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sábado, fevereiro 23, 2013

Em contagem decrescente para os Oscars...



...a um dia da cerimónia e antes das apostas finais, é altura de invocar os filmes e os nomes que (na opinião do Keyzer Soze) a Academia "esqueceu" nas nomeações da sua 85ª edição.

Eis mais um ano com muitas e notáveis omissões para a cerimónia do próximo Domingo. Portanto, não custa muito listar os especiais casos de:

O MENTOR, para Melhor Filme



Profunda e desencantada metáfora à História dos Estados Unidos, O MENTOR é, igualmente, uma das obras esteticamente mais interessantes das últimas décadas à qual a Academia não foi capaz de proporcionar atenção pública com, no mínimo, uma nomeação para o Oscar mais sonante da próxima noite dos Oscars. Rodado em fulgurante 70mm, desenvolvendo o seu argumento e temática através da imagem, banda sonora e atmosfera, o facto de Paul Thomas Anderson (Melhor Realizador), Mihai Malaimare, Jr. (Melhor Fotografia) e Jonny Greenwood (Melhor Banda Sonora) não estarem nomeados constitui um irónico decréscimo à qualidade do lote de candidatos a um Oscar este ano.



Quentin Tarantino, por DJANGO LIBERTADO, para Melhor Realizador



A narrativa de DJANGO LIBERTADO é como Quentin Tarantino: respira Cinema em cada centímetro de película. Homenagem a diversos géneros secundários (o Western Spaghetti, o blaxpoitation, o Hollywood Classical Style, etc.) da Sétima Arte, revela-se entretenimento e polémico em doses generosas e susceptível de múltiplas análises morais que, talvez, nunca foram pretendidas pelo cineasta. A Academia não se "seduziu" pelo virtuosismo de Tarantino.

Kathryn Bigelow, por 00:30 A HORA NEGRA, para Melhor Realizador



A estética do cinema de acção em função da vincada postura autoral de Kathryn Bigelow já não surpreende quem acompanha a sua carreira. A narrativa, emocionalmente seca e moralmente ambígua, converteu 00:30 A HORA NEGRA num dos filmes do ano, ornada por uma meia hora final de intensa proficiência técnica. Contudo, nenhum desses atributos convenceu os votantes da Academia, impedindo Bigelow de repetir o sucesso de 2009 (por ESTADO DE GUERRA).

John Hawkes, por SEIS SESSÕES, para Melhor Actor Principal



Não é surpresa que os Oscars têm demonstrado, em anos recentes, uma progressiva alteração de tendências e gostos. A prová-lo, temos a ausência de John Hawkes e a sua interpretação de um ser humano extremamente limitado fisicamente — ou o género de papéis que, noutros tempos, figurava quase obrigatoriamente entre os nomeados e (basta recordar o exemplo de Daniel Day-Lewis por O MEU PÉ ESQUERDO) vencedores. Neste caso, o cumprimento dessa "quota" justificava-se inteiramente, ainda para mais quando comparadas com a mediania nomeada de Denzel Washington (FLIGHT — DECISÃO DE RISCO) e Bradley Cooper (GUIA PARA UM FINAL FELIZ).



Jean-Louis Trintignant, por AMOR, para Melhor Actor Principal



O "renascido" Jean-Louis Trintignant demonstrou, no filme de Michael Haneke, argumentos de peso para que registássemos a sua presença na cerimónia do próximo Domingo. Repentino e enigmático retrato, quase extremo, de dedicação matrimonial, bateu forças com uma das interpretações femininas mais arrebatadoras de 2012 (Emmanuelle Riva, uma das favoritas ao Oscar de Melhor Actriz) e desempenhou alguns dos momentos humanos (ou humanistas, dependendo da perspectiva) mais inesquecíveis do Cinema Europeu recente.



Samuel L. Jackson, por DJANGO LIBERTADO, para Melhor Actor Secundário



Enquanto Stephen, o «negro mais racista da História do Cinema» (as palavras são do próprio Jackson), o actor quase desaparece nas nuances psicológicas — definitivamente, um dos principais pontos de discórdia no frenesim mediático em torno da suposta imoralidade racial do filme —, transformação física e frases icónicas do personagem. Depois de lhe ter negado o Oscar por PULP FICTION, a Academia volta a impedir a consagração de Samuel L. Jackson.



A CASA NA FLORESTA, para Melhor Argumento Original



As hipóteses de nomeação do argumento assinado por Joss Whedon e Drew Goddard seriam, indiscutivelmente, um "tiro no escuro". No entanto, há que realçar o poder de subversão para o género do cinema de terror (cada vez mais previsível e a atravessar um longo período de défice qualitativo) de A CASA NA FLORESTA, representando um excelente motivo para a Academia reconhecê-lo como um dos filmes mais criativos, delirantes e "metaficcionais" de 2012.



SAMSARA, para Melhor Fotografia



Raramente um documentário conseguiu obter indicação para Melhor Fotografia (NAVAJO, o último filme documental a ser nomeado nesta categoria, data de 1952). Contudo, a profundidade e dimensão da realidade captada (em 70mm) pelas objectivas de SAMSARA tornam-no num dos grandes feitos visuais do ano transacto e inteiramente merecedor de concorrer à estatueta.



THE IMPOSTER, para Melhor Documentário



Dizer "a realidade é mais estranha do que a ficção" parece adequar-se perfeitamente a THE IMPOSTER. Substancialmente mais sinistro e intrigante que muito do cinema de suspense produzido anualmente, a sua nomeação contribuiria para a acepção do Oscar para Melhor Documentário enquanto prémio realmente determinado em assumir, cinematograficamente, a diversidade e surrealismo existentes no mundo em que vivemos. Uma ausência tão surpreendente quanto os factos apresentados pelo filme.



PIETÀ, para Melhor Filme Estrangeiro



O vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza é, igualmente, a obra mais comercial de toda a filmografia do sul-coreano Kim Ki-duk e que, na sua estrutura narrativa básica (história de um reencontro mãe-filho, com o protagonista a encontrar uma espécie de redenção pessoal no fim), poderia ajudar PIETÀ a arrecadar votos suficientes para uma nomeação. Sonegado pela Academia, é uma lembrança da total ausência, este ano, do cinema asiático no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.



--/--

E as vossas opiniões? São, como sempre, muito bem-vindas.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Curiosidade da Semana



Cinco posters para cada um dos nomeados a Melhor Filme nos BAFTA (British Academy of Film and Television Arts).

E em boa hora chegaram para nos desafiar os sentidos e memórias sobre os títulos em competição:


ARGO


LINCOLN


00:30 A HORA NEGRA


A VIDA DE PI


OS MISERÁVEIS

[Fonte: Collider.]

sexta-feira, janeiro 18, 2013

00:30 A HORA NEGRA (2012), de Kathryn Bigelow



A caça ao lider da al-Qaeda, Osama Bin Laden, iniciada após os atentados terroristas de 11 de Setembro, preocupou o mundo e dois Governos Americanos durante mais de uma década. Por fim, foi uma pequena e dedicada equipa de operacionais da CIA que o conseguiu localizar. — filmspot.pt



A ambiguidade moral do realpolitik da Guerra ao Terror encontra em 00:30 A HORA NEGRA objecto sagrado, um filme onde as desventuras de uma década da CIA pelo Médio Oriente até ao assassinato de Bin Laden são cimentadas pela árdua recordação dos eventos que conduziram uma nação àquele estado de espírito — a audição, logo nos primeiros minutos, das gravações verídicas de vítimas do 11 de Setembro não deixa margens para dúvida quanto a essa postura artística — e que trilha, corajosamente, uma linha ténue entre o semi-documental e o propagandístico.

No entanto, a robusta atitude cinematográfica de Kathryn Bigelow (demonstrada cabalmente em títulos como DEPOIS DO ANOITECER, RUPTURA EXPLOSIVA e o oscarizado ESTADO DE GUERRA) perante o tema converte 00:30 A HORA NEGRA numa obra cuja tensão é gerada pela mera observação de "procedimentos", movida a bom ritmo sem sonegar a reflexão ética em torno dos métodos utilizados (tortura, vigilância, contra-informação) para o desfecho que todos conhecem — o assalto ao bunker no Paquistão onde o fundador da Al-Qaeda se refugiou, ou trinta minutos de cinema de acção como só Bigelow, no actual panorama do cinema norte-americano, consegue produzir — e que transporta para Jessica Chastain (segura e eficaz, caindo por vezes em algum overacting quase imperceptível) o estatuto de personagem-tipo e fusão dos diversos intervenientes envolvidos na caça a Bin Laden.







Almejando dois fabulosos trabalhos de fotografia e sonoplastia, 00:30 A HORA NEGRA, na forma e conteúdo, está longe de ser o típico filme de acção e, por aqui, privilegiar-se-à sempre qualquer excepção às "normas". Todavia, a sua natureza moral é "movediça", atraiçoando, nesse processo, a verosimilhança e previsibilidade de um argumento «baseado em depoimentos» e que, no cômputo geral, revela-se acentuada e exclusivamente fabricado para uma apreciação positiva pelo público norte-americano.

A ameaça do terrorismo é internacional, 00:30 A HORA NEGRA dificilmente merecerá tal adjectivo. Mas eis o óptimo filme de guerra sobre a guerra invisível que apenas jaz na nossa imaginação.

sexta-feira, março 02, 2012

Filhos de Um Deus Maior #73



Surf e fragrâncias masculinas combinam-se para assinalar o regresso de Kathryn Bigelow não só ao mundo da publicidade, como também à revisitação dos ambientes de um dos principais títulos da sua carreira, RUPTURA EXPLOSIVA (1991), neste conjunto de quatro spots televisivos para o Allure Homme Sport Extreme da Chanel:









P.S.: e para o público feminino interessado do Keyzer Soze, o modelo desta campanha é o surfista e fotógrafo Daniel Fuller.

sexta-feira, setembro 09, 2011

O 11 de Setembro visto pelo Cinema



Há dez anos, o mundo assistia, incrédulo, ao desenrolar dos atentados terroristas do 11 de Setembro, acontecimento pivotal que influenciou radicalmente o nosso quotidiano e uma constante lembrança do explosivo ambiente geopolítico contemporâneo.

Uma década depois, vários cineastas responderam de forma diversa - do "profético" até à descrição biográfica - ao 11 de Setembro. Nomes consagrados [Oliver Stone com WORLD TRADE CENTER, 2006) e Robert Redford com PEÕES EM JOGO (2007)], documentários incisivos [FAHRENHEIT 9/11 (2004, Michael Moore)] e visões ansiosas acerca do poder dos media perante uma tragédia [NADA A ESCONDER (2005, Michael Haneke)] perpeturaram e extrapolaram a memória dos acontecimentos daquele dia.

Seguem-se os cinco filmes, acompanhados de menção honrosa, que o Keyzer Soze's Place considera serem os melhores dedicados ao 11 de Setembro. E fica expressa a vontade de nunca deixar de ver o tema abordado pela Sétima Arte.

MENÇÃO HONROSA: THE SIEGE - ESTADO DE SÍTIO (1998), de Edward Zwick



É verdade que foi produzido três anos antes dos eventos do 11 de Setembro de 2001, mas THE SIEGE - ESTADO DE SÍTIO revelou-se, com o tempo e como poucos, um filme impressionantemente premonitório sobre o ambiente político e social dos EUA após os atentados e, por isso, merecedor de destaque em qualquer lista deste género.

Encenando devastadoras acções terroristas em plena Nova Iorque, abuso de poder militar, paranóia popular, sentimentos anti-Islão e perda de liberdades cívicas, proporciona, agora, uma perspicaz e muito inesperada reflexão sobre como a arte imita a vida... por vezes, mesmo antes de certos acontecimentos se concretizarem.



5. TERRA DA ABUNDÂNCIA (2004), de Wim Wenders



Um magnífico "postal" da América pós-11 de Setembro visto pela perspectiva de personagens: Paul (John Diehl), veterano da Guerra do Vietname cujo stress pós-traumático é reavivado pelos ataques terroristas, desenvolve as suas próprias teorias de conspiração acerca da comunidade islâmica a residir nos EUA; e Lana (Michelle Williams), sobrinha de Paul, que regressa ao seu país natal após uma longa estadia ausente em trabalho de missionária.

A insegurança e a paranóia têm feito parte do dia-a-dia dos norte-americanos durante os últimos dez anos, e TERRA DA ABUNDÂNCIA capta, na perfeição, essa realidade. Lana observa, abismada, as alterações no comportamento de uma população que ela julgava lhe ser familiar - e o final trágico do filme reforça os perigos acarretados pelo medo quase irracional.



4. UNITED 93 (2006), de Paul Greengrass



O realizador Paul Greengrass, através das mesmas técnicas que emprega para os seus filmes de acção, almeja imprimir suspense a uma série de acontecimentos cujo desfecho é de todos nós conhecido. Mas os seus protagonistas mais íntimos - ou seja, perpretadores, vítimas e profissionais obrigados a lidar com o 11 de Setembro - nem por isso.

O elenco recheado de virtuais desconhecidos para o grande público e a dinâmica teatralidade da reconstituição forçam o espectador a "desligar" a memória e observar o destino fatídico dos passageiros do United 93, neste que é um dos filmes definitivos para a compreensão do cinema norte-americano da última década.



3. ÀS CINCO DA TARDE (2003), de Samira Makhmalbaf



Situado no Afeganistão após a invasão do exército norte-americano, ÀS CINCO DA TARDE centra-se nas aspirações das mulheres afegãs perante a aparente restituição, no país, dos seus direitos cívicos. Nogreh (Agheleh Rezaie) ambiciona tornar-se na primeira presidente do Afeganistão; contudo, o cepticismo daqueles que a rodeiam e um futuro que se apresenta marcado pela força das armas ameaça o sonho da jovem protagonista.

Samira Makhmalbaf assina um filme extremamente ambíguo nas suas intenções, dividido entre o positivismo da queda do regime que apoiou os ataques do 11 de Setembro e a incerteza de um Afeganistão realmente livre e próspero. Sem dúvida, um óptimo objecto de reflexão acerca da visão ocidental pós-2001 em relação ao mundo árabe.



2. ESTADO DE GUERRA (2008), de Kathryn Bigelow



A Guerra do Iraque revelou-se como uma das consequências mais polémicas saídas do 11 de Setembro. E, rapidamente, a condição dos militares norte-americanos converteu-se no principal "rosto" daquilo que não ficou bem esclarecido acerca deste conflito.

ESTADO DE GUERRA assume-se como obra mainstream, exibe todos os mecanismos técnicos e narrativos de um filme de acção, mas é tremendamente preciso na descrição do inimigo combatido por milhares de soldados sob pretextos nunca devidamente justificados: invisível, que investe através de engenhos explosivos e letalmente eficaz. Temática e visualmente poderoso.



1. A ÚLTIMA HORA (2002), de Spike Lee



Embora o seu argumento não seja dedicado ao 11 de Setembro, as suas sequelas são experienciadas durante todo este complexo e inesquecível filme.

Filmado pouco tempo depois dos atentados, os efeitos da tragédia são evidenciados pela revolta da personagem de Edward Norton (que aqui apresenta uma das suas melhores interpretações) e, sobretudo, pela visão dos destroços do World Trade Center, dos cartazes de pessoas desaparecidas e dos inúmeros memoriais em tributo às vítimas - o sentimento de pesar no espírito dos intervenientes de A ÚLTIMA HORA é quase palpável.



segunda-feira, março 08, 2010

Óscares 2009: O Comentário Final



Se pudéssemos medir o sucesso de ESTADO DE GUERRA durante a época de atribuição de prémios cinematográficos, diríamos que foi tão repentino e electrizante como o desarmamento de dispositivos explosivos representado no filme. Apenas falhando nos Globos de Ouro (onde sucumbiu ao "poder 3D" de AVATAR), ESTADO DE GUERRA iniciou o seu percurso vitorioso ainda em 2008, quando recebeu vários prémios durante o Festival de Veneza e, apesar da sua lenta distribuição comercial em 2009, conquistou a crítica e os vários sindicatos (produtores, realizadores, etc.) da indústria.

Na última madrugada, ESTADO DE GUERRA dominou a 82ª cerimónia dos Óscares da Academia, arrecadando seis estatuetas, incluindo Melhor Filme, e fez história ao consagrar Kathryn Bigelow como a primeira mulher a receber o galardão de Melhor Realizador.



Numa noite sem grandes surpresas, os quatro Óscares nas categorias de interpretação foram entregues aos respectivos favoritos. Jeff Bridges, por CRAZY HEART, obteve a longa e esperada consagração dos seus pares na Academia que o elegeram Melhor Actor Principal. Se o seu talento já era um facto inegável, os prémios que recebeu só aumentam a minha (a nossa?) curiosidade em ver este título.



Curiosidade extensível ao desempenho de Sandra Bullock em THE BLIND SIDE, premiado com o Óscar de Melhor Actriz Principal, batendo as consistentes nomeações de Meryl Streep e Gabourey Sidibe (que era a minha candidata pessoal).



Nos secundários, Christoph Waltz (o único prémio recolhido por SACANAS SEM LEI e Mo'Nique (pelo seu assombroso retrato em PRECIOUS) confirmaram o favoritismo.





Quanto à cerimónia, e apesar do prévio feedback da Academia nesse sentido, não se viram inovações ou formatos que a distinguisse de edições anteriores. Na verdade, chegou a ter momentos paupérrimos: o exemplo máximo surgiu na forma de uma desconexa coreografia que introduziu os nomeados a Melhor Banda Sonora. Steve Martin e Alec Baldwin estiveram bastante discretos (por vezes, demais) nos seus papéis de anfitriões.



O monólogo (este ano, convertido em diálogo) inicial revelou-se um jogo de "parada e resposta" bem cronometrado. O duo só brilhou quando decidiu parodiar ACTIVIDADE PARANORMAL:



Mas o momento cómico mais conseguido da noite acabou por pertencer a Ben Stiller, que se inspirou em AVATAR para apresentar o Óscar de Melhor Make-Up:



N.B.: a lista completa dos vencedores pode ser consultada aqui.

Óscares 2009: Live coverage #8

E o Melhor Filme de 2009 é...



ESTADO DE GUERRA!

Grande filme, cinema em estado puro de emoção e realismo e um dos prémios mais bem entregues na História recente da Academia. Uma noite em cheio para este "pequeno" filme que se revelou maior do que alguma vez se previu.

Para quem ainda não o viu, já saiu em DVD. Não percam.

Óscares 2009: Live coverage #7

E o Melhor Realizador do ano é ...



... uma realizadora! Kathryn Bigelow, por ESTADO DE GUERRA.

Momento verdadeiramente histórico em 82 anos de Óscares.

sexta-feira, junho 26, 2009

Hollywood Buzz #52

O que se diz lá fora sobre THE HURT LOCKER — ESTADO DE GUERRA, de Kathryn Bigelow:



«If THE HURT LOCKER is not the best action movie of the summer, I’ll blow up my car.»
A.O. Scott, New York Times.

«An intense, action-driven war pic, a muscular, efficient standout that 
 simultaneously conveys the feeling of combat from within as well as what it looks like on the ground.»
Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly.

«Often gripping at a straight thriller level, but increasingly weakened by its fuzzy psychology, Kathryn Bigelow's THE HURT LOCKER doesn't bring anything new to the table of grunts-in-the-firing-line movies.»
Derek Alley, Variety.

«Here's the Iraq War movie for those who don't like Iraq War movies.»
Peter Travers, Rolling Stone.

«THE HURT LOCKER is a near-perfect movie about men in war, men at work. Through sturdy imagery and violent action, it says that even Hell needs heroes.»
Richard Corliss, Time Magazine.

terça-feira, abril 28, 2009

5 Momentos Memoráveis

#5: A EXPLOSÃO EM CINEMA

Quando a história e/ou a mensagem do filme é superior à mestria pirotécnica da preparação de uma sequência (literalmente) explosiva.

Pretende-se, neste exercício de nostalgia, destacar a representação de explosões em filmes que não fizeram do "blockbuster" o seu principal desígnio. Exceptuando a sequência que compõe a habitual menção honrosa, os momentos agora destacados encerram um motivo superior ao da mera contemplação de oxigénio em virtuosa combustão. Mas, depois de as vermos, ficam indelevelmente guardadas na memória cinéfila...

NB: este artigo (infelizmente) poderá conter spoilers. 'Procede with caution'.

Menção Honrosa: OPERAÇÃO SWORDFISH (2001), de Dominic Sena



Prematura e injustamente retirado de circulação por ter estreado na véspera do 11 de Setembro, a visualização deste OPERAÇÃO SWORDFISH fica marcada pelos seus cinco minutos iniciais, dos quais se destaca uma das detonações mais virtuosas (em conceito e materialização) da presente década.
Em 2001, era visível a contínua "digestão" do estilo confeccionado em MATRIX (1999), daí que os efeitos especiais, nesta sequência, repercutem e excedem essa influência. Em jeito de curiosidade, refira-se que os "técnicos" responsáveis não tiveram pejo em confessar a dificuldade de apontar, neste grande momento visual, o que é imagem real ou o que é fabricado por computador.



5.: THE HURT LOCKER — ESTADO DE GUERRA (2008), de Kathryn Bigelow



Ainda sem data oficial de estreia em Portugal (1), tive a sorte de ver THE HURT LOCKER através de um DVD Screener e (permitam-me a opinião) considero-o um dos melhores filmes anti-guerra dos últimos anos.
Centrado no quotidiano de uma equipa de minas e armadilhas estacionada em Bagdad, a rotina, o tédio e as saudades do lar deste específico grupo de militares são quebrados durante tarefas de neutralização de engenhos explosivos, com elevado risco para a integridade física dos intervenientes e proporcionador de índices abismais de adrenalina no espectador. A sequência destacada testemunha a importância da mensagem do filme, imbuída de realismo e comprovativa do à-vontade que Kathryn Bigelow (facto por mim considerado anteriormente) detém ao leme de um actioner.
[o clip está dobrado em italiano, mas tal não retira, nem por um momento, a excelência da sequência.]



4.: O FIM DA AVENTURA, (1999), de Neil Jordan



Poucos arriscam em afirmar que se trata da melhor adaptação de um romance de Graham Greene desde THE THIRD MAN (1949). E é impossível não aclamar os desempenhos dos protagonistas — Sarah Miles (Julianne Moore) e Maurice Bendrix (Ralph Fiennes).
Para além da profundidade emocional que proporciona, este O FIM DA AVENTURA constitui um interessante exemplo, em Cinema, de como uma explosão pode servir propósitos mais complexos do que a originalidade estética na sua encenação. O assombro e indiferença de Sarah pelo facto de Maurice ter escapado ileso à detonação de um rocket V1, durante o bombardeamento de Londres pelas tropas nazis em 1944, assinala a ruptura da relação amorosa entre os dois, cujos verdadeiros contornos só serão revelados no clímax do filme.



3.: FÚRIA SANGUINÁRIA (1949), de Raoul Walsh



James Cagney foi figura incontornável, durante os anos 30 do século passado, na representação do gangster norte-americano que ludibriava a Lei Seca, em obras memoráveis como O INIMIGO PÚBLICO (1931) ou ANJOS DE CARA NEGRA (1939). Nessas personificações, duas características tornaram-se imagem de marca do actor: o criminoso sem escrúpulos e verbalmente pragmático ("I ain't so tough...") no seu derradeiro momento.
FÚRIA SANGUINÁRIA assinalou, em finais dos anos 40, o regresso de Cagney a este género de papel, incendiando (na verdadeira acepção da palavra) o ecrã até à sua irremediável morte pela Polícia, vociferando uma das frases mais célebres da História do Cinema: "Made it, Ma! Top of the world!" ("Consegui, mãe! No topo do mundo!").



2.: DR. ESTRANHOAMOR (1964), de Stanley Kubrick



Naquela que será, provavelmente, a melhor sátira política do Século XX, Stanley Kubrick abordou os dramas da Guerra Fria, construindo uma versão ridícula dos decision makers das super-potências envolvidas e irónica dos medos da população — em pleno auge da ameaça nuclear que "pairava" sobre o planeta!
E bem consigo imaginar a indignação (a crítica da época chegou ao ponto de apelidar a opção como "maléfica e perversa" (2)) provocada pela forma como Kubrick, para rematar um corolário de líderes ineptos e situações surreais, representa a aniquilação nuclear ao som do melancólico mas optimista 'We'll Meet Again', interpretado por Vera Lynn.



1.: ZABRISKIE POINT — DESERTO DE ALMAS (1970), de Michelangelo Antonioni



Considerado, pela generalidade da crítica e cinéfilos (incluindo eu), como o filme menos conseguido de Michelangelo Antonioni, ZABRISKIE POINT — DESERTO DE ALMAS não conseguiu cativar o público aquando da sua estreia nem resistiu ao teste que melhor possibilita a reabilitação de uma obra cinematográfica, ou seja, o da longevidade.
Evidente no seu ímpeto de criticar o capitalismo e materialismo da sociedade norte-americana, Antonioni utiliza a fantasia de Daria (Daria Halprin), mesmo na conclusão da película, para expressar o seu desejo relativamente a tudo o que domina e adormece a percepção do consumidor comum: uma espectacular série de explosões e implosões de objectos comodidades mundanas como uma casa de férias, um televisor, roupas de marca e, até, fast-food. É o melhor momento do filme e, também, desta lista.
(O tema audível durante este onírico momento dá pelo nome de 'Come In Number 51, You're Time is Up' e foi composto por uns — na altura — semi-desconhecidos Pink Floyd).



quinta-feira, fevereiro 05, 2009

THE HURT LOCKER (2008), de Kathryn Bigelow



A 38 dias de terminarem a sua comissão de serviço no Iraque, a liderança da Companhia de Minas e Armadilhas Bravo é assumida por William James (Jeremy Renner), soldado batido em conflitos no Médio Oriente e declarado war junkie, pouco disposto a seguir formalidades e ameaçando as hipóteses de sobrevivência dos seus elementos. Sanborn (Anthony Mackie) e Eldridge (Brian Geraghty) vão aprendendo a lidar com a indiferença do seu novo chefe perante a morte no cenário urbano mais violento do mundo.



São poucos os filmes que abordam a guerra a partir da perspectiva de um grupo de militares que raramente olha o inimigo nos olhos. Para estes, a guerra possui mais contornos de casualidade do que propriamente obrigação. Contudo, essa realidade não retira emoção a THE HURT LOCKER, no qual Kathryn Bigelow adopta um fantástico trabalho de câmara (sempre ao ombro, inclusive durante as sequências mais intimistas do filme) que mantém o espectador em constante sobressalto sobre os destinos das personagens. Jeremy Renner agarra o protagonismo de forma indelével, concebendo um indivíduo que, por mais duvidosos que sejam os seus motivos, obtém sempre a nossa simpatia. Nota breve para os cameos de Ralph Fiennes, Guy Pearce e David Morse - menos tempo de ecrã e nem daríamos por eles...

Que a ausência de promoção a este título não lhe subtraia o reconhecimento que merece.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

O que é feito do sucesso de...

Kathryn Bigelow?



Corrijam-me, por favor, se a memória me falhar ou a minha pesquisa não estiver bem feita, mas nenhuma realizadora, na história da Sétima Arte, almejou, com tanto êxito, o mesmo grau de mestria em filmes de acção (um género dominado pelo masculino, seja ele à frente ou por trás das câmaras) como Kathryn Bigelow.

O "olho" para a construção de narrativas assentes na força, explosão e velocidade, ingredientes essenciais para um filme de acção, reside nesta californiana desde muito cedo. O seu primeiro trabalho, produzido quando ainda era estudante na Universidade de Columbia, chama-se THE SET-UP (1978), um ensaio em forma de curta-metragem com 20 minutos que pretendia explicar «porque a violência em Cinema é tão sedutora». (1)

E essa premissa tem guiado a carreira de Kathryn Bigelow, juntamente com a eliminação do papel frágil da mulher num actioner. O primeiro exemplo desta hábil e inusitada combinação de elementos pode ser observada em DEPOIS DO ANOITECER (1987), interessante conto vampiresco ultra-violento e esteticamente bem concebido. A partir desta película, a sua carreira foi marcada por três títulos obrigatórios para uma percepção cinematográfica dos anos 90, que passo a salientar.

AÇO AZUL (1990)


Produzido por Oliver Stone e com Jamie Lee Curtis (à época, uma actriz em estado de graça) a liderar o elenco, combina thriller policial com elementos do drama, físico e psicológico, de Megan Turner, uma "caloira" da Polícia de Nova Iorque com ambição e desejo de singrar num mundo tipicamente dominado por homens. Contudo, o seu primeiro dia na esquadra não é dos melhores: após abater um suspeito de assalto à mão armada, Megan não consegue provar que disparou em legítima defesa e, por isso, o conflito com os seus superiores hierárquicos é inevitável. A agente encontra conforto em Eugene Hunt (Ron Silver), um corretor de Wall Street, mas a "sombra" de um implacável serial killer, cuja identidade está mais próxima de Megan do que a princípio julgaríamos, marca a explosiva e violenta segunda metade do filme.



A "vítima feminina" de AÇO AZUL nunca se mostra desamparada, embora a sua posição seja minada pelos mecanismos narrativos (e masculinos) habituais de um filme de acção convencional. Uma protagonista que demonstra inteligência, poder físico e capacidade emocional para enfrentar as várias ameaças que se lhe deparam, este subvalorizado filme pode bem ser considerado como uma génese do fenómeno girl power que marcou a década de 90.

RUPTURA EXPLOSIVA (1991)


Em Los Angeles, Johnny Utah, jovem agente do FBI (Keanu Reeves), infiltra-se num grupo de surfers que poderão ser os responsáveis por uma série de assaltos a bancos que tem devastado a reputação das forças policiais. Durante a missão, enceta amizade com o seu líder carismático, Bodhi (Patrick Swayze), colocando-o numa dupla posição desconfortável junto do FBI e no seio dos potenciais criminosos.



RUPTURA EXPLOSIVA obteve um sucesso considerável aquando da sua estreia, catapultando Keanu Reeves para o estatuto de sex-symbol que ainda hoje detém e foi um momento decisivo para Bigelow, assinalando a viragem definitiva na percepção geral sobre mulheres ao leme de um filme de acção. Elevado a «filme de culto», o seu plot point é encarado, por muitos, como inspirador do argumento de VELOCIDADE FURIOSA (2001) — quem viu os dois títulos, não consegue negar as semelhanças...

ESTRANHOS PRAZERES (1995)


Com o mundo a preparar-se para entrar numa distópica versão do ano 2000, uma nova tecnologia permite, virtualmente, a sensação de todos os prazeres permitidos e interditos. Lenny Nero (Ralph Fiennes) é o principal traficante destes chips clandestinos, ocupação que, cedo e inesperadamente, colocará a sua vida em perigo.



Realizado sob a alçada do realizador James Cameron [EXTERMINADOR IMPLACÁVEL (1984), TITANIC (1997)], seu marido na altura, Bigelow concretiza aqui a obra de maior dimensão na sua carreira — a influência de Cameron é por demais perceptível — e aquela onde a cineasta explora, sem freios, os motivos predominantes da sua filmografia: sequências de acção brutais e ofegantes, possantes personagens femininas e violência estilizada. E é de frisar a declarada homenagem, de uma ponta à outra do filme, a BLADE RUNNER - PERIGO IMINENTE (1982), de Ridley Scott...

--//--
A ambição patenteada em ESTRANHOS PRAZERES, apesar do razoável número de críticas positivas, não se reflectiu nas bilheteiras. Se este facto condicionou o resto da carreira de Bigelow, é algo que permanece por responder. Os seus filmes posteriores, TEMPESTADE NO MAR (2000), sobre a investigação dum homicídio, em alto mar, ocorrido no século XIX, e K-19 (2002), a história verídica da quase-tragédia de um submarino nuclear russo, não colheram a mesma notoriedade dos três títulos supracitados, apesar de constituírem dois interessantes exemplos do vigor que Bigelow gere por trás das câmaras.

O retorno ao sucesso poderá aparecer com THE HURT LOCKER, de 2008. Narrativa centrada numa equipa de especialistas de desactivação de minas no seio da guerra no Iraque, tem sido muito bem recebido — Eurico de Barros, por exemplo, não se coibiu nos elogios (2), realçando a capacidade de Bigelow em filmar o conflito como poucos homens o conseguiram, ou conseguirão fazer.

Só falta a Bigelow o "condão" de inspirar mais realizadoras a possuírem esta mesma confiança à frente de um filme de acção. Existem alguns nomes que o tentaram (Antonia Bird, Catherine Hardwicke, Mimi Leder, Jennifer Lynch, Kimberly Peirce...), mas o sucesso é esparso.

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