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domingo, maio 01, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

MAP OF THE SOUNDS OF TOKYO (2009), de Isabel Coixet



Ryu (Rinko Kikuchi) é uma rapariga solitária cuja frágil compleição marca um poderoso contraste à vida dupla que alimenta: trabalha de noite num mercado de peixe mas o seu verdadeiro rendimento provém de assassinatos encomendados. A sua missão mais recente é David (Sergi López), um empresário espanhol radicado no Japão por quem se apaixonará.

Drama intimista, sensual e atmosférico (ou não fosse este um filme de Isabel Coixet), pretende abordar vários temas sem convencer em nenhum, culminando num final que tem tanto de inconsequente como de previsível. Salienta-se o inteligente sound design durante a primeira meia hora de filme, revelando indícios sórdidos que a narrativa confirmará posteriormente. Merece visualização apenas pela sua aprimorada execução técnica.

MARADONA (2008), de Emir Kusturica



A história, queda e "ressurreição" de Diego Armando Maradona são analisadas pela lente documental de Emir Kusturica. Desfrutando de um acesso inédito à privacidade do futebolista, o realizador sérvio traça uma viagem íntima e pessoal às memórias e crenças de um dos mais mediáticos desportistas de todos os tempos.

É um documentário à Kusturica. Mas elaborado por um desinspirado Emir Kusturica: a certa altura, não sabemos se o filme é sobre Maradona ou se representa uma súmula do próprio cineasta, o qual decide associar a personalidade exuberante e de fácil auto-elogio do futebolista à carreira que forjou. O carisma do argentino, para o bem e para o mal, mostra-se digno de realce, fornecendo-nos a esperança de surgir, no futuro, um biopic de Maradona digno desse estatuto.

48 (2010), de Susana Sousa Dias



Durante 96 minutos, as fotografias de quem foi detido e torturado pela PIDE ao longo de 48 anos de ditadura salazarista (daí o título do filme) ocupam o ecrã acompanhados da descrição dos próprios retratados, em trémulos voz-off, que invocam memórias traumáticas do que viveram entre as instalações da Rua António Maria Cardoso e a prisão de Caxias.

Se a composição formal de 48 parece escassa em cinema, é porque a sua visualização proporciona uma experiência mais psicológica do que sensorial. A associação das vozes àquelas "mugshots", expostas em ralentie e dissolves, estimula não só a nossa capacidade de interpretação pessoal como também um certo poder de sugestão (embora alguns dos testemunhos sejam inegavelmente explícitos) para a compreensão das emoções de cada entrevistado. Todavia, se o Cinema é por excelência a arte de envolver o espectador, então 48 será das obras portuguesas mais cinematográficas de 2011...

WITHNAIL E EU (1987), de Bruce Robinson



Em 1969, dois jovens e desafortunados actores partilham um apartamento decrépito no centro de Londres. Com o objectivo de obter descanso e, na melhor das hipóteses, nova perspectiva acerca das suas vidas, decidem passar um fim-de-semana numa cidade rural, cujo clima é tão frio quanto a hospitalidade que lhes é oferecida. Muita chuva, pouca comodidade e a visita surpresa do tio homossexual de Withnail (Richard E. Grant) garantirão que as "férias" serão tudo menos repousantes.

Hoje totalmente dominado por um vincado cariz romântico, o cinema de humor britânico originou na década de 80 autênticas preciosidades de culto, das quais O SENTIDO DA VIDA (1983, Terry Jones), UM PEIXE CHAMADO WANDA (1988, Charles Crichton) e este WITHNAIL E EU são exemplos maiores. O desespero e a ruína auto-infligidos para fins cómicos, a requintada sátira aos hábitos de socialização ingleses e um fabuloso scene-stealing show de Richard E. Grant asseguram-lhe o merecido culto que lhe é conferido.

BIUTIFUL (2010), de Alejandro González Iñárritu



Uxbal (Javier Bardem) esforça-se para conciliar a segurança da sua família, o amor que nutre pela esposa bipolar e de quem está separado e a procura de trabalho que evitará a deportação de um grupo de imigrantes ilegais no seio do perigoso submundo criminal de Barcelona. Entretanto, é-lhe diagnosticado um cancro mortal, enfermidade que ele tentará ocultar até ao fim.

Para Iñarritu, o mundo é lugar de atroz sofrimento onde ninguém, física e espiritualmente, sai vivo. No seu melhor filme desde AMOR CÃO (2000), sobressaem os habituais temas da amargura humana e social assentes numa rigorosa direcção de fotografia (a cargo do sempre fantástico Rodrigo Prieto) e na emocional sonoplastia. A principal novidade reside na injecção de um intrigante realismo mágico que, sobriamente, não esconde o drama principal do argumento nem o enorme desempenho de Javier Bardem: se dúvidas existissem de que este mundo é mesmo pequeno para o seu talento, BIUTIFUL dissipa-as por completo.

terça-feira, maio 18, 2010

Festival de Cannes 2010 — Dia 6



Foi um fantástico dia para os apreciadores do denominado Cinema de Autor. Três filmes concebidos por três eclécticos e díspares cineastas marcaram presença na Croisette.

Na "corrida" pela Palma de Ouro, foi exibido BIUTIFUL, de Alejandro Gonzalez Iñárritu, centrado na figura de Uxbal (Javier Bardem), dividido entre o futuro dos seus filhos e a sobrevivência no gueto em que está inserido:



Construindo, pela primeira vez na sua carreira, uma história linear, mas sem deixar de analisar os efeitos da globalização junto dos que vivem no limiar da miséria, BIUTIFUL não foi, contudo, recebido unanimemente pela crítica especializada, dividida entre os que o consideram como «um eminente candidato à Palma de Ouro» ou, do outro lado da "barricada", descrito como «um filme de fugir» no sentido literal da expressão. Opiniões à parte, Iñarritu enunciou, durante a conferência de imprensa, a mensagem que o motivou nesta obra: «Embora as trevas pareçam estar em todo o lado, BIUTIFUL oferece imensas perspectivas de esperança. Atrevo-me a dizer que este é o meu filme mais optimista». Argumentos ao critério do júri presidido por Tim Burton...

Javier Bardem e Alejandro Gonzalez Iñarritu

Maricel Alvarez observa Iñarritu durante a conferência de imprensa

Também em Competição, foi exibida a nova obra de Takeshi Kitano dedicada à Yakuza, OUTRAGE:



Dez anos depois de BROTHER, o regresso de Kitano ao crime organizado nipónico caracteriza-se pela predominância da violência verbal e psicológica, relegando os tiroteios e derramamento de sangue para segundo plano. «Se repetisse os mesmos métodos, seria monótono. Quis demonstrar algo evoluído. Por isso, incluí mais sequências de diálogos».

Takeshi Kitano a almejar uma futura carreira como fotógrafo?

Jean-Luc Godard, um dos "pais" da Nouvelle Vague, está de regresso e apresentou, na secção «Un Certain Regard», a sua mais recente "experiência cinematográfica", FILM SOCIALISME:



O filme — 100 minutos de imagética caleidoscópica acompanhada por textos em estilo SMS — esteve presente, mas o cineasta não. Godard cancelou a sua agendada conferência de imprensa por "problemas de foro Grego": a verdadeira "essência" desta justificação ainda está por explicar. Quanto a FILM SOCIALISME, foi recebido com calorosos aplausos da crítica, embora tenha encontrado maior frieza por parte do público.

quinta-feira, abril 15, 2010

Festival de Cannes 2010



Foram apresentados hoje de manhã, em conferência de imprensa, os títulos que marcarão a 63ª edição do Festival de Cannes.

O Keyzer Soze's Place partilha a sua selecção (numa programação ainda incompleta) dos filmes mais sonantes. Primeira nota: num ano em que, muito provavelmente, apenas um filme norte-americano concorrerá à Palma de Ouro, é grande a expectativa quanto à revelação dos vencedores, que decorrerá no dia 23 de Maio. Até lá, temos a certeza de que qualidade não estará ausente do certame.

  • Em Competição


  • . HORS LA LOI, de Rachid Bouchareb



    Sequela "não-oficial" de INDIGÈNES (2006), também assinado por Bouchareb, é uma retrospectiva sobre a luta pela independência da Argélia durante os anos 40 e 50, vista pelos olhos de três irmãos que participam na revolta contra o exército do colonizador francês. Destaque para o protagonismo de Jamel Debbouze (O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE e ANGEL-A).

    . BIUTIFUL, de Alejandro González Iñarritu



    Um homem (Javier Bardem), envolvido no transporte ilegal de emigrantes, é perseguido pelo seu melhor amigo de infância, que agora é agente da polícia. Co-produzido por Guillermo del Toro e Alfonso Cuaron, e ostentando uma equipa técnica de luxo (Rodrigo Prieto na direcção de fotografia, Stephen Mirrione na montagem e banda sonora composta pelo oscarizado Gustavo Santaolalla), assinala o regresso de Iñarritu a um filme totalmente falado em espanhol desde a sua estreia em AMOR CÃO (2000).

    . COPIE CONFORME, de Abbas Kiarostami



    Durante uma viagem a Itália para promover o seu último romance, um escritor inglês de meia-idade trava conhecimento com uma negociante de arte francesa, a qual propõe-lhe um estranho divertimento: fingir que é o marido dela. Um jogo onde realidade e fantasia misturam-se de forma perigosa. O novo filme do cineasta iraniano mais aclamado da actualidade, protagonizado por Juliette Binoche (a "cara" do 63º Festival de Cannes).

    . AUTOREIJI / OUTRAGE, de Takeshi Kitano



    Tóquio está em chamas devido a uma luta mortal entre gangs Yakuza rivais, na qual se distingue Otomo, um operacional a quem é pedido que faça a maior parte do trabalho sujo nesta guerra urbana. O regresso do "multitasked" Takeshi Kitano às narrativas centradas na máfia japonesa desde o aclamado BROTHER (2000).

    . ANOTHER YEAR, de Mike Leigh



    Não obstante a pouca informação existente sobre este projecto, é garantido que se assistirá ao estilo de improvisação e realismo social que bem caracteriza a filmografia de Leigh, tal como ficou provado em NU (1993), SEGREDOS E MENTIRAS (1996, Palma de Ouro no Festival daquele ano) e VERA DRAKE (2004).

    . FAIR GAME, de Doug Liman



    A única presença norte-americana entre os filmes elegíveis à Palma de Ouro, debruça-se sobre a ex-agente da CIA Valerie Plame, cuja actividade no seio dos Serviços de Inteligência norte-americanos foi publicamente revelada em consequência de um crítico artigo no New York Times, sobre as opções políticas de George W. Bush no Iraque, publicado pelo seu próprio marido. O elenco é liderado por Naomi Watts e Sean Penn, naquele que será o título de teor mais mainstream em "concurso".

    . UTOMLYONNYE SOLNTSEM 2, de Nikita Mikhalkov



    Dezasseis anos após o sucesso de O SOL ENGANADOR, Mikhalkov reencarna a personagem Sergei Kotov, desta vez a liderar o seu exército na frente russa durante a Segunda Guerra Mundial. De assinalar o radical afastamento do drama íntimo patenteado no primeiro filme, visto trata-se de um épico bélico avaliado em 55 milhões de dólares — o mais caro de sempre na história do cinema russo.

    . LA PRINCESSE DE MONTPENSIER, de Bertrand Tavernier



    Depois da "aventura" americana que IN THE ELECTRIC MIST representou, Tavernier regressa ao seu país natal para filmar o conto publicado em 1662 por Madame de La Fayette, sobre o romance entre o Duque de Guise e a Mademoiselle Mézières, forçada a um casamento de conveniência com o Príncipe de Montpensier. Destaque para o elenco, onde figuram Mélanie Thierry, Gaspard Ulliel e Lambert Wilson.

    . UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES, de Apichatpong Weerasethakul



    Nas suas últimas horas de vida, Boonmee recebe a visita dos fantasmas de parentes há muito desaparecidos, que o obrigam a revisitar os episódios mais marcantes da sua juventude. Uma original abordagem às temáticas da efemeridade humana, o cineasta tailandês mais conceituado internacionalmente regressa a Cannes, após ter arrecadado o Grande Prémio do Júri, em 2004, com TROPICAL MALADY.

  • Un Certain Regard


  • . O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA, de Manoel de Oliveira



    Situado nos anos 50, narra a história de um fotógrafo hospedado num pequeno hotel e que é subitamente acordado durante a noite pelos proprietários, para que vá tirar uma foto à filha acabada de falecer. Aos 101 anos, Manoel de Oliveira estreia novo filme em Cannes, que há muito se rendeu ao mais decano dos cineastas internacionais.

    . FILM SOCIALISME, de Jean-Luc Godard



    Um cruzeiro atravessa o Mediterrâneo. A bordo, seguem um criminoso de guerra com a sua neta, um francês, um oficial russo, a embaixadora da Palestina, Alain Badiou e Patti Smith. A interacção entre estes "personagens" originará uma série de diálogos em diferentes idiomas e sobre diferentes temas. Assinado por vários cineastas, sob a supervisão de Godard, é um dos projectos cinematográficos mais aguardados de 2010.

    . CHATROOM, de Hideo Nakata



    Quando quatro adolescentes conhecem William numa sala de chat, são imediatamente atraídos pelo seu "cibernético carisma". Mas William não é o que aparenta: manipulador e calculista, enceta um aterrorizante jogo de perseguição que, em breve, sairá do mundo virtual para se converter numa ameaça bem real. Nakata, um dos "fundadores" do J-Horror, investe novamente no terror a partir de tecnologia quotidiana.

    . AURORA, de Cristi Puiu



    Um dos principais nomes da "nova vaga" de cineastas romenos regressa a Cannes depois de A MORTE DO SR. LAZARESCU (2005) ter arrecadado o prémio da Secção Un Certain Regard. O próprio Puiu protagoniza este drama sobre um homem com dois filhos, divorciado e que se demite do emprego para embarcar na mais radical mudança de vida.

  • Fora de Competição


  • . ROBIN HOOD, de Ridley Scott



    Nova incursão cinematográfica dedicada ao lendário herói das florestas de Nottingham, protagonizado por Russell Crowe e Cate Blanchett, tem honras de abertura do 63º Festival de Cannes.

    . YOU WILL MEET A TALL DARK STRANGER, de Woody Allen



    Romance, sexo, traição e também algumas gargalhadas. As vidas de um grupo de pessoas cujas paixões, ambições e ansiedades forçam-nas a enfrentar todo o género de problemas, que vão do burlesco ao ameaçador. A sinopse não engana: estamos perante puro Woody Allen...

    . TAMARA DREWE, de Stephen Frears



    Drewe é uma jovem e sexy jornalista que retorna à sua terra natal para impedir a venda da casa onde nasceu. Entre os locais, a sua chegada incitará novas e velhas paixões duvidosas. Adaptado da excêntrica banda desenhada de Posy Simmonds, a expectativa em torno deste filme tem sido enorme, sobretudo por ser realizado pelo veterano Frears (LIGAÇÕES PERIGOSAS, A RAINHA) e protagonizado por Gemma Arterton, a nova sex-symbol britânica.

    . WALL STREET — MONEY NEVER SLEEPS, de Oliver Stone



    Enquanto a economia mundial está à beira do abismo, um jovem corretor de Wall Street (Shia LaBeouf) une-se com o "ressuscitado" Gordon Gekko (Michael Douglas) para uma dupla missão: descobrir quem assassinou o mentor do jovem executivo e possibilitar que Gekko reconquiste a confiança da sua filha (Carey Mulligan). Oliver Stone volta a explorar os meandros do insider trading, numa obra que não poderia ser mais actual.

    N.B.: A lista detalhada dos filmes a exibir em Cannes pode ser consultada aqui.

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