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quinta-feira, janeiro 03, 2013

A "Polémica" do Mês #18

Como a blogosfera cinéfila nacional divergiu, este mês, sobre HOLY MOTORS, de Leos Carax.





«Singela e pura paixão que nos traça algo nunca visto e rico.»
Hugo Gomes, Cinematograficamente Falando.



«No fundo, todo este aparato extremamente bem produzido, com uma direção de arte e fotografia luminosa e realizado com uma eficácia ímpar, não oferece grandes meios-termos: amor ou ódio, ambos profundos...»
Roni Nunes, C7nema.



«Acabado o filme, não existe uma ideia concreta sobre o que acabámos de ver, sem ler sobre o mesmo, sem ler qualquer entrevista o filme desfaz-se, porque nada o sustenta.»
Nelson Zagalo, Virtual Illusion.

sábado, dezembro 29, 2012

2012 no Cinema (1ª Parte)

2012 EM PORMENORES

O bom, o mau, o surpreendente e o banal estão sempre nos detalhes... Do cinema estreado comercialmente no nosso país em 2012, eis treze "categorias" analisadas e que falam por si:

O Filme Mais Subvalorizado do ano



. CRÓNICA, de Josh Trank, quase o equivalente de O PROJECTO BLAIR WITCH para a sobrevivência do género found footage, coloca todo o seu gimmick (efeitos visuais incluídos) a favor da narrativa e evita a típica conclusão que grita "sequela!". A surpresa mais agradável do ano.

O Filme Mais Sobrevalorizado do ano



. MOONRISE KINGDOM, de Wes Anderson: narrativamente cabotino, tematicamente desprovido de originalidade e esteticamente cansativo, impinge a sua marca autoral em cada sequência e perde naturalidade nesse processo. De uma mediania que nunca deveria ter sido empolgada.

O Melhor Filme do ano que não conheceu estreia em Portugal



. o manipulador KILLER JOE, de William Friedkin, cujo lançamento comercial no nosso país encontra-se, aparentemente, num "limbo". Quase cartoonesco na sua violência, percorre um caminho estreito entre a comédia surreal e o tenebroso realismo, assinalando o regresso de forma de William Friedkin (OS INCORRUPTÍVEIS CONTRA A DROGA e O EXORCISTA).

A Interpretação Masculina do ano



. Michael Shannon, em PROCUREM ABRIGO (Jeff Nichols), mais do que o retrato da provável degeneração mental de um indivíduo, o seu protagonismo é colocado como epíteto da Humanidade contemporânea — amedrontada, paranóica e confusa face às agressivas "manifestações" que a rodeia — numa composição que balança, admiravelmente, a pura contenção e o violento clamor.

A Interpretação Feminina do ano



. a destemida serenidade e majestosa imagem da inevitabilidade do ser humano por Emmanuelle Riva, em AMOR (Michael Haneke).

O Actor do ano



. 2012 colocou em evidência que afinal existe versatilidade e profundidade dramática em Matthew McConaughey, protagonizando uma impressionante "reabilitação" artística com o seu stripper empreendedor de MAGIC MIKE (Steven Soderbergh), o político sem escrúpulos de MORRE... E DEIXA-ME EM PAZ! (Richard Linklater) e o ambíguo jornalista de THE PAPERBOY — UM RAPAZ DO SUL (Lee Daniels). Portugal deve-lhe a "apresentação pública" do acima referido KILLER JOE (William Friedkin), onde pontifica, sem dúvida, o papel da sua vida.

A Actriz do ano



. Judi Dench, a prova de que o consensual reconhecimento de uma carreira não é antónimo de prolífera actividade, como o demonstraram a sua actriz clássica em A MINHA SEMANA COM MARYLIN (Simon Curtis), a mãe protectora de J. EDGAR (Clint Eastwood), a reformada vulnerável em O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD (John Madden) e uma chefe do MIT da velha guarda em 007 — OPERAÇÃO SKYFALL (Sam Mendes).

O Regresso do ano



. Jean-Louis Trintignant, repentino e enigmático retrato, quase extremo, de dedicação matrimonial em AMOR (Michael Haneke).

A Desilusão do ano



. HOLY MOTORS, de Leos Carax, que trouxe às plateias internacionais — adormecidas ou não — algumas das ideias de Cinema mais pertinentes do ano mas, ao confundir irreverência com aleatoriedade e experimentalismo com pretensiosismo, não as sustenta nem alimenta no espectador.

A Banda Sonora do ano



. VERGONHA (Steve Mcqueen), por Harry Escott.

O Plano-Sequência do ano

. VERGONHA, de Steve McQueen:



O Animal de Estimação do ano



. Mr. Whiskers, em FRANKENWEENIE (Tim Burton).

O Adereço do ano





. as limusinas de COSMOPOLIS (David Cronenberg) e HOLY MOTORS (Leos Carax).

quinta-feira, dezembro 20, 2012

HOLY MOTORS (2012), de Leos Carax



24 horas na vida de Monsieur Oscar (Denis Lavant), um ente que se desloca de ser vivo para ser vivo, como um assassino solitário se desloca de vítima para vítima. Cada vida que possui tem uma identidade distinta: assassino, pedinte, presidente de uma grande empresa, criatura monstruosa, trabalhador, homem de família...

Torna-se claro que Monsieur Oscar representa e que se atira de cabeça para cada novo papel. Mas onde estão as câmaras, a equipa de filmagem, o realizador?
— filmspot.pt



Enigmático, bizarro, visualmente cativante e inconformado são adjectivos que poderão caracterizar HOLY MOTORS. Todavia, nada aqui se revelará inteiramente satisfatório nem cumprido, apenas sugerido em toda a parafernália referencial (sobretudo, pretende-se a reflexão ao estado actual do Cinema) com que Leos Carax preenche o estranho quotidiano do protagonista Monsieur Oscar. E o poder da sugestão (ou da auto-sugestão, no caso do espectador) pode ser um instrumento perigoso.

É-me impossível negar a afirmação de que HOLY MOTORS representa um dos títulos do ano. E não o nego por todas as altruístas e metafóricas intenções a que, aparentemente, se propõe: o olhar desencantado sobre uma arte corrompida por "monstros", dominada pelo digital e por uma "realidade virtual" que atrai mas não contenta, por «câmeras de filmar mais pequenas que as nossas cabeças», pela incapacidade de distinguir o belo do grotesco e pelo product placement que não poupa, sequer, campas mortuárias.

O problema? Não sustenta nem alimenta, no filme ou no observador, nenhum desses interessantes conceitos.







HOLY MOTORS resulta, portanto, no tipo de filme que, na forma, esconde o seu pretensiosismo através do experimentalismo e, no conteúdo, encantará estudantes de cinema e críticos enlevados (ou ainda indignados por ter sido tão veementemente sonegado pelo juri do último Festival de Cannes...) pela suposta genialidade que é aqui formulada.

Labiríntico pelo simples desejo de ser labiríntico, HOLY MOTORS nunca parece natural ou pouco esforçado nos seus misteriosos preceitos. Aliás, o único elemento que aqui se "move" bem é Denis Lavant: numa interpretação merecedora de reconhecimento público, é calma e fúria, alegria e tristeza, elegância e obscenidade de uma assentada só.

Exemplo máximo de auto-ambição desmedida, que destrói qualquer sentido. Inclusivamente, a ausência de sentido.

quinta-feira, maio 24, 2012

Festival de Cannes 2012 — Dia 8



. ON THE ROAD, de Walter Salles (Em Competição)

O elenco e realizador de ON THE ROAD

Walter Salles sorri para os fotógrafos

«Trabalhamos num espírito de constante improvisação», Walter Salles, durante a conferência de imprensa para ON THE ROAD.

Kirsten Dunst e Viggo Mortensen: nunca ficam mal na fotografia

«Handsome shots and touching sadness don't compensate for the tedious air of self-congratulation in Walter Salles's road movie», Peter Bradshaw in The Guardian.

«Overall, this just isn't a very good movie. It's repetitive and tedious, one scene after another barely distinguishing itself from the last», Brad Brevet in Rope of Silicon.

«It is a largely successful attempt to bring the book to life», Drew McWeeny in HitFix.

. HOLY MOTORS, de Leos Carax (Em Competição)

Foto de grupo de HOLY MOTORS

barking mad, assim apelidou a crítica HOLY MOTORS; o mesmo se poderia aplicar a Leos Carax

«O cinema é como uma ilha, uma belíssima ilha, onde existe um vasto cemitério. Quando fazes um filme, estás a criar cinema», Leos Carax sobre as auto-homenagens da Sétima Arte.

O sempre excêntrico Denis Lavant

«Leos Carax's experimental odyssey is barking mad, weightless and euphoric – it's what we have all come to Cannes for», Peter Bradshaw in The Guardian.

«HOLY MOTORS evolves with each passing minute, both brilliantly human and purposefully silly, a prism of performance and death so different from other films that it seems to have been beamed down from another planet», Glenn Heath Jr. in Press Play.

«A deliciously preposterous piece of filmmaking that appraises life and death and everything in between, reflected in a funhouse mirror», Megan Lehmann in The Hollywood Reporter.

. IO E TE, de Bernardo Bertolucci (Fora de Competição)

O regresso de Bernardo Bertolucci à Croisette

«Bernardo Bertolucci's IO E TE feels like an attempt to show that age, infirmity and three decades away from his native Italian cinema have done nothing to blunt his touch for capturing adolescent sensual yearning», Peter Debruge in Variety.

. 7 DÍAS EN LA HABANA, de Benicio Del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabio e Laurent Cantet (Un Certain Regard)

«Like a mojito that overdoes it on the lime juice, the omnibus film 7 DÍAS EN LA HABANA has a few veritable sweet spots but winds up leaving a rather sour aftertaste», Jordan Mintzer in The Hollywood Reporter.



[Fotos: Site oficial do Festival.]

segunda-feira, abril 11, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

THE MAN FROM NOWHERE (2010), de Lee Jeong-beom



Cha Tae-Sik, pacato gerente de uma loja de penhores, é forçado a recorrer ao seu passado violento quando uma rede de tráfico de droga e de órgãos humanos para transplantes rapta So-mee, uma menina com quem ele tinha uma peculiar amizade.

Facilmente comparável, na sua temática, com os "ocidentais" HOMEM EM FÚRIA (2004, Tony Scott) ou TAKEN — BUSCA IMPLACÁVEL (2008, Pierre Morel), Lee Jeong-beom procura distanciar-se desses títulos através da carga emocional que imprime às personagens e de alguns interessantes pormenores no trabalho de câmara — destaque para uma sequência de luta corpo a corpo, "registada" através do ponto de vista dos intervenientes —, resultando num thriller bastante satisfatório, embora lamente-se a ausência de surpresas no argumento. Mais um excelente indício da vitalidade do actual cinema sul-coreano.


TOKYO! (2008), de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho



Três cineastas apresentam três curtas-metragens recheadas de implausibilidade e centradas no isolamento humano. Michel Gondry, em «Interior Design», apresenta-nos uma jovem mulher que considera a sua vida inútil, até ao momento em que se transforma (literalmente!) numa cadeira; Leos Carax, em «Merde», revela-nos um bizarro caucasiano que emerge dos esgotos de Tóquio para enfrentar prisão, julgamento e condenação à morte; e Bong Joon-ho, em «Shaking Tokyo», conta-nos a história de um hikikomori (indivíduo que escolhe viver em casa e afastado de qualquer relação social) cuja existência é abalada quando uma rapariga lhe desmaia à porta durante um terramoto.

Nos seus três fragmentos, TOKYO! revela-se naturalmente desequilibrado mas com momentos memoráveis. Bong Joon-ho destaca-se como o mais bem conseguido técnica, narrativa e tematicamente, enquanto Carax patenteia, talvez, o pior trabalho da sua carreira (não admira que o seu segmento se intitule «Merde»...). Michel Gondry está igual a si próprio, misturando "cenas da vida real" com puro surrealismo. Deverá ser encarado como curiosidade estética.

LONDON BOULEVARD — CRIME E REDENÇÃO (2010), de William Monahan



Mitchel, acabado de sair da penitenciária onde cumpriu pena por homicídio involuntário, encontra trabalho como guarda-costas de uma actriz de cinema reformada e constantemente assediada por paparazzi. Enquanto isso, o seu passado menos legítimo teima em persegui-lo. Desta vez, na forma de um desonesto e implacável criminoso.

Sem apresentar nada que não tenhamos visto em dezenas de outros títulos e com melhores resultados (no contexto britânico, Guy Ritchie, Paul McGuigan ou Martin McDonagh saltam imediatamente à memória), o desapontamento é maior pela ausência de química entre Colin Farrell e Keira Knightley — ambos em evidente momento de má forma — e na utilização de uma atmosfera 'swinging London' que tem tanto de desajustado como de inexplicável. David Thewlis e Ray Winstone, secundários de luxo, são aqui os únicos motivos de realce positivo.

13 ASSASSINS (2010), de Takashi Miike



No Japão feudal, o jovem nobre Naritsugu assassina e viola à sua bela vontade. Devido ao seu estatuto, ninguém ousa enfrentá-lo. Contudo, Shinzaemon, samurai da velha guarda, é secretamente contratado para reunir um grupo de guerreiros com a missão de assassinar Naritsugu.

Devendo mais a Akira Kurosawa (sobretudo, por OS SETE SAMURAIS) do que à Toho Company dos anos 60 e 70, Takashi Miike modera o seu gore habitual (as cabeças só começam a rolar mesmo no final) para construir o filme de samurais mais completo desde ZATOICHI (2003, Takeshi Kitano), onde a atmosfera da vivência feudal nipónica do Século XIX é quase palpável (mérito para a magnífica direcção de fotografia, sobretudo na primeira parte) e o seu épico clímax, com 45 minutos de duração, revela-se um autêntico deleite para os sentidos. O "método do samurai" no Cinema está vivo e recomenda-se.

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