domingo, maio 13, 2012

5 Momentos Memoráveis

#17: Tim Burton



A propósito da estreia, esta semana em Portugal, de SOMBRAS DA ESCURIDÃO, o Keyzer Soze arrisca o exercício de desconstrução da carreira de Tim Burton em cinco sequências, acompanhadas da sempre obrigatória menção honrosa, para exemplificar a natureza do cinema de um dos autores que, centrado em mundos fantásticos, personagens excêntricas e na vincada dicotomia mundano versus irreal, perfilou uma das obras mais icónicas das últimas três décadas.

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MENÇÃO HONROSA: A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)



Ao adaptar um conto de Washington Irving, um dos mais conhecidos e estudados na cultura anglo-saxónica, Burton desenvolveu aquele que terá sido o seu maior pico de forma narrativa e visual, revelando-se este filme como obrigatório para fãs do universo do realizador.

A narração minuciosa das origens e destino do cavaleiro mencionado no título transporta-nos ao passado através da curiosa analogia visual entre as labaredas de uma lareira e o fogo que consome a floresta da batalha, de onde emerge, apropriadamente demoníaco, Christopher Walken num dos papéis mais radicais da sua carreira.



5. BATMAN (1989)



É quase impossível enumerar todas as influências (film noir, estética gótica, humor negro, expressionismo alemão, a própria banda desenhada criada por Bob Kane) que Burton emprestou à sua visão do vingador solitário de Gotham City. Mas mais impressionante que a escolha de Michael Keaton para encarnar Batman, foi observar Jack Nicholson na pele do Joker.

Mais cartoonesco do que se poderia imaginar para um filme em imagem real, mas absolutamente plausível no seio de um universo oriundo de banda desenhada, Nicholson alia a maquilhagem do palhaço, o "charme" do gangster, uma gargalhada cavernosa e algumas partidas de mau gosto para conceber este tenebroso e hilariante resultado final.



4. O GRANDE PEIXE (2003)



O romance no cinema de Tim Burton foge, completamente e pelos seus atributos estéticos, aos padrões de Hollywood. EDUARDO MÃOS-DE-TESOURA (1990) demonstrou-o bem — a história de um ser humano fabricado e, pela morte do seu criador, incompleto mas capaz de encontrar amor genuíno.

No seio desse desígnio, estão as constantes fantasia e ironia burtonescas, que infundem quotidianos reconhecíveis de elementos surpreendentemente oníricos. E, a julgar por esta surpreendente e peculiar definição de "amor à primeira vista", o mesmo se adapta aos mais puros sentimentos românticos.



3. ED WOOD (1994)



No seu filme menos "fantasioso", Burton também aposta no ocasional momento de imaginário. Neste que é o único biopic da sua carreira, nostalgicamente rodado a preto e branco, reclama-se uma série de ideais cinematográficos (paixão, inocência, o cinema pelo cinema) difíceis de descobrir nos nossos dias.

Esses méritos são personificados pela encenação do encontro fortuito (do qual não existem quaisquer registos de que alguma vez tenha ocorrido) entre Orson Welles e Ed Wood — respectivamente, e segundo os historiadores, o melhor e o pior cineasta de todos os tempos. Se a qualidade do cinema produzido por ambos era completamente díspar, esta sequência almeja sugerir uma partilha de aspirações artísticas. E em vez de Welles ou Wood, essa vontade poderia muito bem ser expressa pelo próprio Burton, um autor que também sofreu constrangimentos impostos pelos "moneymen"...



2. BATMAN REGRESSA (1992)



Mistletoe can be deadly if you eat it, but a kiss can be even deadlier if you mean it. Sem dúvida! Com Tim Burton, uma obra artística direccionada para públicos juvenis (as personagens criadas por Bob Kane é exemplo máximo disso) pode assumir, como aqui se demonstra, contornos de violência física, ambiguidade verbal e eminentemente eróticos.

A desconstrução de imagéticas populares é motivo recorrente na obra de Burton — basta lembrar as presenças constantes do Natal ou do Halloween nos seus filmes —, mas tal, em nenhum outro momento, foi tão longe como este rendez-vous entre Batman e Catwoman. Memorável para o espectador, problemático junto da Motion Picture Association of America. O filme ressentiu-se crítica e financeiramente, mas tal não nos omitiu esta cena fabulosa.



1. A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)



Não é preguiça nem ausência de imaginação que me faz reiterar este título na presente lista. Tal acontece por causa deste momento memorável, um portento visual único, capaz de englobar todas as características do realizador: o sobrenatural como motor da acção, a paleta de cores nocturna e inundada de sombrios contrastes, o design gótico do cenário, a presença de um olhar infantil amedrontado, a banda sonora de Danny Elfman (colaborador regular de Burton) plenamente realçada, o Halloween e outras criaturas míticas recriadas por um brinquedo de criança... Material inconfundivelmente burtoniano.

Esta sequência possui um pequeno spoiler, mas está longe de ser prejudicial para quem não conhece o filme. Contudo, merece ser revista vezes sem conta. Se não for pelo ritmo viciante da mesma, que seja pela detecção de inúmeras nuances recorrentes na filmografia de Tim Burton.



1 comentário:

Inês Moreira Santos disse...

Excelentes destaques da filmografia do Burton. Confesso duas falhas minhas na tua lista, a corrigir em breve.

Óptimo artigo, como sempre.
Cumprimentos cinéfilos :*