiado, realizado por um cineasta famoso pela sua também incendiada personalidade, critica a forma como o executivo de George W. Bush lidou com a informação fornecida pelos serviços secretos norte-americanos antes dos atentados, "autopsia", criativa, surpreendente e contundentemente, as relações pessoais e económicas entre a família Bin Laden e representantes do clã Bush — especulando, até, sobre o envolvimento Saudita no 11 de Setembro — e examina as consequências militares (obviamente, a Guerra do Iraque) subsequentes.
Inteiramente parcial e com alguma informação a carecer de veracidade e/ou investigação mais aprofundada, Michael Moore construi um autêntico "agitador" de consciências não só para o público dos Estados Unidos da América, como para todo o mundo ocidental.
As teorias de conspiração acerca dos reais quê, quem e porquê dos atentados do 11 de Setembro — ou seja, e segundo os criadores deste documentário, orquestrados pelo próprio governo norte-americano —, espalhou-se pela Internet que nem um rastilho, inspirou movimentos de cidadania (como o 9/11 Truth movement) dedicados a refutar a versão oficial dos acontecimentos e a exortar o espectador para que este "Ask Questions! Demand Answers!".
Dylan Avery, realizador amador mas pleno de coragem argumentativa, criou aqui um dos documentários consagrados ao 11 de Setembro mais desafiadores da última década e inteiramente merecedor de ser visto e reflectido (em baixo, o documentário integral na sua versão final).
Rodado antes, durante e depois dos atentados, este documentário de 13 minutos e rodado a preto-e-branco com uma câmara Cine-Kodak operada manualmente, é o título mais experimental e menos conhecido dos aqui reunidos.
Inicialmente planeado como um relato da viagem de Terry 'Coyote' Murphy em busca das origens do seu povo, acabou por resultar no confronto do protagonista com as diferenças no quotidiano nova-iorquino provocadas pelo 11 de Setembro e na forma como a ilha de Manhattan se converteu em local de luto e peregrinação para milhares de familiares das vítimas daquele dia. Temática e tecnicamente irreverente, peca apenas pela sua escassa divulgação.
The Falling Man refere-se a uma fotografia, captada pelo fotógrafo da Associated Press Richard Drew, exibindo um homem em queda livre da Torre Norte do World Trade Center. Esse indivíduo (a revelação da sua identidade é um dos temas do documentário) foi um de entre as 200 pessoas que, aparentemente, resolveram "desafiar a morte" daquela forma em vez de sucumbirem ao fumo e fogo que lavravam nos edifícios — indubitavelmente, um dos desenlaces mais sensíveis dos atentados do 11 de Setembro de 2001.
9/11: THE FALLING MAN é um documentário sobre aquela imagem e a sua história. E entre todas as pistas, depoimentos recolhidos e trabalho de investigação desenvolvido para o filme, as respostas a que chega não são inteiramente conclusivas (em baixo, o documentário integral).
Produzido para o Canal História, recorre a uma miríade de imagens de arquivo (sobretudo da cobertura televisiva por inúmeros canais de informação e vídeos amadores) para descrever, quase em tempo real, a natureza dos eventos, a reacção emocional dos nova-iorquinos e as diversas perspectivas durante o desenrolar dos atentados.
Fabulosa montagem de imagens de arquivo, reveladora da incompreensão, terror e imediatismo inerentes à magnitude do que aconteceu, a 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque (em baixo, o documentário integral).
Originalmente pensado como um retrato sobre o quotidiano de um bombeiro nova-iorquino, a receber formação num quartel situado a poucos quarteirões do World Trade Center, as objectivas dos irmãos Jules e Gédéon Naudet capturam, em primeira mão, o início e desenrolar dos atentados terroristas do 11 de Setembro de 2011.
Para mim, o melhor cinema documental será sempre aquele que mostra a realidade sem filtros, sem propagandas e elaborado, quase integralmente, a partir de raw footage. Foi com essa filosofia que os realizadores construíram um documentário cru e imediato onde não se dissecam razões, consequências, responsáveis nem moralismos; as imagens e os sons tornam qualquer voz-off inútil perante a veracidade de uma peculiar e trágica situação à qual, acidentalmente, os irmãos Naudet ficaram associados.
Filme sobre o trabalho de Helena Almeida, artista plástica que, desde o final dos anos 60, tem desenvolvido uma obra na qual explora os limites da auto-representação e as fronteiras dos diferentes meios que utiliza, sejam eles a pintura, o desenho, a fotografia ou o vídeo.
PINTURA HABITADA centra-se nas várias fases e elementos envolvidos no elaborado processo criativo através do qual Helena Almeida constrói os seus trabalhos, desde os primeiros estudos à exposição das obras acabadas.
É um filme sobre a artista plástica Helena Almeida. Mas dizer isto, que é "sobre Helena Almeida", talvez seja abusivo, visto que a "biografia" está longe de ser o centro do filme — e o facto de raramente vermos o rosto da artista (nalguns planos, ostensivamente cortado pelo enquadramento) só amplia essa dimensão: não se quer retratar uma "figura", quer-se expor o relacionamento entre a artista, o trabalho e a obra, ver de que maneira o corpo (as mãos, exemplo prioritário) "habita" a sua pintura, a sua fotografia, o seu vídeo.
Realizador e montador britânico, Geoffrey Jones ficou, desde muito cedo, fascinado pelo cinema de Dziga Vertov. Influência plenamente visível nos seus filmes, autênticas pérolas documentais que harmonizam magistralmente imagem, música, ritmo e publicidade.
Tal como os primeiros títulos de Joris Ivens (aqui destacado na semana passada), Jones destacou-se com o chamado "filme industrial", nomeadamente através de um pequeno conjunto de filmes encomendados por empresas como a British Transport Commission, a Shell ou a British Petroleum (a actual BP).
As três curtas-metragens abaixo partilhadas falam por si: merecedoras de atenção à captação do espírito económico que retrata, ao modo como a montagem aparenta ser familiar e nova ao mesmo tempo e, no primeiro título, digno de nomeação a Óscar.
Os primeiros anos da cinematografia do realizador holandês Joris Ivens são marcados por uma abordagem documental dinâmica e "primordial" aos sujeitos registados pela câmara.
Com o rosto humano muitas vezes capturado em planos dramáticos e expressionistas, e pela exibição de uma peculiar atenção poética a detalhes de maquinaria e engenharia, o cinema de Ivens demonstra-se vincadamente influenciado pelos estilos de René Clair, Sergei Eisenstein ou Dziga Vertov. Contudo, é também revelador de um olhar inteiramente original e merecedor de ser situado no mesmo patamar daqueles nomes.
Os quatro filmes abaixo publicados são exemplos de cinema puro, inseridos num género que alguns autores denominam de "filme industrial" e, numa perspectiva mais sociológica do que cinematográfica, potenciadores da observação de uma era onde Humanidade e desenvolvimento tecnológico — apesar dos "revezes" plenamente subentendidos na obra de Joris Ivens — coexistiam de modo pacífico e frutífero.
Documentário encomendado pela Philips Eindhoven Company (a qual, mais tarde, recusou-se a exibi-lo integralmente), esta descrição poética de processos industriais é, também, uma peça de enorme ambivalência sobre como a mecanização, consciente ou inconscientemente, desumaniza a sociedade.
«Seguiremos o caminho do socialismo através da rápida industrialização e deixaremos para trás a perpétua "privação Russa" de uma vez por todas. Seremos uma nação de automóveis e tractores». As palavras de Estaline, citadas a certa altura neste documentário, ganham forma no estilo — quase contraído pela força da propaganda dos seus preceitos — visual de Joris Ivens.
Documentário sobre o processo que originou o nome Países Baixos (ou seja, a constituição, através de diques e barragens, de terra onde antes existia mar), contrapõe a mecânica da formação de um dique com o drama da pobreza dos trabalhadores envolvidos nesse trabalho. A mensagem política final, denunciado a especulação em torno do preço de cereais, afigura-se surpreendentemente actual.
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.