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quarta-feira, maio 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Vai e Vem, de João César Monteiro




O último filme de João César Monteiro antes da sua morte, e o único por ele realizado nos anos 2000, é um perfeito compêndio de toda a sua carreira. A exibição de um feroz anti-clericalismo, a sensualidade rítmica e sonora da língua portuguesa, a atitude peculiar expressa em exercícios de jocosa pantomima, a veneração romântica e física pela figura da jovem mulher e a observação do estado do mundo através de diálogos repletos de "sabedoria e escárnio popular" são as marcas de um autor, no contexto cinematográfico europeu, sem paralelo, e estão fulgurosamente presentes em VAI E VEM.

Assumindo o corpo e alma de João Vuvu — "descendente directo" do seu alter-ego João de Deus (RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA, A COMÉDIA DE DEUS e AS BODAS DE DEUS são onde se presenciou às suas manifestações anteriores) —, VAI E VEM é uma aparente obra fílmica sem acção nem história lineares. Entre a busca do protagonista pela mulher-a-dias ideal e a sua vivência que parece decorrer, maioritariamente, no interior dos autocarros da Carris, o filme detalha, retirando assim a sua essência, uma série de encontros (alguns deliciosamente surreais) entre João Vuvu e os sucessivos diálogos que empreende com fugazes personagens secundárias. O poder da palavra sobressai ao ritmo do argumento com princípio, meio e fim, na total confluência com o estilo que sempre distinguiu João César Monteiro.

VAI E VEM é, igualmente, um dos "filmes-requiem" mais notáveis da História do Cinema. Sem esconder a percepção, no momento das rodagens, da sua iminente finitude, Monteiro aborda aqui a mortalidade de modo totalmente inusitado — excepto no humor que obtém desse processo. Inesperada será, ainda, a compaixão e ternura desarmantes que demonstra, perto da conclusão do filme, na conversa que troca com um jovem acordeonista:

«Que idade tens?»
«Vou fazer 11 anos.»
«Talvez faças, talvez não; por mim, fazias.»

Reconciliado ou não com a Humanidade, certo é que João César Monteiro não deixou de, até ao fim, fruir todos os prazeres da vida, de arrasar por inteiro o politicamente correcto, de sucumbir às fraquezas do corpo, de alinhar em qualquer gládio verbal. E despede-se do mundo (tal como o longo e estático plano final de VAI E VEM comprova) enfrentando directamente, e olhos nos olhos, o seu próprio espectador.

por Samuel Andrade.

Elenco
. João César Monteiro (João Vuvu), Rita Pereira Marques (Adriana / Urraca), Joaquina Chicau (Custódia), Manuela de Freitas (Fausta), Ligia Soares (Narcisa), José Mora Ramos (Senhor Zé Aniceto), Rita Durão (Jacinta)


Palmarés
. Festival Internacional de São Paulo: Prémio Perspectivas (João César Monteiro)


Sobre João César Monteiro

Uma das figuras mais indeléveis e controversas do Cinema Português, a sua obra, guiada por uma estética arcaica de profundo ateísmo e imaginação simultaneamente cosmopolita e provinciana, tem sido alvo de diversas reflexões com a constante afirmação do estatuto artístico único de João César Monteiro. Da sua filmografia, destacam-se QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO (1971), SILVESTRE (1982), RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989), A COMÉDIA DE DEUS (1995), AS BODAS DE DEUS (1999) e BRANCA DE NEVE (2000).



quinta-feira, maio 31, 2012

Agenda Cinematográfica

:: ESPAÇO NIMAS ::

CICLO: Lisboa - A Cidade no Cinema



O Espaço Nimas, incontornável na cultura cinéfila da cidade de Lisboa, tem primado pela abertura das suas portas a novas iniciativas e programações, fomentando uma relação criativa e permanente com o quotidiano da cidade. Desta vez, o Espaço Nimas associa-se às FESTAS DE LISBOA 2012 para uma programação especial que destaca o apelo cinematográfico que a capital portuguesa exerceu ao longo dos anos junto dos realizadores nacionais e internacionais.

Percorrendo filmes de autores como José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Fernando Lopes, Alain Tanner, Raúl Ruiz ou Wim Wenders, este ciclo imperdível inicia-se a 1 de Junho e prolonga-se durante três fins-de-semana até 17 de Junho.

Detalhes da programação aqui.

terça-feira, agosto 23, 2011

#21



... segundo o João Lameira, do blog Numa Paragem do 28:

Para evitar os óbvios escolhos das escolhas, criei para mim mesmo um critério: seleccionar filmes formativos da minha cinefilia. O que implica, obviamente, escolher algumas obras que, nesta altura da minha vida, já não considero primas. (Mas negá-las seria negar-me). Não vou destacá-las, descubram quais são. Nos outros filmes, continuo a vislumbrar grandeza: alguns foram vistos recentemente (um, dois anos), mas não são menos marcantes.

. BLOW OUT — EXPLOSÃO
(1981, Blow Out, Brian De Palma)



O final mais triste do cinema: não é unhappy, é sad. Ou como um grito é, ao mesmo tempo, instrumento de trabalho e de maceração. Depois de OBSESSION, a descida a fundo à obsessão De Palma (a que o próprio só voltaria e força anos mais tarde com FEMME FATALE).

. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
(1985, Once Upon a Time in America, Sergio Leone)



A memória (deturpada), a nostalgia (desfocada), de todos os yesterdays, sobre uma amizade masculina muito perto do amor homossexual. A mulher, aqui, é só mais uma arma de arremesso.

. RIO BRAVO
(1959, Rio Bravo, Howard Hawks)



De novo, a amizade masculina: um xerife, um bêbado, um coxo e um imberbe cantor vão passando o tempo enquanto não são atacados. A mulher, aqui, não assume o mesmo papel do homem, mas batalha com ele.

. OS CHAPÉUS DE CHUVA DE CHERBURGO
(1964, Les Parapluies de Cherbourg, Jacques Demy)



O amor romântico e juvenil, e o seu reverso: a vida. A gasolina nunca cheirou tão bom, assim (en)cantada.

. CONTO DE VERÃO
(1996, Conte d'été, Eric Rohmer)



Amores juvenis e pueris numa estância balnear. Melvil Poupaud haveria de regressar à praia, para morrer. Mas, neste filme, a morte ainda vem longe e é a vida pequenina (a vida) que comanda.

. PARA ALÉM DO PARAÍSO
(1984, Stranger Than Paradise, Jim Jarmusch)



Jovens perdidos em amores mais do que de amores. Lurie, Balint, Edson. Três músicos à deriva no grande mapa americano. A Nova Iorque dos anos 80 ergue-se para a nostalgia que não tardaria.

. BASQUIAT
(1996, Basquiat, Julian Schnabel)



A nostalgia da Nova Iorque dos anos 80 em flor. Schnabel disfarça-se de personagem e filma um dos poucos artistas que foram maiores do que ele (mesmo que tivesse de morrer). Jeffrey Wright mostrou-se como o grande actor da sua geração.

. OS DIAS DA RÁDIO
(1987, Radio Days, Woody Allen)



Outra nostalgia. Outra Nova Iorque. Queens dos anos 40, ou melhor, os sons que se ouviam em Queens nos anos 40. A melhor versão de AMARCORD.

. A COMÉDIA DE DEUS
(1995, A Comédia de Deus, João César Monteiro)



Ainda outra nostalgia: de uma Lisboa que se foi e não existe, que a morte de César Monteiro ajudou a empurrar. O segundo tomo, e o melhor, da grande trilogia do senhor João de Deus.

. SYNDROMES AND A CENTURY
(2006, Sang sattawat, Apichatpong Weerasethakul)



A grande revelação dos últimos dez anos. Um prazer no e pelo cinema que não sentia há muito, o maravilhamento absoluto.

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Obrigado, João, pela tua participação!