segunda-feira, janeiro 28, 2008

Hollywood Buzz #14

O que se diz lá fora acerca de RAMBO:



«It's a middling movie both in terms of the franchise and in terms of action movies in general.»
James Berardinelli, Reelviews.

«Stallone is smart enough -- or maybe dumb enough, though I tend to think not -- to present the mythic dimensions of the character without apology or irony. Welcome back.»
A.O. Scott, New York Times.

«Sorry Sly, not this time.»
Michael Rechtshaffer, Hollywood Reporter.

«Stallone (who looks fit but mostly keeps his shirt on) has no intention of bogging the action down, but it's still a notably cheerless exercise, without knowing winks or stabs (pardon the expression) at humor.»
Brian Lowry, Variety.

«The movie is neither cathartic nor entertaining.»
Stephanie Zacharek, Salon.com.

Screen Actors Guild — os vencedores



Foram anunciados, ontem à noite, os vencedores da Screen Actors Guild — uma espécie de sindicato para os actores norte-americanos — e as "surpresas", mais uma vez, não surgiram. Julgo, no entanto, ser digno de realce a vitória de Ruby Dee, por GANGSTER AMERICANO, a qual só aumenta a minha suposição de que a actriz octogenária possa causar sensação na próxima edição dos Óscares.

Eis a lista dos contemplados (vencedores indicados a negrito), acompanhada dos restantes concorrentes:

(Títulos em português indicam filmes já estreados, ou a estrear, em Portugal)

MELHOR ELENCO — FILME
ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS, de Joel & Ethan Coen
O COMBOIO DAS 3 E 10, de James Mangold
GANGSTER AMERICANO, de Ridley Scott
HAIRSPRAY, de Adam Shankman
O LADO SELVAGEM, de Sean Penn

MELHOR ACTOR PRINCIPAL
Daniel Day-Lewis, por HAVERÁ SANGUE
George Clooney, por MICHAEL CLAYTON - UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA
Ryan Gosling, por LARS AND THE REAL GIRL
Emile Hirsch, por O LADO SELVAGEM
Viggo Mortensen, por PROMESSAS PERIGOSAS

MELHOR ACTRIZ PRINCIPAL
Julie Christie, por AWAY FROM HER
Cate Blanchett, por ELIZABETH - A IDADE DO OURO
Marion Cotillard, por LA VIE EN ROSE
Angelina Jolie, por UM CORAÇÃO PODEROSO
Ellen Page, por JUNO

MELHOR ACTOR SECUNDÁRIO
Javier Bardem, por ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
Casey Affleck, por O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD
Hal Holbrook, por O LADO SELVAGEM
Tommy Lee Jones, por ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS
Tom Wilkinson, por MICHAEL CLAYTON - UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

MELHOR ACTRIZ SECUNDÁRIA
Ruby Dee, por GANGSTER AMERICANO
Cate Blanchett, por I'M NOT THERE
Catherine Keener, por O LADO SELVAGEM
Amy Ryan, por VISTA PELA ÚLTIMA VEZ...
Tilda Swinton, por MICHAEL CLAYTON - UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

MELHOR ELENCO — SÉRIE COMÉDIA
O ESCRITÓRIO
DONAS DE CASA DESESPERADAS
A VEDETA
30 ROCK
BETTY FEIA

MELHOR ELENCO — SÉRIE DRAMÁTICA
OS SOPRANOS
BOSTON LEGAL
THE CLOSER
ANATOMIA DE GREY
MAD MEN

Para uma consulta detalhada dos restantes laureados, sigam este link do IMDB.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

O Comboio das 3 e 10 (2007), de James Mangold



A busca de um homem pela sua sanidade moral, rodeado por um mundo repleto de delito e corrupção, não é definitivamente um tema original no âmbito do western. Contudo, este remake do filme de 1957 realizado por Delmer Daves [cineasta semi-desconhecido que encontrou o seu auge ao dirigir Humphrey Bogart e Lauren Bacall em PRISIONEIROS DO PASSADO (1947)] e protagonizado por Glenn Ford, consegue transmitir um novo fôlego a esta abordagem, aparentemente consumida, do cowboy insubornável, ao mesmo tempo que merece a sua inclusão automática no recente movimento de ressurreição dos filmes do “Faroeste” das últimas duas décadas.

Para tal, James Mangold decidiu “alargar” a história. Desmarcando-se do tom do primeiro filme (que se concentrava maioritariamente no confronto verbal, num quarto de hotel, entre os dois protagonistas), aqui é-nos fornecido uma espécie de road movie que vai relatando, com sequências e paisagens impecavelmente filmadas, os esforços de Dan Evans (Christian Bale), veterano marcado fisicamente pela guerra civil americana e necessitado de dinheiro para fazer face a um longo período de seca, em manter a sua rectidão pessoal após aceitar o desafio de escoltar o célebre fora-da-lei Ben Wade (Russell Crowe) pelo longo deserto americano, a tempo de o fazer embarcar num comboio à hora e destino certos – ou seja, a carruagem das 3:10 para Yuma, prisão onde será consumada a pena de morte que lhe foi decretada.



Sem pretender denegrir o trabalho de Bale e Crowe, os dois protagonistas desempenham os seus papéis num eficaz “piloto automático”. Ambos estão fisicamente adequados aos propósitos que as suas personagens encerram, conseguindo manter acesa a “faísca” de conflito e incerteza que alimenta esta personificação do bem versus o mal até à última cena de 3:10 TO YUMA.

Como qualquer western que se preze, o tiroteio final ocupa também aqui honras de maior atenção. A sequência em causa é mais excitante, e por isso memorável, não pela construção da acção, mas sim pelo desfecho que, acredito piamente, irá surpreender até os bons conhecedores da película original.



Destaque final para os sub-aproveitamentos de Peter Fonda (apenas pertinente pelo seu passado em ambiências de westerns) e Gretchen Mol [a actriz que impressionou em THE NOTORIOUS BETTIE PAGE (2006)] está aqui reduzida à sofrida esposa de Dan Evans, incapaz de demonstrar outra emoção que não seja a esforçada resignação perante os infortúnios da vida e decisões arriscadas do esposo: nem se vislumbra o mínimo indício do que realmente move a sua personagem.

Pormenores de casting que, na análise geral, não retiram méritos a 3:10 TO YUMA – para mim, o melhor filme de James Mangold desde COPLAND — ZONA EXCLUSIVA, título produzido há dez anos atrás. Não obstante VIDA INTERROMPIDA (1999) ou WALK THE LINE (2005), teremos de esperar mais uma década para o ressurgimento qualitativo deste realizador?

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Óscares 2008: apostas pessoais



Kathy Bates e Sid Ganis, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, foram os mestres-de-cerimónias durante o anúncio, ontem ao princípio da tarde, dos nomeados para a 80ª edição da entrega dos Prémios da Academia de Hollywood.

Chega agora a época das apostas para arriscar, nem que remotamente, uma previsão dos vencedores no próximo dia 24 de Fevereiro. O Keyzer Soze’s Place segue esta “onda” e apresenta os seus palpites. Comentários e reparos são bem-vindos.

Melhor Filme:
Principais candidatos: num ano que promete indecisão até ao derradeiro minuto, o favoritismo recai sobre três títulos: NO COUNTRY FOR OLD MEN, THERE WILL BE BLOOD e EXPIAÇÃO são os óbvios cabeças-de-série para arrecadar o principal galardão da noite; sinal mais forte para NO COUNTRY FOL OLD MEN, aclamado como Filme do Ano por dez associações de crítica norte-americana.
Outsider: JUNO, definitivamente o típico filme "doce e leve" que costuma agradar à Academia. Basta recordar o efeito que UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS proporcionou à cerimónia do ano passado.
Preteridos: destaque para as ausências, nestes cinco finalistas, de SWEENEY TODD: THE DEMON BARBER OF FLEET STREET e PROMESSAS PERIGOSAS.

Melhor Actor Principal:
Principais candidatos: o sufocante hype que tem sido criado à volta de Daniel Day-Lewis coloca-o no topo da lista, e a enxurrada de prémios que tem vencido (oito prémios de crítica e o recente Globo de Ouro) sustentam a tendência. Contudo, existem motivos válidos (e o reconhecimento do National Board of Review) para George Clooney “espreitar” a possibilidade de uma chamada triunfal ao palco…
Outsiders: se a Academia decidir premiar quem nunca conquistou a estatueta, este pode ser o ano da consagração de Johnny Depp (após duas derrotas em edições anteriores) ou da recompensa de Viggo Mortensen pela sua estreia nestas andanças. O exemplo de Adrien Brody, por o PIANISTA, demonstra a viabilidade desta hipótese.
Preteridos: pareciam certas as presenças de James McAvoy, por EXPIAÇÃO, e Emile Hirsch, por INTO THE WILD. Denzel Washington, pelo seu protagonismo contagiante em GANGSTER AMERICANO, e Frank Langella, o rei dos prémios de interpretação do cinema indie por STARTING OUT IN THE EVENING, também figuram entre os esquecidos de 2008.

Melhor Actriz Principal:
Principais candidatas: Julie Christie tem “varrido” quase todos os prémios este ano, mas o Globo de Ouro atribuído a Marion Cotillard, pela sua personificação de Edith Piaf, inverteu o rumo das apostas.
Outsider: Ellen Page, por JUNO, causou sensação no circuito independente norte-americano. Contagiará a Academia?
Preteridas: a ausência de Keira Knightley entre o rol de nomeadas constitui a maior surpresa: pelos vistos, a arrebatadora performance em EXPIAÇÃO não fez esquecer a sua Elizabeth de OS PIRATAS DAS CARAÍBAS. Angelina Jolie, por UM CORAÇÃO PODEROSO, também se afigurava como candidata de peso. O entusiasmo surreal de David Lynch pode ter minado uma indicação para Laura Dern por INLAND EMPIRE.

Melhor Actor Secundário:
Principal candidato: Javier Bardem. Nada mais há a dizer.
Outsider: Casey Affleck cativou e surge em boa posição para disputar o galardão. O visual sui generis de Philip Seymour Hoffman também poderá “desequilibrar” o resultado final.
Preteridos: a presença de Paul Dano em THERE WILL BE BLOOD foi bastante elogiada, mas não o suficiente para granjear uma nomeação. Algum do elenco coadjuvante de PROMESSAS PERIGOSAS – sobretudo, Armin Mueller-Stahl e Vincent Cassel – demonstrou argumentos para discutir um lugar.

Melhor Actriz Secundária:
Fortes candidatas: Cate Blanchett já se afigura como vencedora, mas Amy Ryan, por GONE BABY GONE (a auspiciosa e elogiada estreia de Ben Affleck como realizador), tem motivos de peso para sonhar com o triunfo.
Outsiders: a surpresa da nomeação de Ruby Dee (GANGSTER AMERICANO), que havia estado virtualmente arredada de todos os outros círculos de prémios cinematográficos, poderá agoirar uma retumbante surpresa na noite de 24 de Fevereiro.
Preteridas: Julia Roberts aparentava um rumo certo para a nomeação por JOGOS DE PODER. Catherine Keener seguiu a “negligência” quase geral ofertada a INTO THE WILD.

Melhor Realizador:
Principais candidatos: acompanhando a tendência das nomeações para Melhor Filme, a consagração poderá estar destinada a Paul Thomas Anderson (THERE WILL BE BLOOD) ou aos irmãos Coen (NO COUNTRY FOR OLD MEN). No entanto, estes últimos já receberam Óscares pelo argumento de FARGO (1996), e não ficaria mal reconhecer o brilhantismo de Paul Thomas Anderson em obras anteriormente esquecidas pela Academia, como BOOGIE NIGHTS – JOGOS DE PRAZER (1997) ou MAGNÓLIA (1999).
Outsider: sem dúvida, Julian Schnabel pela inspirada e original transposição cinematográfica de um indivíduo incapacitado por AVC.
Preteridos: Joe Wright demonstrou know how pelo seu trabalho em EXPIAÇÃO, mas não entrou no rol final de nomeados. 2007 assumia-se como ano propício ao consenso relativamente a David Cronenberg (PROMESSAS PERIGOSAS) e Tim Burton (SWEENEY TODD).

Destaques e esquecimentos gerais:
- apesar da ocasional nomeação, “esperava-se mais” de títulos relevantes estreados em 2007, tais como:
ACROSS THE UNIVERSE, de Julie Taymor;
O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD, de Andrew Dominik;
GANGSTER AMERICANO, de Ridley Scott;
INTO THE WILD, de Sean Penn;
THE KITE RUNNER, de Marc Forster;
GONE BABY GONE, de Ben Affleck;
LARS AND THE REAL GIRL, de Craig Gillespie.

- “notáveis” olvidados pela Academia:
A FACE OCULTA DE MR. BROOKS, de Bruce A. Evans;
BEFORE THE DEVIL KNOWS YOU’RE DEAD, de Sidney Lumet;
CONTROL, de Anton Comjin;
HOMEM-ARANHA 3, de Sam Raimi;
INLAND EMPIRE, de David Lynch;
LUST, CAUTION, de Ang Lee;
PARANOID PARK, de Gus Van Sant;
4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, de Cristian Mungiu;
THE GREAT DEBATERS, de Denzel Washington;
300, de Zack Snyder;
e ZODIAC, de David Fincher.

- aparentemente, os Óscares não se renderam ao “poder” da televisão transportado para a Sétima Arte, ignorando OS SIMPSONS – O FILME e A HISTÓRIA DE UMA ABELHA como potenciais candidatos ao Óscar de Melhor Animação.

- a categoria de Melhor Filme Estrangeiro encerra o maior mistério de 2008: cinco nomeados, cinco incógnitos.

- nos documentários, Michael Moore assinala o regresso da controvérsia à cerimónia, com a sua nomeação por SICKO.

Heath Ledger (1979-2008)



Fiquei incrédulo, esta manhã, quando soube notícias (oficiais) do falecimento de Heath Ledger, actor nomeado para Óscar por O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN e que iria ser uma das figuras proeminentes do próximo Verão cinematográfico, com o seu Joker em THE DARK KNIGHT.

Para já, ainda não existem conclusões oficiais sobre a causa da morte.

E mais não digo: acreditem, estou a recuperar de um choque.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Óscares 2008: as nomeações



Ainda com o "brilho" de recém-anunciados, eis os candidatos às principais estatuetas douradas, com NO COUNTRY FOR OLD MEN e THERE WILL BE BLOOD dominam a "contenda", com 8 nomeações cada:

(Títulos em português indicam filmes já estreados no nosso país.)

Melhor Filme
EXPIAÇÃO
JUNO
MICHAEL CLAYTON
NO COUNTRY FOR OLD MEN
THERE WILL BE BLOOD

Melhor Realizador
Paul Thomas Anderson, por THERE WILL BE BLOOD
Ethan Coen e Joel Coen, por NO COUNTRY FOR OLD MEN
Tony Gilroy, por MICHAEL CLAYTON
Jason Reitman, por JUNO
Julian Schnabel, por O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

Melhor Actor Principal
George Clooney, por MICHAEL CLAYTON
Daniel Day-Lewis, por THERE WILL BE BLOOD
Johnny Depp, por SWEENEY TODD: THE DEMON BARBER OF FLEET STREET
Tommy Lee Jones, por IN THE VALLEY OF ELAH
Viggo Mortensen, por PROMESSAS PERIGOSAS

Melhor Actriz Principal
Cate Blanchett, por ELIZABETH: THE GOLDEN AGE
Julie Christie, por AWAY FROM HER
Marion Cottillard, por LA VIE EN ROSE
Laura Linney, por THE SAVAGES
Ellen Page, por JUNO

Melhor Actor Secundário
Casey Affleck, por O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD
Javier Bardem, por NO COUNTRY FOR OLD MEN
Philip Seymour Hoffman, por JOGOS DE PODER
Hal Holbrook, por INTO THE WILD
Tom Wilkinson, por MICHAEL CLAYTON

Melhor Actriz Secundária
Cate Blanchett, por I'M NOT THERE
Ruby Dee, por GANGSTER AMERICANO
Saoirse Ronan, por EXPIAÇÃO
Amy Ryan, por GONE BABY GONE
Tilda Swinton, por MICHAEL CLAYTON

Melhor Argumento Adaptado
EXPIAÇÃO
AWAY FROM HER
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
NO COUNTRY FOR OLD MEN
THERE WILL BE BLOOD

Melhor Argumento Original
JUNO
LARS AND THE REAL GIRL
MICHAEL CLAYTON
RATATUI
THE SAVAGES

Melhor Direcção de Fotografia
O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD
EXPIAÇÃO
NO COUNTRY FOR OLD MEN
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
THERE WILL BE BLOOD

Melhor Filme Estrangeiro
DIE FALSCHER (Áustria)
BEAUFORT (Israel)
MONGOL (Cazaquistão)
KATYN (Polónia)
12 (Russia)

Melhor Filme de Animação
PERSEPOLIS
RATATUI
DIA DE SURF

Para uma consulta detalhada dos nomeados, é só clicar neste link do IMDB.

Os vencedores serão anunciados — com ou sem cerimónia de gala — no próximo dia 24 de Fevereiro.

Hoje é dia de Óscares!



Não falta muito para sabermos os nomeados para a 80ª cerimónia dos Prémios da Academia.

Entretanto — e este é, igualmente, motivo de destaque - já foi estabelecida a lista de "candidatos" para os prémios dos Piores do Ano, ou seja, os Razzie Awards.

À cabeça das nomeações, encontramos Eddie Murphy com o seu pet project NORBIT, Linsday Lohan por I KNOW WHO KILLED ME e Adam Sandler por DECLARO-VOS MARIDO... E MARIDO. A lista completa pode ser consultada aqui.

Expiação (2007), de Joe Wright



Para mim, o ano de 2007, no que a Cinema se refere, não poderia ter acabado de melhor forma. Não só pude observar uma obra completamente acima da média do que a indústria britânica nos tem proporcionado nos últimos anos, como fui total e surpreendentemente arrebatado pelas virtudes de EXPIAÇÃO, um título cujo material promocional profetizava uma história sobre aristocratas entediados e alheios à revolução que a Segunda Guerra Mundial iria operar no Reino Unido, com uma fugaz observação acerca de discrepâncias sociais. Ao invés deste panorama, EXPIAÇÃO apresenta-se como um interessante estudo sobre o eterno tema do “crime e castigo”, um princípio aqui aplicado a praticamente todas as suas personagens.

São abundantes os motivos de interesse e exploração cinematográficos aqui presentes. O idílico primeiro acto de EXPIAÇÃO remete-nos para ambiências próprias de Jane Austen – não admira, pois o anterior título do realizador Joe Wright foi a adaptação de ORGULHO E PRECONCEITO (2005): a abastada família britânica confinada à vivência banal numa próspera casa de campo que, pelo regresso de um membro há alguns anos afastado deste convívio doméstico, organiza um jantar para assinalar o momento. Paralelamente, e com um fantástico trabalho de flashbacks raramente visto num drama romântico, acompanhamos a relação de amor-ódio entre Cecilia, a filha mais velha dos proprietários, e Robbie, jardineiro daquela propriedade e a quem foi facultada uma educação acima da sua média social (Keira Knightley e James McAvoy, respectivamente), minada pela perspectiva ingénua e ciúme infantil dos 13 anos de Briony (Saoirse Ronan), a irmã mais nova de Cecilia, ao acusar Robbie, sem provas definitivas para tal, de um escabroso delito perpetrado durante a noite do jantar.



É este o turning point de toda a narrativa de EXPIAÇÃO, que do drama de costumes transporta-nos para o seio do maior conflito mundial do séc. XX. Robbie ingressa no exército britânico para escapar a uma perpétua pena de prisão, mas nem as escoriações provocadas pela guerra nem o horror a que, amiúde, assiste, limpa as feridas não saradas daquele Verão passado com Cecilia. É nesta fase que o filme consegue destacar-se, e pela positiva, de toda e qualquer ideia pré-concebida que poderíamos ter tido sobre ele. Joe Wright não só transborda perícia no seu domínio da mise-en-scène, como é capaz de produzir um plano-sequência de quatro minutos e meio digno de figurar entre as cenas mais inesquecíveis da presente década, ou seja, o panorama desolador de um exército inglês desfigurado e em colapso na praia de Dunquerque – diga-se de passagem, uma composição capaz de envergonhar o mais inspirado David Lean…

Ao longo desta última hora de filme, torna-se impossível não invocar, de forma quase constante, o que havia sido explorado em O PACIENTE INGLÊS (1996). Ambos têm como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial; ambos debruçam-se sobre a poderosa influência que o passado detém no rumo das nossas vidas; ambos relatam um amor impossibilitado pelas madrastas consequências da tragédia.



No entanto, e comparações à parte, EXPIAÇÃO é uma obra com méritos próprios, totalmente merecedora da atenção que tem vinho a granjear na actual época de atribuição de prémios – conquistou recentemente o Globo de Ouro para Melhor Filme Drama. Permite verificar que Keira Knightley é uma convincente herdeira da classe típica de nomes como Maggie Smith ou Helen Mirren. Em EXPIAÇÃO, Knightley revela-se uma actriz inteira a todos os níveis, desprendendo-se dos blockbusters que a notabilizaram e apresentando uma profundidade dramática arrebatadora. Destaque para James McAvoy (que irá afirmar-se definitivamente em 2008 com WANTED) e é impossível não referir o trabalho da jovem Saoirse Ronan, cuja presença domina, por completo, o estabelecimento da narrativa nos seus primeiros minutos.

Assim, EXPIAÇÃO acaba por ser a surpresa mais convincente de 2007, culminando numa resolução plena de penitência emocional e, para mais, protagonizada por Vanessa Redgrave. Tem potencial para dominar a noite dos Óscares – caso a Academia não se renda à americanização de NO COUNTRY FOR OLD MEN ou THERE WILL BE BLODD – e, a concretizar-se, não expressarei qualquer oposição.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O Maquinista (2004), de Brad Anderson



Um thriller hitchcockiano dos tempos modernos, este O MAQUINISTA revela-se como um produto de espreitadela obrigatória, seja pela paranóia visual contagiante que ostenta, ou para ver uma das metamorfoses mais radicais alguma vez empreendida por um actor de reputação mundial.

Rumores contam que Christian Bale submeteu-se a um rigoroso plano de alimentação, composto de uma lata de atum e uma peça de fruta por dia, de modo a perder os 40 kg fundamentais para personificar Trevor Reznik, empregado numa fábrica de maquinaria e mortificado por uma ausência de apetite e sono inexplicáveis, que duram há quase um ano. Apesar do seu aspecto pouco robusto, Trevor consegue atrair a companhia constante, embora de natureza distinta, de duas mulheres: uma prostituta chamada Stevie (Jennifer Jason Leigh) e a empregada de um café do aeroporto local que dá pelo nome de Marie (Aitana Sánchez-Gijon). A primeira meia hora do filme é dedicada à exploração deste triângulo de personagens, sem grandes laços em comum entre si mas capazes de arrancar alguma expressão mais afável de Trevor.



O filme entra em territórios misteriosos quando, num dia normal de trabalho, Trevor contribui, intencionalmente, para um acidente quase fatal na fábrica que dilacera o braço a um colega. Imediatamente, recai sobre ele todo o tipo de suspeitas menos positivas, iniciando um turbilhão de sentimentos paranóicos que dominam o filme, visual e narrativamente falando, até ao momento das respostas que – não surpreendentemente – se revelam num twist final.

Em última análise, O MAQUINISTA é uma obra interessante a vários níveis. Corre riscos de forma ousada, os quais poderiam, noutras circunstâncias ou com intervenientes menos cabais, arruinar a experiência da sua visualização. O “reduzido” aspecto físico de Christian Bale, sem dúvida um testemunho extremo dos princípios do Actor’s Studio, é tão bem conseguido que chega a ser distractivo relativamente aos motivos principais do filme. Para além disso, durante quase toda a sua metragem, paira sempre o espectro de as atrocidades que afligem Trevor serem prenúncios do desfecho rocambolesco da história, o qual deixou-me com um certo travo delicodoce na boca. Por outras palavras, e sem querer revelar pormenores cruciais, interroguei-me sobre se já não tinha visto aquele desenlace noutro sítio qualquer...



Brad Anderson demonstra capacidades para considerá-lo como um cineasta a ter em conta (o seu próximo projecto, TRANSSIBERIAN, parece ter muito bom aspecto). Sabe gerir os ritmos da acção, atesta alguma originalidade na composição cénica e consegue arrancar-nos um ou dois arrepios genuínos. Sem estas características, O MAQUINISTA cairia rapidamente no esquecimento. Pelo contrário, é um título com argumentos para figurar entre os melhores de 2004, e surpreendo-me com a ausência de "retribuição" à performance de Christian Bale naquele ano; cada vez mais, convenço-me de que é o melhor actor britânico da sua geração.

Não é todos os dias que vemos um thriller psicológico cujo protagonista, padecendo do maior complexo de perseguição cinematográfico alguma vez observado, possibilita a reflexão acerca dos momentos em que erramos no passado e de como devemos obter a redenção, por mais que esta nos custe. Aliado ao permanente desconforto em que o filme nos coloca, O MAQUINISTA é uma obra de originalidade própria, e ainda temos o bónus de comprovar que os anos passam e Jennifer Jason Leigh continua a apresentar aquele ar de mulher à beira dos trinta. Ainda existem actrizes capazes de desafiar as leis do tempo...

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Hollywood Buzz #13

O que se diz lá fora acerca de CLOVERFIELD:



«Like CLOVERFIELD itself, this new monster is nothing more than a blunt instrument designed to smash and grab without Freudian complexity or political critique, despite the tacky allusions to Sept. 11.»
Manohla Dargis, New York Times.

«An old-fashioned monster movie dressed up in trendy new threads.»
Todd McCarthy, Variety.

«This film takes you into the heart of the maelstrom and leaves you there.»
James Berardinelli, ReelViews.

«We know only what they know, see what the videocamera sees. I.e., not much.»
Richard Corliss, Time Magazine.

«A surreptitiously subversive, stylistically clever little gem of an entertainment.»
Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Custa a acreditar...

...como o tempo passa depressa, mas é já amanhã que estreia, nos EUA, o produto cinematográfico mais apetecido deste início de 2008.

Nada a saber, falo-vos de CLOVERFIELD.

Em breve, um Hollywood Buzz totalmente dedicado às primeiras impressões sobre o filme que até "arrasa" a cabeça da Estátua da Liberdade...



quarta-feira, janeiro 16, 2008

No Country For Old Men (2007), de Joel e Ethan Coen



O primeiro aspecto a realçar em NO COUNTRY FOR OLD MEN é a ausência de uma trilha sonora continuada, que paute a acção desenrolada perante os nossos olhos ou controle o timing do filme. O ritmo é proporcionado pelas expressões e movimentos das personagens, impondo um silêncio, quase assombrado, à narrativa. Esta é composta de longos períodos de contemplação e sequências de diálogo que nunca se tornam maçadoras nem quebram o ímpeto da história, conseguindo surpreender, de forma continuada, o espectador.

Joel e Ethan Coen já provaram, em obras anteriores, saber dominar, como poucos, a “arte da pausa” (veja-se, como exemplo, O BARBEIRO), empregando-a em períodos por vezes quase exasperantes até culminarem no desfecho menos previsível. Essa técnica, chamemos-lhe assim, é utilizada em NO COUNTRY FOR OLD MEN de dez em dez minutos, criando uma obra de permanentes clímaxes narrativos e terminando-a com a habitual sequência derradeira onde o protagonista disserta a moral da história.



Neste caso, o “moralista” é Tommy Lee Jones. Parecendo que não, é ele o elemento condutor de NO COUNTRY FOR OLD MEN, não obstante o facto de estar ausente do ecrã por longos períodos de tempo. A acção principal concentra-se em Llewelyn Moss (Josh Brolin), veterano da guerra do Vietname, que durante um passeio pelo árido deserto do Texas tropeça nos despojos de um violento e inacabado negócio de droga, apoderando-se de uma mala com dois milhões de dólares. Decide ficar com o dinheiro, mas a sua convicção de que alguém procurará reclamá-lo é profética e materializa-se na figura de Anton Chigurh (Javier Bardem), assassino a soldo de uma organização desconhecida e que estabelece como padrão de sentença das suas vítimas o mero lançar de uma moeda – «Call it, friend-o!» arrisca-se a ser a citação cinematográfica mais memorável de 2007.

E este jogo de perseguição – pontuado pela tal comedida especulação nas sequências que explodem da forma mais imprevisível – vai ocupando grande parte de NO COUNTRY FOR OLD MEN, à medida que os cadáveres se vão amontoando e as rédeas do caso são tomadas pelo Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um agente da lei batido que, com a iminência da reforma, debate, a espaços, a mudança dos tempos, o seu futuro e o da nação dos Estados Unidos da América. É, assim, fácil perceber que esta adaptação do romance homónimo, premiado com um Pulitzer, de Cormac McCarthy, debruça-se mais sobre questões sociais do que acerca das nefastas consequências de um recontro ilegal que deu para o torto.



O segundo ponto fundamental do filme é, inevitavelmente, as interpretações dos três leads masculinos. Tommy Lee Jones está impecável na sua inexpressividade: por mais horrendos que os crimes sejam, o seu Ed Tom Bell revela-se mais incrédulo que chocado; Josh Brolin também impressiona pelo seu controlo dramático, possibilitando a incerteza do destino da sua personagem até ao fim; e Javier Bardem, encarnando a loucura própria da filmografia dos irmãos Coen, um psicopata tão desconcertante quanto o seu modus operandi, não sobrando muitas dúvidas de que é o grande candidato a arrebatar os principais galardões de interpretação secundária na presente temporada de apreciação crítica.

NO COUNTRY FOR OLD MEN é uma obra "Coen vintage", de visualização obrigatória para o ano de 2008 que agora começa. Um regresso às singulares histórias de gangsters que perfilam na filmografia do duo e provando que esta fixação dos cineastas encontra, sempre, o seu lugar em qualquer cenário. Após a noite agreste de SANGUE POR SANGUE (1984) e a neve de FARGO (1996), agora são as planícies desertas do Texas que envolvem as personagens e servem de interessante postal turístico para o Great American Outdoors. Para além de revelar o talento do seu habitual director de fotografia Roger Deakins, demonstra a capacidade de adaptação dos Coen a diferentes contextos e ambiências, facto pouco em voga entre os cineastas de primeira linha de Hollywood.

Globos de Ouro (mal polido...)



A ausência de espectáculo com que os vencedores dos Globos de Ouro foram anunciados (aliada a um período atipicamente conturbado no que à minha carreira profissional se refere) levou-me a que não tenha dado, neste espaço e no timing adequado, o destaque a quem foi merecidamente galardoado ou injustamente esquecido.

Passados que estão três dias desde a "conferência de imprensa" que serviu de plataforma de anúncio para as derradeiras escolhas da Imprensa Estrangeira de Hollywood, e com a blogosfera cinéfila nacional absolutamente a par dos acontecimentos, pouco mais tenho a acrescentar que não seja a indicação do link no IMDB onde os mais distraídos podem consultar os resultados.

No entanto, não queria encerrar este assunto sem referir a expectativa que sinto acerca do destino da cerimónia dos Óscares que se aproxima (é já no dia 24 de Fevereiro). Rio-me só de pensar no surreal que seria ver o presidente da Academia, sentado numa mesa e perante centenas de jornalistas aquando da conferência de imprensa "substituta-da-cerimónia", a proferir, pomposamente, a frase And the winner is...

Nem na pior ficção...

sábado, janeiro 12, 2008

Hollywood Buzz #12

O que se diz lá fora acerca de JUNO:



«A fresh, quirky, unusually intelligent comedy about a 16-year-old girl who wins our hearts in the first scene.»
Roger Ebert, Chicago Sun-Times.

«JUNO, directed by Jason Reitman, is smart, witty, and engaging -- three ingredients that, when applied to any film, comprise a recipe for success.»
James Berardinelli, Reelviews.

«Actually, all performances are sharp, which shows what can happen when actors get to play characters and deliver lines that bristle with originality.»
Kirk Honeycutt, Hollywood Reporter.

«Juno, played by the poised, frighteningly talented Ellen Page, is too odd and too smart to be either a case study or the object of leering disapproval. She assesses her problem, and weighs her response to it, with disconcerting sang-froid. »
A.O. Scott, New York Times.

«Witty and honest.»
Chris Cabin, FilmCritic.com.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Estreia da Semana



ACROSS THE UNIVERSE é, à primeira vista, uma miscelânia de "delírio visual" com "subjectiva retrospectiva histórica dos anos 60". Se a frase anterior remete em demasia para a noção de estarmos perante um produto cinematográfico "demente", o trailer que abaixo publico limpa qualquer incerteza, nem que longínqua, que possamos ter acerca dessa impressão:



Realizado por Julie Taymor, cineasta com background teatral mas com provas dadas no que toca ao seu potencial em criar obras de grafismo singular (veja-se, como exemplo, algumas sequências específicas em TITUS (1999), com Anthony Hopkins), ACROSS THE UNIVERSE tem gerado as mais díspares opiniões sobre a sua qualidade, angariando profundos amantes e detractores a toda a linha. Contudo, impressionou o suficiente para merecer a nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia ou Musical.

Uma nota especial para a banda sonora. ACROSS THE UNIVERSE é um musical composto por uma colectânea impressionante de hits dos Beatles, cujas letras serviram para elaborar o seu argumento. E a interpretá-los, encontramos desde Bono (já pude espreitar a sua interpretação de I Am the Walrus e trata-se de uma sequência verdadeiramente estonteante) até a uma multi-reproduzida Salma Hayek.

Resumindo, é ver para ditar sentença.

Em exibição no Cine SolMar.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Filhos de Um Deus Maior #14

Spot televisivo, concebido pela americana Butler, Shine, Stern & Partners, para o modelo Clubman da Mini:



Vai um joguinho de pinball?

terça-feira, janeiro 08, 2008

Fico surpreendido...

...mas trata-se de uma surpresa há muito aguardada.



A Variety anuncia que a Hollywood Foreign Press Association, responsável pela entrega dos Globos de Ouro, decidiu cancelar a cerimónia — que iria realizar-se no próximo dia 13 de Janeiro — por não ter conseguido chegar a acordo com o sindicato de argumentistas de Hollywood que, como é por demais sabido, encontra-se há vários meses em greve.

Solução de recurso? A HFPA anunciará os vencedores numa singela conferência de imprensa, que será levada a cabo no Hotel Hilton de Beverly Hills e com transmissão televisiva em directo pela NBC, na mesma data em que estava agendada a "gala" dos Globos de Ouro.

Nesse dia, far-se-á história. E pela negativa...

segunda-feira, janeiro 07, 2008

PROMESSAS PERIGOSAS (2007), de David Cronenberg



Quem observa com atenção a filmografia de David Cronenberg, verá o quão integrado – apesar do contexto narrativo e espacial ser elemento inovador – este PROMESSAS PERIGOSAS encontra-se no seio desse percurso cinematográfico. Viggo Mortensen é a verdadeira surpresa nas "redondezas", conseguindo arrebatar, mais uma vez, pela sua participação segura e corajosa enquanto protagonista. Os desafios incorporados pelo actor, tanto físicos como morais, são um resultado – talvez inconsciente – da confiança gerada entre ele e o realizador em UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA (2005). Afinal de contas, quantos actores do mainstream norte-americano concordariam em fazer um nu integral nos termos patenteados neste PROMESSAS PERIGOSAS?

Aliás, a metamorfose da carne humana, tema incessante na obra de Cronenberg, está aqui patente nas mais variadas formas e cada uma, na sua respectiva sequência, sugerindo emoções díspares no espectador. Desde a impetuosidade duma mutilação que resulta em homicídio até aos lânguidos procedimentos das tatuagens observadas numa sequência importante do filme, a transfiguração do corpo humano acompanha a alteração dos estados psicológicos das personagens. De qualquer forma, é possível chegar a uma única conclusão: se mais confirmações fossem necessárias, e após sucessivos elogios onde quer que tenha estreado, estamos perante um dos filmes do ano.



Encerrados numa Londres suja, húmida e escura – esse afastamento do filme face aos típicos postais turísticos da capital do Reino Unido é tão denunciado que nem parece ter sido lá rodado) –, Anna (Naomi Watts) acompanha o parto de uma bebé cuja mãe, de 14 anos, falece pouco depois. Entre os seus pertences, Anna descobre um diário manuscrito em russo e, por um acaso quase augurante, pede a Semyon (Armin Mueller-Stahl), líder da Máfia russa londrina, que o traduza. Não obstante o charme idoso e sapiente que exala, Semyon é o perpetrador da violação que originou a gravidez da adolescente. Cientes desse facto estão Nikolai (Viggo Mortensen), condutor particular da Vory v Zakone, e Kirill (Vincent Cassel), filho de Semyon e com sintomas de psicopatia, cujas personalidades e valores serão confrontados com as acções deploráveis do ancião da organização criminosa…

O argumento não é, em última análise, o seu ponto forte. O que torna PROMESSAS PERIGOSAS num filme maior é a capacidade das personagens, a dado momento, dominarem a película através das suas palavras e acções, conseguindo sobreporem-se à típica e ofegante iluminação da câmara de David Cronenberg (ou seja, a forte claridade do tema central na imagem sob um fundo preenchido por trevas). Para além disso, impossível não expressar este destaque, o cineasta constrói uma das sequências mais memoráveis e, ao mesmo tempo, badaladas de 2007, capaz de encetar padrões para o futuro em cenas idênticas – em certa medida, um pouco o efeito que BLADE RUNNER (1982) provocou na ficção científica. A "auto-defesa" animalesca de Nikolai, perante dois impressionantes adversários numa sauna pública, tem tanto de virtuoso como de repulsivo. Durante aqueles quatro minutos estamos, definitivamente, em puro território Cronenbergiano.



Enquanto cinéfilo, não me importo que David Cronenberg se desvie dos seus habituais cenários irrealistas, que serviam propósitos inusitados dos seus argumentos e criavam reacções mistas nos seus espectadores. Na verdade, não me recordo doutro realizador tão peculiar obter flagrante consenso crítico e comercial sem perder, nesse processo, a visão que o distingue dos seus pares. Confirmado PROMESSAS PERIGOSAS como um título digno de figurar ao lado de BROOD (1980), VIDEODROME (1983), A MOSCA (1986), IRMÃOS INSEPARÁVEIS (1988) e O FESTIM NU (1992), podemos ansiar, calmamente, pela próxima obra de Cronenberg. E se Viggo Mortensen estiver a coadjuvá-lo, mais seguros ficaremos da qualidade desse mesmo projecto.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Estreia da Semana



Finalmente chegou às salas açorianas um dos filmes indispensáveis de 2007: PROMESSAS PERIGOSAS.

O mais recente título na filmografia do cineasta canadiano David Cronenberg, assinala igualmente o reencontro com Viggo Mortensen (após a magnífica experiência de UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA) e permite, simultanemante, que Cronenberg explore os seus temas predilectos com uma abordagem a cenários mais "mundanos".

Presença assídua (até ao momento) em várias atribuições de prémios de crítica, PROMESSAS PERIGOSAS conta a história do misterioso e carismático Nikolai Luzhin (Mortensen), condutor privado do líder (Armin Mueller-Stahl) de uma das mais conhecidas famílias criminosas de Londres. O seu percurso cruza-se com o de Anna (Naomi Watts), parteira de um hospital londrino e sensível ao drama de uma adolescente que falece após dar à luz. Um nascimento que, por suspeitas da sua imoral paternidade, irá colocar em perigo a vida de Anna e as convicções mais profundas de Nikolai.



Em exibição no Cine Sol-Mar.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Primeiras imagens...

...do set de INDIANA JONES AND THE KINGDOM OF THE CRYSTAL SKULL, cortesia da Vanity Fair:

(nota especial para o look de Cate Blanchett, a vilã do filme)







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