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domingo, abril 28, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Confissões de Schmidt, de Alexander Payne




Quando ganhou em 2002 o Globo de Ouro na categoria de Melhor Actor num Drama pelo seu (grande) papel em AS CONFISSÕES DE SCHMIDT, Jack Nicholson disse no seu discurso que "bem, não sei se deva estar feliz ou com vergonha, já que pensei que tínhamos feito uma comédia...".

E AS CONFISSÕES DE SCHMIDT, belíssimo filme de Alexander Payne, é, efectivamente, um filme que caminha frequentemente entre esses dois géneros, apoiando-se sempre na base da trama que explora aquela que é, afinal de contas, aquela tragédia a que havemos de chegar todos a certa altura: o momento em que percebemos que já não temos assim tantos anos de existência, quando estamos já na reforma e nos achamos incapazes de fazer muito mais além de ver o Querida Júlia e jogar bingo, sendo forçados a perguntar-nos "Então, mas afinal de contas o que é que eu fiz exactamente desta coisa a que chamam de vida?".

Este medo, esta crise de velha-idade a que provavelmente havemos de chegar, é daquelas coisas mais banais e universais da humanidade, representada aqui pela personagem normal e universal que é Schmidt, o velhote reformado que, após a morte da mulher (que, após décadas de casamento, achava até bastante chata), embarca numa viagem de auto-descoberta na esperança de descobrir o que foi a sua vida, o que dela fez, e até que ponto pode ainda marcar o futuro daquela que deveria ser, supostamente, a pessoa mais próxima que tem: a sua filha, com quem tem uma relação menos que terna, que o olha como aquele pai velhote e rezingão que já não tem muito a dizer sobre seja o que for, e que vai casar com um bronco de rabo-de-cavalo que o pai não aprova.

Jack Nicholson tem aqui aquele que é, realmente, um dos maiores papéis da sua carreira. Um dos maiores ícones de Hollywood, o charmoso irresistível que assim continua mesmo nos seus 60 e tal anos, é aqui visto sem charme, sem estilo e sem poder. Aqui, Nicholson está careca, desajeitado, ignorado, e desesperado por saber o que deixará para trás quando a sua vida chegar ao fim. E está muito, mas mesmo muito bem.

Alexander Payne, autor respeitado e pequeno mestre nestas explorações dramo-cómicas do quotidiano universal, atingiu aqui o seu pico: AS CONFISSÕES DE SCHMIDT faz-nos passar do "haha" ao "aww" em poucos segundos, e fá-lo sempre com uma facilidade enorme, sem qualquer tipo de manipulação, com um espírito de cinema honesto e simples que hoje em dia é raro (principalmente em qualquer obra que tenha, como protagonista, uma das maiores estrelas do Cinema). Payne, que tanto realiza como co-escreve o argumento, tem aqui uma realização tanto sóbria como inspirada, explorando bem tanto os momentos mais hilariantes (e nem são poucos: veja-se, por exemplo, literalmente qualquer uma das cenas com Kathy Bates) como os mais belos. O filme "respira", com um elenco todo em bom nível a ter tempo para mostrar o seu talento (tanto Hope Davis como Dermot Mulroney, este em modo de constante comic-relief, estão muito bem), e com a história sempre a ser contada ao ritmo certo, da forma certa.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT assenta, claro, muito sobre os ombros de Nicholson. Mas há que reconhecer também o talento de Payne em aproveitar tão bem esta superestrela da velha-guarda, em despir Nicholson tão bem e o mostrar tão frágil e, diga-se, tão parecido a tantos outros velhotes reformados que vemos a passar na rua. Por vezes, o trabalho de um bom realizador não é tanto o de nos espetar com a sua realização na cara, mas mais o de deixar que a história se vá contando a si mesma, interpretada por actores que bem o sabem; e aqui temos exactamente isso.

E depois há, claro, aquele final; aquele pequeno murro no estômago que tanto comove quanto dá que pensar, que mostra um Nicholson em close-up com lágrimas pela face, rugas na testa, e um olhar tão genuíno que faz com que as lágrimas dele passem para nós. É aquele final que nos é dado quando achamos que não há final optimista num filme com momentos tão cómicos, aquele momento de Cinema com C capital que vem quando menos esperávamos, quando encaramos Schmidt com tristeza e simpatia em iguais-medidas. E é naqueles minutos finais que o filme revela aquela bela verdade tão universal quanto a personagem que lhe dá título: muito frequentemente a nossa própria vida mede-se não tanto pelo que nos deu a nós, mas mais pelo que deu aos outros.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT pode ter um nome muito específico no seu título de duas palavras, mas refere-se, afinal de contas, a todos nós que andamos ora aos encontrões no metro ora a olhar para o relógio que não pára... e que, a certa altura, vai começar a ficar sem corda, fazendo-nos questionar exactamente o que é que andamos a fazer aquele tempo todo.

por Gonçalo Trindade (Ante-Cinema).

Elenco
. Jack Nicholson (Warren Schmidt), Kathy Bates (Roberta Hertzel), Hope Davis (Jeannie Schmidt), Dermot Mulroney (Randall Hertzel), June Squibb (Helen Schmidt), Howard Hesseman (Larry Hertzel), Harry Groener (John Rusk)


Palmarés
. Globos de Ouro: Melhor Actor — Drama (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)
. National Board of Review: Melhor Actriz Secundária (Kathy Bates)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Filme, Melhor Actor (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme, Melhor Actor (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)


Sobre Alexander Payne

Figura proeminente do novo cinema norte-americano, os seus filmes são marcados pela apresentação satírica e pessimista da sociedade moderna e por protagonistas cujos defeitos não desviam a empatia por parte do espectador. Da sua filmografia, destacam-se CITIZEN RUTH (1996), ELECTION (1999), (2004) e OS DESCENDENTES (2011, Oscar de Melhor Argumento Adaptado).



domingo, maio 13, 2012

5 Momentos Memoráveis

#17: Tim Burton



A propósito da estreia, esta semana em Portugal, de SOMBRAS DA ESCURIDÃO, o Keyzer Soze arrisca o exercício de desconstrução da carreira de Tim Burton em cinco sequências, acompanhadas da sempre obrigatória menção honrosa, para exemplificar a natureza do cinema de um dos autores que, centrado em mundos fantásticos, personagens excêntricas e na vincada dicotomia mundano versus irreal, perfilou uma das obras mais icónicas das últimas três décadas.

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MENÇÃO HONROSA: A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)



Ao adaptar um conto de Washington Irving, um dos mais conhecidos e estudados na cultura anglo-saxónica, Burton desenvolveu aquele que terá sido o seu maior pico de forma narrativa e visual, revelando-se este filme como obrigatório para fãs do universo do realizador.

A narração minuciosa das origens e destino do cavaleiro mencionado no título transporta-nos ao passado através da curiosa analogia visual entre as labaredas de uma lareira e o fogo que consome a floresta da batalha, de onde emerge, apropriadamente demoníaco, Christopher Walken num dos papéis mais radicais da sua carreira.



5. BATMAN (1989)



É quase impossível enumerar todas as influências (film noir, estética gótica, humor negro, expressionismo alemão, a própria banda desenhada criada por Bob Kane) que Burton emprestou à sua visão do vingador solitário de Gotham City. Mas mais impressionante que a escolha de Michael Keaton para encarnar Batman, foi observar Jack Nicholson na pele do Joker.

Mais cartoonesco do que se poderia imaginar para um filme em imagem real, mas absolutamente plausível no seio de um universo oriundo de banda desenhada, Nicholson alia a maquilhagem do palhaço, o "charme" do gangster, uma gargalhada cavernosa e algumas partidas de mau gosto para conceber este tenebroso e hilariante resultado final.



4. O GRANDE PEIXE (2003)



O romance no cinema de Tim Burton foge, completamente e pelos seus atributos estéticos, aos padrões de Hollywood. EDUARDO MÃOS-DE-TESOURA (1990) demonstrou-o bem — a história de um ser humano fabricado e, pela morte do seu criador, incompleto mas capaz de encontrar amor genuíno.

No seio desse desígnio, estão as constantes fantasia e ironia burtonescas, que infundem quotidianos reconhecíveis de elementos surpreendentemente oníricos. E, a julgar por esta surpreendente e peculiar definição de "amor à primeira vista", o mesmo se adapta aos mais puros sentimentos românticos.



3. ED WOOD (1994)



No seu filme menos "fantasioso", Burton também aposta no ocasional momento de imaginário. Neste que é o único biopic da sua carreira, nostalgicamente rodado a preto e branco, reclama-se uma série de ideais cinematográficos (paixão, inocência, o cinema pelo cinema) difíceis de descobrir nos nossos dias.

Esses méritos são personificados pela encenação do encontro fortuito (do qual não existem quaisquer registos de que alguma vez tenha ocorrido) entre Orson Welles e Ed Wood — respectivamente, e segundo os historiadores, o melhor e o pior cineasta de todos os tempos. Se a qualidade do cinema produzido por ambos era completamente díspar, esta sequência almeja sugerir uma partilha de aspirações artísticas. E em vez de Welles ou Wood, essa vontade poderia muito bem ser expressa pelo próprio Burton, um autor que também sofreu constrangimentos impostos pelos "moneymen"...



2. BATMAN REGRESSA (1992)



Mistletoe can be deadly if you eat it, but a kiss can be even deadlier if you mean it. Sem dúvida! Com Tim Burton, uma obra artística direccionada para públicos juvenis (as personagens criadas por Bob Kane é exemplo máximo disso) pode assumir, como aqui se demonstra, contornos de violência física, ambiguidade verbal e eminentemente eróticos.

A desconstrução de imagéticas populares é motivo recorrente na obra de Burton — basta lembrar as presenças constantes do Natal ou do Halloween nos seus filmes —, mas tal, em nenhum outro momento, foi tão longe como este rendez-vous entre Batman e Catwoman. Memorável para o espectador, problemático junto da Motion Picture Association of America. O filme ressentiu-se crítica e financeiramente, mas tal não nos omitiu esta cena fabulosa.



1. A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)



Não é preguiça nem ausência de imaginação que me faz reiterar este título na presente lista. Tal acontece por causa deste momento memorável, um portento visual único, capaz de englobar todas as características do realizador: o sobrenatural como motor da acção, a paleta de cores nocturna e inundada de sombrios contrastes, o design gótico do cenário, a presença de um olhar infantil amedrontado, a banda sonora de Danny Elfman (colaborador regular de Burton) plenamente realçada, o Halloween e outras criaturas míticas recriadas por um brinquedo de criança... Material inconfundivelmente burtoniano.

Esta sequência possui um pequeno spoiler, mas está longe de ser prejudicial para quem não conhece o filme. Contudo, merece ser revista vezes sem conta. Se não for pelo ritmo viciante da mesma, que seja pela detecção de inúmeras nuances recorrentes na filmografia de Tim Burton.



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