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terça-feira, abril 30, 2013

O Cinema dos Anos 2000: A Última Hora, de Spike Lee




O meu primeiro encontro com o filme de Spike Lee foi na verdade, um encontro às cegas. Dele, nada conhecia. Entrada numa sala de cinema sem saber bem o que iria ver. Pouco me impressionou na altura, mas há filmes que necessitam de uma certa maturidade para os podermos receber. E foi mesmo isso com este A ÚLTIMA HORA, mais tarde revelando-se para mim um dos mais importantes desta década dos ‘00.

Uma história sobre um condenado e as suas últimas 24 horas de liberdade no mundo exterior, poderá não trazer, à partida, nada de novo. Mas se há coisa que admiro no cinema de Lee é o seu poder de conceber personagens fortíssimas envoltas num turbilhão de emoções. Neste caso, como é óbvio Norton desempenha um papel fulcral e é ele a cara de um homem que chega ao limite, que vê toda a sua vida desperdiçada. A cidade é Nova Iorque, como não poderia deixar de ser. Uma cidade ferida, pós 11 de Setembro.

História de perda mas também de descoberta e reflexão. A culpa é só de Monty por estar na situação em que está. Monty é o espelho do Ser Humano, sempre à procura de um culpado. A namorada, o pai, os amigos, a própria América. O "fuck you Monty" em frente ao espelho é um dos grandes momentos do cinema do norte-americano. Aquele último dia de liberdade iria mudar Monty, talvez mais ainda do que a própria vida na prisão, mas isso não sabemos, e talvez nem importe. Fico-me com o momento final, mesmo a última cena do filme, em que o personagem principal viaja para anos mais tarde. A ÚLTIMA HORA é sem sombra de dúvida a obra-prima de Spike Lee.

por João Gonçalves (Modern Times).

Elenco
. Edward Norton (Monty Brogan), Philip Seymour Hoffman (Jacob Elinsky), Barry Pepper (Frank Slaugherty), Rosario Dawson (Naturelle Riviera), Anna Paquin (Mary D'Annunzio), Brian Cox (James Brogan)


Palmarés
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Edward Norton)


Sobre Spike Lee

Embora tenha abordado diversas temáticas (contrastes raciais, o quotidiano de comunidades negras nova-iorquinhas, o papel dos media nas sociedades contemporâneas, crime e pobreza urbanos e questões políticas), a carreira de Spike Lee revela-se como uma das mais heterogéneas no panorama do cinema norte-americano durante as últimas três décadas. Da sua filmografia, destacam-se NÃO DÊS BRONCA (1989), A FEBRE DA SELVA (1991), MALCOLM X (1992), VERÃO ESCALDANTE (1999) e INFILTRADO (2006).



sexta-feira, agosto 31, 2012

Festival de Veneza 2012 — Dia 3



No dia em que Veneza teve a oportunidade de ver a versão restaurada de AS PORTAS DO CÉU (1980), a magnus opus de Michael Cimino cuja ambição quase faliu a United Artists, foram exibidos alguns dos títulos em competição menos conhecidos mas, artisticamente, mais "agitadores".

Michael Cimino a receber o Prémio Persol 2012

. PARADIES: GLAUBE, de Ulrich Seidl (Selecção Oficial)

Ulrich Seidl, criador das primeiras imagens memoráveis de Veneza 2012

«The second part of an interconnected trilogy, this portrait of a middle-aged femme missionary is a bit more accessible than its predecessor, if any film that features masturbation with a crucifix could be called accessible.»
Leslie Felperin, in Variety.

«Seidl almost entirely uses languid, symmetrical, static tableaus of shots, (...) and it’s the kind of stark, European feel that could well alienate some.»
Oliver Lyttelton, in indieWIRE.

. AT ANY PRICE, de Ramin Bahrani (Selecção Oficial)

Zac Efron e Maika Monroe na sessão de gala para AT ANY PRICE

«Out of nowhere, it's heading to violence, crime, guilt. But Bahrani doesn't seem to know how to handle these darker themes and finally, evasively, the movie behaves as if it hasn't happened.»
Peter Bradshaw, in The Guardian.

«An engrossingly serious-minded heartland drama, rich in moral ambiguity, that examines the challenging relationship of fathers and sons in the difficult terrain of modern commercial farming.»
David Rooney, in The Hollywood Reporter.

. WADJDA, de Haifaa Al Mansour (Orizzonti)

A realizadora Haifaa Al Mansour com a jovem protagonista Waad Mohammed

«It tells the story of this ten-year-old schoolgirl, and many like her, and it is the best thing I have seen at this year’s Venice International Film Festival so far.»
Robbie Collin, in The Telegraph.

. BAD 25, de Spike Lee (Fora de Competição)

Spike Lee, definitivamente vestido a rigor

«In his warm and affectionate study of Michael Jackson's Bad, Spike Lee displays an exuberant reverence for the King of Pop.»
Peter Bradshaw, in The Guardian.

«Even those of us who developed a Michael Jackson allergy during the saturation attention that followed his death will find rich rewards in Spike Lee's terrific documentary tribute.»
David Rooney, in The Hollywood Reporter.

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[Fotos: AFP, CBS News e The Guardian.]

quarta-feira, abril 25, 2012

Curiosidade da Semana



A câmara "flutuante" de Spike Lee, recordada e compilada neste vídeo da autoria de Richard Cruz:



[Fonte: PressPlay]

sexta-feira, setembro 09, 2011

O 11 de Setembro visto pelo Cinema



Há dez anos, o mundo assistia, incrédulo, ao desenrolar dos atentados terroristas do 11 de Setembro, acontecimento pivotal que influenciou radicalmente o nosso quotidiano e uma constante lembrança do explosivo ambiente geopolítico contemporâneo.

Uma década depois, vários cineastas responderam de forma diversa - do "profético" até à descrição biográfica - ao 11 de Setembro. Nomes consagrados [Oliver Stone com WORLD TRADE CENTER, 2006) e Robert Redford com PEÕES EM JOGO (2007)], documentários incisivos [FAHRENHEIT 9/11 (2004, Michael Moore)] e visões ansiosas acerca do poder dos media perante uma tragédia [NADA A ESCONDER (2005, Michael Haneke)] perpeturaram e extrapolaram a memória dos acontecimentos daquele dia.

Seguem-se os cinco filmes, acompanhados de menção honrosa, que o Keyzer Soze's Place considera serem os melhores dedicados ao 11 de Setembro. E fica expressa a vontade de nunca deixar de ver o tema abordado pela Sétima Arte.

MENÇÃO HONROSA: THE SIEGE - ESTADO DE SÍTIO (1998), de Edward Zwick



É verdade que foi produzido três anos antes dos eventos do 11 de Setembro de 2001, mas THE SIEGE - ESTADO DE SÍTIO revelou-se, com o tempo e como poucos, um filme impressionantemente premonitório sobre o ambiente político e social dos EUA após os atentados e, por isso, merecedor de destaque em qualquer lista deste género.

Encenando devastadoras acções terroristas em plena Nova Iorque, abuso de poder militar, paranóia popular, sentimentos anti-Islão e perda de liberdades cívicas, proporciona, agora, uma perspicaz e muito inesperada reflexão sobre como a arte imita a vida... por vezes, mesmo antes de certos acontecimentos se concretizarem.



5. TERRA DA ABUNDÂNCIA (2004), de Wim Wenders



Um magnífico "postal" da América pós-11 de Setembro visto pela perspectiva de personagens: Paul (John Diehl), veterano da Guerra do Vietname cujo stress pós-traumático é reavivado pelos ataques terroristas, desenvolve as suas próprias teorias de conspiração acerca da comunidade islâmica a residir nos EUA; e Lana (Michelle Williams), sobrinha de Paul, que regressa ao seu país natal após uma longa estadia ausente em trabalho de missionária.

A insegurança e a paranóia têm feito parte do dia-a-dia dos norte-americanos durante os últimos dez anos, e TERRA DA ABUNDÂNCIA capta, na perfeição, essa realidade. Lana observa, abismada, as alterações no comportamento de uma população que ela julgava lhe ser familiar - e o final trágico do filme reforça os perigos acarretados pelo medo quase irracional.



4. UNITED 93 (2006), de Paul Greengrass



O realizador Paul Greengrass, através das mesmas técnicas que emprega para os seus filmes de acção, almeja imprimir suspense a uma série de acontecimentos cujo desfecho é de todos nós conhecido. Mas os seus protagonistas mais íntimos - ou seja, perpretadores, vítimas e profissionais obrigados a lidar com o 11 de Setembro - nem por isso.

O elenco recheado de virtuais desconhecidos para o grande público e a dinâmica teatralidade da reconstituição forçam o espectador a "desligar" a memória e observar o destino fatídico dos passageiros do United 93, neste que é um dos filmes definitivos para a compreensão do cinema norte-americano da última década.



3. ÀS CINCO DA TARDE (2003), de Samira Makhmalbaf



Situado no Afeganistão após a invasão do exército norte-americano, ÀS CINCO DA TARDE centra-se nas aspirações das mulheres afegãs perante a aparente restituição, no país, dos seus direitos cívicos. Nogreh (Agheleh Rezaie) ambiciona tornar-se na primeira presidente do Afeganistão; contudo, o cepticismo daqueles que a rodeiam e um futuro que se apresenta marcado pela força das armas ameaça o sonho da jovem protagonista.

Samira Makhmalbaf assina um filme extremamente ambíguo nas suas intenções, dividido entre o positivismo da queda do regime que apoiou os ataques do 11 de Setembro e a incerteza de um Afeganistão realmente livre e próspero. Sem dúvida, um óptimo objecto de reflexão acerca da visão ocidental pós-2001 em relação ao mundo árabe.



2. ESTADO DE GUERRA (2008), de Kathryn Bigelow



A Guerra do Iraque revelou-se como uma das consequências mais polémicas saídas do 11 de Setembro. E, rapidamente, a condição dos militares norte-americanos converteu-se no principal "rosto" daquilo que não ficou bem esclarecido acerca deste conflito.

ESTADO DE GUERRA assume-se como obra mainstream, exibe todos os mecanismos técnicos e narrativos de um filme de acção, mas é tremendamente preciso na descrição do inimigo combatido por milhares de soldados sob pretextos nunca devidamente justificados: invisível, que investe através de engenhos explosivos e letalmente eficaz. Temática e visualmente poderoso.



1. A ÚLTIMA HORA (2002), de Spike Lee



Embora o seu argumento não seja dedicado ao 11 de Setembro, as suas sequelas são experienciadas durante todo este complexo e inesquecível filme.

Filmado pouco tempo depois dos atentados, os efeitos da tragédia são evidenciados pela revolta da personagem de Edward Norton (que aqui apresenta uma das suas melhores interpretações) e, sobretudo, pela visão dos destroços do World Trade Center, dos cartazes de pessoas desaparecidas e dos inúmeros memoriais em tributo às vítimas - o sentimento de pesar no espírito dos intervenientes de A ÚLTIMA HORA é quase palpável.



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