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sábado, junho 01, 2013

Filhos de Um Deus Maior #85



""Don't Text While Driving" é o mote deste curto, mas profundamente tocante e incisivo spot televisivo, realizado por Werner Herzog para a operadora de telecomunicações AT&T.

Ou como as nefastas consequências de usar o telemóvel enquanto se conduz não precisam de muitas palavras, imagens ou efeitos visuais para transmitir imensos estados de espírito.



[Fonte: IndieWire.]

domingo, abril 22, 2012

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. ÉDEN
. CRAZY HORSE
. INTO THE ABYSS
. VOL SPÉCIAL

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. ÉDEN (2011), de Daniel Blaufuks



Um olhar sobre as décadas de 40 e 50 — a idade de ouro da exibição cinematográfica em Cabo Verde — através do imaginário contemporâneo de uma sala de cinema abandonada.



Memórias de arcos voltaicos desactivados, ruínas de um ecrã onde há muito não se projectam imagens em movimento e vestígios de produções cinematográficas na ilha de São Vicente movidas por paixão ao Cinema são invocados pelo magnífico e pertinente olhar documentarista de Daniel Blaufuks, elaborando assim um genuíno tratado sobre a influência da Sétima Arte nas vivências de povos arquipelágicos ("o mar e o Cinema eram a única forma de sair da ilha", tal como se lê no title card com que o filme arranca) e de uma forma de encarar o grande ecrã que já não se experiencia actualmente.

Pela nostalgia que representa, sem nunca cair em facilitismos emocionais, é obrigatório para amantes de cinema, seja ele o de hoje ou o de ontem.

. CRAZY HORSE (2011), de Frederick Wiseman



Filmado ao longo de dez semanas, permite um acesso total ao perfeccionismo, à exigência e à elegância, que se escondem por detrás da imagem do lendário espectáculo Crazy Horse.



A qualidade sensual e criativa dos espectáculos produzidos no cabaré mais famoso do mundo não constitui, mesmo para quem nunca o visitou, particular novidade, mas a câmara de Frederick Wiseman não deixa de a captar (excelente direcção de fotografia de John Davey, colaborador de longa data do realizador) e de se seduzir por ela.

Contudo, estamos perante um registo que nunca abdica do mero estatuto de comentário visual a performances que almejam — de acordo com os seus directores artísticos — "celebrar uma noção quase platónica de beleza feminina e expressão autónoma do erotismo da mulher". Mas a desglamourização do Crazy Horse, patenteada na sequência que filma as audições de bailarinas, nas quais privilegia-se mais a curvatura do rabo do que o talento para a dança das candidatas, descortina o interessante caminho que este filme poderia e, em prol de alguma astúcia documental, trilhar.

. INTO THE ABYSS (2011), de Werner Herzog



As conversas com Michael Perry, condenado à morte, e com os afectados pelo seu crime, ilustram uma análise das razões porque as pessoas — e o Estado — matam.



Subjacente ao seu tom filosófico consistente e, a espaços, pungente, reside uma observação mordaz ao peso que as relações familiares e circunstância social exercem na construção da auto-estima de um indivíduo — e não necessariamente a do condenado à morte salientado em INTO THE ABYSS, a quem Herzog cedo confessa que, e embora sendo um opositor da pena capital, não ser obrigado a simpatizar.

É aqui que se depreende a principal intenção do documentário: mais do que um manifesto "anti-corredor da morte", está a contundente análise do falhanço das sociedades modernas, onde se assassina por móbiles absolutamente insignificantes, as tragédias geram naturezas diferentes de humanismo e o humor tem tanto de inesperado como de confrangedor. De visualização recomendada.

. VOL SPÉCIAL (2011), de Fernand Melgar



Enquanto aguardam deportação da Suíça, imigrantes ilegais ficam encarcerados no centro de detenção Frambois, onde podem permanecer durante anos até lhes ser proporcionada a viagem de regresso ao país de origem. Quando se recusam a partir, são algemados e conduzidos à força para o interior de um avião. Ou seja, um "voo especial".



Retrato pragmático e austero de frieza burocrata onde menos se esperaria — sim, esta é a Suíça da Cruz Vermelha e da sua apregoada Democracia Directa —, capta, em pormenor e rigor, os dramas, histórias e personalidades singulares de um grupo de detidos de Frambois.

Apesar desse cuidado, é de lamentar que Melgar não tenha abordado os contornos político-sociais da realidade apresentada. Muito se poderia dizer, documentalmente, sobre os prós e contras de sufrágios populares (a criação destes "voos especiais" é fruto de um referendo nacional) ou da dúbia mecânica diplomática inerente a estas deportações. Uma timidez que penaliza os propósitos de VOL SPÉCIAL. Mas, "filme fascista" ou não, merece ser conhecido.

quinta-feira, outubro 07, 2010

MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! (2009), de Werner Herzog



A certa altura — aliás, em várias alturas — da visualização deste MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! qualquer um pode sucumbir à perplexidade e murmurar «Meu Werner, Olha o Que Fizeste!». A pergunta é muito razoável, tendo em conta o que nos é apresentado: avestruzes galopantes, espadas samurais, mariachis, um par de flamingos baptizados de MacDougal e Macnamara e a súbita presença de um anão que até parece pertencer a uma produção de David Lynch.

Na verdade, pertence mesmo: Lynch ocupa aqui lugar de produtor executivo, e em MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! figuram colaboradores associados à sua carreira, como o produtor Eric Bassett ou os actores Willem Dafoe, Grace Zabriskie e Brad Dourif — este último também presente no projecto anterior de Herzog, POLÍCIA SEM LEI (2009), onde figura um alucinado Nicolas Cage. Michael Shannon, de olhos ocasionalmente esbugalhados, assume aqui as "honras" do louco de serviço, interpretando Brad, um retrato ficcional de Mark Yavorsky, estudante universitário de San Diego que, em 1979, esfaqueou a mãe até à morte com um sabre.

Trata-se uma história desoladora, de sangrenta insensatez, mas que não deixa de possuir interessantes ou significativas potencialidades cinematográficas. Infelizmente, a visão de Werner Herzog (e, em certa medida, a de David Lynch) não as encontrou.



Os detectives Havenhurst (Dafoe) e Vargas (Michael Peña) iniciam mais uma ronda matinal discutindo banalidades sobre café — uma evocação a TWIN PEAKS é quase inevitável... — quando são interrompidos por uma comunicação rádio que os conduz até ao bairro sossegado onde a mãe (Zabriskie) de Brad jaz morta, numa poça de sangue, na casa de uma vizinha. Quanto ao filho da falecida, rapidamente enclausura-se na sua própria casa com uma arma e dois reféns.

A história de Brad desenvolve-se através de intermitentes flashbacks, narrados pela noiva dele, Ingrid (Chloë Sevigny), e o director teatral responsável por uma nova versão de «Orestes» em que Brad participou, Lee (Udo Kier). Em vez do confronto entre o protagonista e a polícia, que se desenrola nos confins de uma rua banal, são as memórias fragmentadas de Ingrid e Lee que oferecem a Herzog o espaço criativo para imaginar o que aconteceu e porquê: são os momentos mais sugestivos e cativantes de MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! Exemplo disso é a sequência em que Brad, a sua mãe e Ingrid, durante um jantar pouco animado, ficam surrealmente imobilizados, num momento de inesperada mise-en-scène que transporta o espectador para o exercício da curiosa decifração do seu sentido.



MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! é um estranho puzzle de sequências como esta, mas nenhuma é apresentada o tempo ou em circunstância suficientes para suscitar qualquer emoção que não seja a curiosidade. Ao contrabalançá-las com personagens como a de Dourif, o tio de Brad que rezinga acerca de galinhas e cria avestruzes, Herzog parece almejar alguma insondável noção importante, ou um retrato psicológico de desequilíbrio, ou talvez esteja apenas a "matar" tempo, o que nem pode ser considerado como algo de totalmente negativo.

Avestruzes, note-se, constituem um objecto fílmico interessante, especialmente quando o filme as regista a abocanharem um par de óculos do bolso de um incauto visitante no rancho de Brad Dourif ou a correrem por uma estepe no meio de uma nuvem de pó. O que tudo isto tem a ver com um homem que assassinou a própria mãe permanece em mistério. Num produto talhado para a ausência de consensos, talvez seja essa a sua (única?) intenção...

terça-feira, setembro 01, 2009

Festival de Veneza 2009



Arranca amanhã a 66ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, um dos festivais de Cinema mais conceituados da Sétima Arte e que será palco de algumas das antestreias mais interessantes de 2009.

Este ano, o júri é presidido por Ang Lee (realizador de O TIGRE E O DRAGÃO, 2000, e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, 2005) e conta, entre outros, com os nomes de Sandrine Bonnaire e Joe Dante.

Da selecção oficial, o Keyzer Soze's Place destaca doze títulos que estarão em competição até ao dia 12 de Setembro:

  • SOUL KITCHEN, de Fatih Akin (Alemanha)



  • Realizador premiado em Cannes pelo argumento de DO OUTRO LADO (2007), Akin concorre pela primeira vez em Veneza com esta comédia agridoce sobre um jovem proprietário do restaurante cujo nome dá o título ao filme e as suas tentativas — com uma passagem por Shanghai — de recuperar o sucesso do seu negócio.

  • PERSÉCUTION, de Patrice Chéreau (França)



  • Daniel (Romain Duris) acompanha, incessantemente, os movimentos de Sonia (Charlotte Gainsbourg, cuja interpretação em ANTICHRIST, de Lars Von Trier, foi recentemente premiada em Cannes), a mulher por quem está apaixonado há mais de três anos. Entretanto, o próprio Daniel vê-se perseguido por um homem que se intromete na sua vida.

  • MR. NOBODY, de Jaco Van Dormael (França)



  • No ano 2092, época em que já é possível ir de férias a Marte, Nemo Nobody (Jared Leto) é o último mortal da Terra. Graças aos avanços da ciência, Nemo conta 120 anos e, no seu leito da morte, faz uma retrospectiva das três existências que poderia ter vivido. O regresso de um dos principais cineastas belgas da actualidade, tendo este filme de ficção-científica conhecido uma "gestação" de quase dez anos.

  • A SINGLE MAN, de Tom Ford (EUA)



  • O estilista norte-americano assinala a sua estreia na Sétima Arte com a história de George (Colin Firth), um professor universitário britânico que tenta ultrapassar a perda de Jim (Matthew Goode), o seu amante de longa data. Entretanto, a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, domina as atenções do Mundo. Contando com Julianne Moore no elenco, este é um dos títulos que mais curiosidade irá gerar em Veneza.

  • BAD LIEUTENANT: PORT OF CALL NEW ORLEANS, de Werner Herzog (EUA)



  • Se é ou não um remake do controverso O POLÍCIA SEM LEI (1992, Abel Ferrara), o debate (ou seja, a troca de insultos entre Ferrara e Herzog) prolonga-se sem fim à vista. Quanto ao filme, centra-se em Terence McDonagh (Nicolas Cage), um detective de Nova Orleães, que mede forças com o dealer Big Fate ao mesmo tempo que luta com a sua dependência em cocaína, analgésicos e sexo.

  • THE ROAD, de John Hillcoat (EUA)



  • Com estreia prevista para Novembro de 2008, esta adaptação do romance de Cormac McCarthy (o mesmo autor de ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS, dos irmãos Coen) só conhecerá distribuição comercial em Outubro próximo e há quem prenuncie a sua presença assídua nas entregas de prémios deste ano. Num cenário pós-apocalíptico, Viggo Mortensen interpreta um pai decidido em proteger o seu filho do estado de sítio em que o país, inexplicavelmente, mergulhou.

  • CAPITALISM: A LOVE STORY, de Michael Moore (EUA)



  • O documentarista mais polémico dos nossos tempos (BOWLING FOR COLUMBINE, 2002, e FAHRENHEIT 9/11, 2004) aponta a sua viperina atenção para o desastroso impacto do domínio corporativo-financeiro na vida quotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo. Com humor e provocação, Moore explora, sobretudo, o preço que os EUA estão a pagar pelo seu «amor ao capitalismo».

  • 36 VUES DU PIC SAINT LOUP, de Jacques Rivette (França)



  • Um dia antes do início da tournée de Verão, o fundador e estrela maior de um pequeno circo morre subitamente. Numa tentativa de salvar a temporada, os membros da companhia recorrem a Kate (Jane Birkin), a filha mais velha do falecido, a qual, apesar de ter abandonado a actividade circense há mais de quinze anos, aceita o desafio. Com este filme, Jacques Rivette, o cineasta mais experimental da presente Nouvelle Vague francesa, é um dos grandes favoritos ao Leão de Ouro.

  • SURVIVAL OF THE DEAD, de George Romero (EUA)



  • Numa ilha costeira da América do Norte, os habitantes locais resistem a uma epidemia de mortos-vivos, demonstrando resistência (em matar os seus entes queridos afectados pela "maleita") e empenho (na busca por uma solução médica para os que se encontram zombificados). "Enésima" versão de George Romero sobre o tema dos mortos-vivos, este filme não deixa, contudo, de ser um dos pontos altos da presente edição da Biennale.

  • LIFE DURING WARTIME, de Todd Solondz (EUA)



  • Todd Solondz, realizador norte-americano de poucos consensos, já assumiu que esta é uma sequela não autorizada do "infame" HAPPINESS - FELICIDADE (1998), cujas personagens regressam à nossa presença motivados pela busca do amor, de redenção e do sentido da vida após os acontecimentos do primeiro filme.

  • BAARÌA — LA PORTA DEL VENTO, de Giuseppe Tornatore (Itália)



  • Divertida e melancólica história sobre o percurso, durante três gerações, de uma família Siciliana, vem assinada por um dos principais mestres cinematográficos deste género de películas, Giuseppe Tornatore (CINEMA PARAÍSO, 1988). Representa, também, mais um filme autobiográfico do cineasta italiano — "Baarìa", em calão siciliano, refere-se a Bagheria, a cidade natal do próprio Tornatore.

  • TETSUO: THE BULLET MAN, de Shinya Tsukamoto (Japão)



  • Após o sucesso internacional dos dois primeiros filmes deste franchising, Shinya Tsukamoto tentou convencer Quentin Tarantino a escrever uma nova versão de TETSUO (1989), desta vez situada nos EUA. Nunca produzido, o cineasta nipónico recuperou o projecto e apresenta a história de Anthony (Eric Bossick), um Americano a residir em Tóquio, cuja vida fica totalmente alterada após uma misteriosa e pessoal tragédia.


    N.B.: a lista detalhada de toda a programação do Festival de Veneza pode ser consultada aqui.

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