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terça-feira, maio 22, 2012

Festival de Cannes 2012 — Dia 6



Dia marcado por chuva torrencial. Uma intempérie que permitiu a chegada de estranhos "convidados" à Croisette...



. VOUS N'AVEZ ENCORE RIEN VU, de Alain Resnais (Em Competição)

Alain Resnais: a irreverência criativa não tem BI

«Foi uma ideia que começou a formar-se quase sub-repticiamente na sala de montagem», Alain Resnais sobre o título do filme, durante a conferência de imprensa de VOUS N'AVEZ ENCORE RIEN VU.

Resnais e o elenco de VOUS N'AVEZ ENCORE RIEN VU posam para as objectivas

«Artfully edited to accentuate the redundant dialogue, VOUS N'AVEZ ENCORE RIEN VU develops a rhythmic echo effect that lasts most of the movie as Resnais destroys the fourth wall and builds it up again several times over», Eric Kohn in indieWIRE

«A tribute to the director's love of theater. More than that, it presents his notion that film and theater are one and the same», Sasha Stone in Awards Daily.

«Despite its moments of charm and caprice, the film is prolix, inert, indulgent and often just plain dull», Peter Bradshaw in The Guardian.

. LIKE SOMEONE IN LOVE, de Abbas Kiarostami (Em Competição)

Elenco de LIKE SOMEONE IN LOVE

Abbas Kiarostami na conferência de imprensa

«O filme não tem princípio nem fim. Tal e qual como a vida é.», Abbas Kiarostami.

Rin Takanashi, a jovem protagonista do mais recente filme de Kiarostami

«The importance of perception cannot be understated here, since the film often buries its cutting ideology beneath a measured narrative pace interspersed with hypnotic silences», Glenn Heath Jr. in indieWIRE.

«Kiarostami still manages to pull the "slow cinema" rug out from under us by literary ending things with a bang», Jordan Mintzer in The Hollywood Reporter.

«Beautifully shot and acted, but the curtain comes crashing down too abruptly», Peter Bradshaw in The Guardian.

. DA-REUN NA-RA-E-SUH / IN ANOTHER COUNTRY, de Hong Sangsoo (Em Competição)

Isabelle Hupert e o realizador Hong Sangsoo

«Os filmes de Hong Sangsoo são dos mais elegantes que conheço», Isabelle Huppert sobre a sua experiência de trabalhar com o cineasta sul-coreano.

Nem a chuva impediu a gala na sessão de gala de IN ANOTHER COUNTRY

«Looks very much like something written on a napkin and shot in the one afternoon that Huppert could come to South Korea. Slight, diverting, forgettable, Peter Bradshaw in The Guardian.

. AI TO MAKOTO / FOR LOVE'S SAKE, de Takashi Miike (Fora de Competição)



«A greatly rewarding, supremely intelligent and undeniably gripping romantic thriller. Plus, it has a surprising amount of laughs along the way and a few musical moments which keep things feeling fresh and unexpected», Chris Haydon in Filmoria.

. ELEFANTE BLANCO, de Pablo Trapero (Un Certain Regard)

Pablo Trapero

«For all the competence and strength of Trapero's direction, the film is not as powerful as it might have been», Peter Bradshaw in The Guardian.

[Fotos: Site oficial do Festival e Getty Images.]

quinta-feira, maio 19, 2011

Festival de Cannes 2011 — Dia 9



Nono e "agitado" dia de Festival: devido às suas bombásticas declarações, proferidas ontem, de simpatia por Hitler, Cannes decidiu considerar Lars von Trier como persona non grata e baniu a sua presença de futuras edições do certame. Contudo, MELANCHOLIA permanece em competição (ou seja, ainda elegível para prémios, incluindo a Palma de Ouro) e as reacções de estupefacção à decisão da organização não tardaram em fazer-se sentir...

Esta quinta-feira fica, também, marcada pela exibição de dois dos títulos mais sonantes em concurso. Pedro Almodóvar apresentou LA PIEL QUE HABITO, protagonizado por Antonio Banderas, ou a primeira experiência do realizador espanhol no cinema de terror, numa mistura explosiva de horror, suspense e cirurgia plástica.

Almodóvar posa para os fotógrafos

Um pujante Antonio Banderas, dentro e fora do grande ecrã

E, a julgar pela imprensa especializada, não estamos perante uma experiência falhada. Com Banderas a encarnar um «'neo-Frankenstein' de forma convincente», LA PIEL QUE HABITO está repleto de «surpreendentes revelações» e fotografia dominada por «sensualidade, texturas e salpicos de sangue». Contudo, realçou-se que, apesar de uma premissa tão ambiciosa, o filme «nunca atinge todo o seu potencial».

O sempre activo Takashi Miike pisou hoje a Croisette para a exibição de HARA-KIRI: DEATH OF A SAMURAI, a mais recente incursão do cineasta japonês pelo mundo das histórias de poder e vingança entre samurais.

Takashi Miike e o actor Eita demonstram o poder dos samurais

Num filme «metódico e, por vezes, frontalmente sombrio», Miike foi duramente criticado pela «construção de narrativa pouco satisfatória» e uma «incompreensível e inútil opção pelo formato 3D». Aparentemente, não se trata dos melhores títulos em competição.

Fora de competição, e desafiando as autoridades iranianas, Cannes conheceu THIS IS NOT A FILM, a obra mais recente de Jafar Panahi e que descreve o quotidiano do cineasta um dia antes de saber o veredicto do recurso ao seu mandato de prisão. Uma obra documental capaz de transformar «censura numa forma de arte».

Jafar Panahi

Destaque final para o primeiro prémio atribuído no âmbito da presente edição do Festival. TAKE SHELTER, de Jeff Nichols, arrecadou o Grande Prémio da Semana da Crítica.

Imagem de TAKE SHELTER, com Michael Shannon e Jessica Chastain

[Crédito de imagens: Getty Images e Site Oficial do Festival]

terça-feira, maio 10, 2011

Festival de Cannes 2011 — Antevisão



Começa amanhã, e prolongando-se até 22 do corrente mês, a 64ª edição do Festival de Cannes. Palco de cerimónias cuidadosamente planeadas e ferozes disputas artísticas, o certame iniciar-se-à com a ligeireza cómico-romântica de Woody Allen mas rapidamente assumirá faceta "sombria": desde a clandestina presença e à última da hora de Jafar Panahi (realizador iraniano detido pelo regime de Ahmadinejad), passando pelo auspício de momentos desconfortáveis "oferecidos" por Almodóvar, von Trier e Dumont, até aos potenciais arrepios que as primeiras obras de Julia Leigh e Sean Durkin poderão causar, apenas uma certeza existe: vão ser os onze dias de cinema mais electrizantes do ano.

Não se adivinha tarefa fácil para o júri, este ano presidido por Robert De Niro, atribuir a Palma de Ouro. O muito aguardado regresso de Terrence Malick, a habitual "pressão" dos irmãos Dardenne ou a presença de Bilge Ceylan e Kaurismäki na Selecção Oficial prometem incerteza até ao derradeiro minuto.

Como já é tradição, o Keyzer Soze's Place acompanhará o Festival com o relato dos melhores momentos de cada dia. Por agora, segue o destaque dos principais títulos a serem exibidos na Croisette:

  • Em Competição

  • . LA PIEL QUE HABITO, de Pedro Almodóvar



    Baseado num romance de Thierry Jonquet, narra a vingança de um cirurgião plástico (Antonio Banderas) que, após a morte da esposa num acidente de viação, procura conceber uma espécie de pele humana que proteja uma pessoa de qualquer agressão.

    . HEARAT SHULAYIM, de Joseph Cedar



    A história de uma insana rivalidade entre pai e filho, ambos excêntricos professores numa Universidade Hebraica de Jerusalém. O filho é um sedento oportunista, apenas interessado nos louvores atribuídos por aquela instituição; o pai é um obstinado purista mas, secretamente, anseia pelo reconhecimento público do seu trabalho. O concurso para o prémio mais prestigiante de Israel levará os dois a um amargo confronto final.

    . ONCE UPON A TIME IN ANATOLIA, de Nuri Bilge Ceylan



    A vida numa pequena cidade é semelhante à experiência de caminhar no meio das estepes: o sentimento de que "algo novo e diferente" irá aparecer por trás de cada monte numa paisagem que se demonstra sempre igual e a estrada persistentemente monótona...

    . LE GAMIN AU VÉLO, de Jean-Pierre e Luc Dardenne



    Cyril (Thomas Doret), prestes a completar doze anos, tem apenas um plano: encontrar o pai que o abandonou num infantário. Conhece, por acaso, Samantha (Cécile de France), a gerente de um salão de cabeleireiros que o deixa ficar com ela nos fins-de-semana. Cyril é incapaz de reconhecer a empatia que Samantha sente por ele; contudo, só esse amor poderá acalmar a ira que cresce dentro do rapaz.

    . LE HAVRE, de Aki Kaurismäki



    Comédia dramática sobre um desiludido escritor (André Wilms) que decide iniciar uma respeitável, mas pouco lucrativa, carreira de engraxador de sapatos. Com o sonho de triunfar na literatura finalmente enterrado e feliz por viver junto de amigos e da esposa Arletty, o destino obriga-o a ajudar um jovem refugiado africano (Blondin Miguel).

    . SLEEPING BEAUTY, de Julia Leigh



    Conto de fadas erótico sobre Lucy (Emily Browning), jovem estudante universitária atraída para um misterioso mundo de beleza e desejo. De forma a conseguir pagar as despesas, aceita um emprego na mansão de Clara (Rachael Blake) como objecto sexual de clientes que só encontram satisfação na literal passividade de Lucy.

    . THE TREE OF LIFE, de Terrence Malick



    Jack (Sean Penn), uma alma perdida no mundo moderno, procura reconciliar-se com a sua juventude, marcada pela relação conflituosa com o pai (Brad Pitt), e entender a mais importante regra da vida que nunca poderá ser alterada: o eterno esquema de que todos fazemos parte.

    . LA SOURCE DES FEMMES, de Radu Mihaileanu



    Numa pequena aldeia entre o Norte de África e o Médio Oriente, o trabalho de subir ao alto da montanha para recolher água de uma fonte sempre esteve reservado às mulheres. Um dia, a jovem Leila (Leïla Bekhti) exorta as restantes mulheres a entrarem numa greve particular: não haverá amor nem sexo até os homens assumirem a tarefa de ir buscar a água para a aldeia.

    . ICHIMEI, de Takashi Miike



    O samurai Hanshiro (Ebizo Ichikawa) solicita licença para cometer hara-kiri no pátio da casa do senhor feudal Kageyu (Koji Yakusho). Este, relutante em aceitar essa defesa de honra, recorda a trágica história de um pedido semelhante feito por um jovem ronin chamado Motome. Mas nas costas do arrogante Kageyu, um laço vingativo formou-se entre Hanshiro e Motome...

    . HABEMUS PAPAM, de Nanni Moretti



    Após a morte do Papa, reúne-se um conclave para decidir o sucessor. O cardeal escolhido (Michel Piccoli) parece incapaz de suportar o peso de tal responsabilidade. Será ansiedade? Depressão? Simples inadaptação? Enquanto os fiéis aguardam na Praça de São Pedro pelo anúncio do novo pontífice, o Vaticano recorre a métodos pouco ortodoxos para solucionar a crise.

    . THIS MUST BE THE PLACE, de Paolo Sorrentino



    A estreia de Paolo Sorrentino (IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI, 2008) ao leme de uma produção norte-americana centra-se em Cheyenne (Sean Penn), um próspero e reformado cantor de rock, que regressa a Nova Iorque após receber notícias da morte do pai. Descobrindo a humilhação que o falecido suportou às mãos de um oficial das SS em Auschwitz, Cheyenne percorre os Estados Unidos para enfrentar Muller, vingar o pai e redescobrir a sua própria identidade.

    . MELANCHOLIA, de Lars von Trier



    Justine e Michael (Kirsten Dunst e Alexander Skaarsgård) celebram o seu casamento com a realização de uma sumptuosa festa na casa da irmã (Charlotte Gainsbourg) da noiva. Entretanto, um planeta desconhecido ameaça destruir a Terra...

    . DRIVE, de Nicolas Winding Refn



    Duplo em Hollywood durante o dia e motorista de criminosos durante à noite, um homem solitário (Ryan Gosling) vê-se perseguido pelo homem mais perigoso de Los Angeles quando um trabalho falha redondamente. Para sobreviver, terá de se exceder naquilo que melhor sabe fazer: conduzir.

  • Un Certain Regard

  • . RESTLESS, de Gus Van Sant



    Annabel (Mia Wasikowska), a padecer de um cancro terminal, e Enoch (Henry Hopper), a recuperar da trágica morte dos pais, conhecem-se por acaso num funeral e rapidamente percebem que possuem diversos e inesperados pontos em comum. Juntos, serão capazes de conceber as suas próprias regras para enfrentar as amarguras da vida.

    . HORS SATAN, de Bruno Dumont



    Na Côte d'Opale, perto de um rio, vive um estranho homem que é ajudado por uma rapariga natural daquela região. Juntos encetarão uma série de súplicas privadas, perto de lagoas onde o diabo passeia...

    . MARTHA MARCY MAY MARLENE, de Sean Durkin



    Assombrada por dolorosas memórias e sofrendo de ansiedade crescente, Martha (Elizabeth Olsen) escapa ao controlo de uma seita abusiva e regressa a casa para viver com a irmã Lucy (Sarah Paulson). Contudo, os constantes pesadelos causados pela coerção psicológica daquele culto impedem uma vida normal e Martha acaba por cair num irremediável estado de pânico permanente.

    . THE DAY HE ARRIVES, de Sang-soo Hong



    Sang-Joon (Yu Jun-Sang), professor de Cinema numa universidade de província, viaja até Seul para se encontrar com o crítico Young-Ho (Kim Sang-Jung). Durante essa estadia de três dias, Sang-Joon trava uma série de encontros com a sua ex-namorada, cuja omnipresença torna-se quase intolerável.

    . ARIRANG, de Ki-duk Kim



    Filme íntimo e pessoal de Kim Ki-duk, no qual aborda o seu "desaparecimento" nos últimos três anos, durante os quais enfrentou diversos problemas de saúde.

    . ET MAINTENANT, ON VA OÙ?, de Nadine Labaki



    Situado num país devastado pela guerra, esta é a história da determinação de um grupo de mulheres em proteger a sua comunidade das forças divisoras que ameaçam ruir aquela união. Mas quando os eventos assumem contornos trágicos, até onde irão estas mulheres para evitar um sangrento tumulto?

    . LOVERBOY, de Catalin Mitulescu



    Luca (George Pistereanu) tem 20 anos, reside numa pequena cidade junto ao Danúbio e seduz mulheres para depois vendê-las a uma rede de tráfico humano que opera no Mar Negro. Quando conhece e apaixona-se por Veli (Ada Condeescu), Luca decide rever o seu estilo de vida.

    . TRABALHAR CANSA, de Marco Dutra e Juliana Rojas



    Helena (Helena Albergaria), jovem dona de casa, decide abrir a sua própria mercearia. Para dedicar-se ao negócio, contrata Paula (Naloana Lima) para tomar conta da filha. Mas quando o seu marido Otávio (Marat Descartes) é subitamente demitido, as relações entre estas três personagens alteram-se e acontecimentos perturbadores ameaçam a rentabilidade do estabelecimento.

  • Fora de Competição

  • . MIDNIGHT IN PARIS, de Woody Allen



    Comédia romântica sobre uma família americana que viaja em negócios para Paris. Aí, um jovem casal (Owen Wilson e Rachel McAdams) é forçado a testar a ilusão de que uma vida diferente é sempre melhor que a actual.

    . THE BEAVER, de Jodie Foster



    Atormentado pelos seus "demónios interiores", Walter Black (Mel Gibson), em tempos um chefe de família e executivo bem sucedido, cai numa profunda depressão. Por mais que se esforce, Walter parece não ser capaz de se reencontrar... até que a marioneta de um castor entra na sua vida.

    . PIRATES OF THE CARIBBEAN: ON STRANGER TIDES, de Rob Marshall



    A enigmática Angelica (Penélope Cruz) obriga o Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp) a embarcar numa imprevisível viagem em busca da Fonte de Juventude.

    . IN FILM NIST, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb



    Um dia na vida do cineasta Jafar Panahi, antes da celebração do Novo Ano Iraniano.

    . LES BIEN-AIMES, de Christophe Honoré



    Da Paris dos anos 60 até à Londres do Século XXI, Madeleine (Catherine Deneuve) e a sua filha Vera (Chiara Mastroianni) entram e saem da vida dos homens que amam. Mas nem todas as épocas permitem sentir o amor com a mesma ligeireza. Como resistir ao tempo que corrói os nossos sentimentos mais profundos?

    --//--

    O programa completo do Festival, nas suas várias secções, pode ser consultado aqui.

    [Fontes: sinopses traduzidas a partir da informação disponível no site oficial do Festival; imagens retiradas do Mubi.]

    segunda-feira, abril 11, 2011

    Críticas da Semana

    Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

    THE MAN FROM NOWHERE (2010), de Lee Jeong-beom



    Cha Tae-Sik, pacato gerente de uma loja de penhores, é forçado a recorrer ao seu passado violento quando uma rede de tráfico de droga e de órgãos humanos para transplantes rapta So-mee, uma menina com quem ele tinha uma peculiar amizade.

    Facilmente comparável, na sua temática, com os "ocidentais" HOMEM EM FÚRIA (2004, Tony Scott) ou TAKEN — BUSCA IMPLACÁVEL (2008, Pierre Morel), Lee Jeong-beom procura distanciar-se desses títulos através da carga emocional que imprime às personagens e de alguns interessantes pormenores no trabalho de câmara — destaque para uma sequência de luta corpo a corpo, "registada" através do ponto de vista dos intervenientes —, resultando num thriller bastante satisfatório, embora lamente-se a ausência de surpresas no argumento. Mais um excelente indício da vitalidade do actual cinema sul-coreano.


    TOKYO! (2008), de Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho



    Três cineastas apresentam três curtas-metragens recheadas de implausibilidade e centradas no isolamento humano. Michel Gondry, em «Interior Design», apresenta-nos uma jovem mulher que considera a sua vida inútil, até ao momento em que se transforma (literalmente!) numa cadeira; Leos Carax, em «Merde», revela-nos um bizarro caucasiano que emerge dos esgotos de Tóquio para enfrentar prisão, julgamento e condenação à morte; e Bong Joon-ho, em «Shaking Tokyo», conta-nos a história de um hikikomori (indivíduo que escolhe viver em casa e afastado de qualquer relação social) cuja existência é abalada quando uma rapariga lhe desmaia à porta durante um terramoto.

    Nos seus três fragmentos, TOKYO! revela-se naturalmente desequilibrado mas com momentos memoráveis. Bong Joon-ho destaca-se como o mais bem conseguido técnica, narrativa e tematicamente, enquanto Carax patenteia, talvez, o pior trabalho da sua carreira (não admira que o seu segmento se intitule «Merde»...). Michel Gondry está igual a si próprio, misturando "cenas da vida real" com puro surrealismo. Deverá ser encarado como curiosidade estética.

    LONDON BOULEVARD — CRIME E REDENÇÃO (2010), de William Monahan



    Mitchel, acabado de sair da penitenciária onde cumpriu pena por homicídio involuntário, encontra trabalho como guarda-costas de uma actriz de cinema reformada e constantemente assediada por paparazzi. Enquanto isso, o seu passado menos legítimo teima em persegui-lo. Desta vez, na forma de um desonesto e implacável criminoso.

    Sem apresentar nada que não tenhamos visto em dezenas de outros títulos e com melhores resultados (no contexto britânico, Guy Ritchie, Paul McGuigan ou Martin McDonagh saltam imediatamente à memória), o desapontamento é maior pela ausência de química entre Colin Farrell e Keira Knightley — ambos em evidente momento de má forma — e na utilização de uma atmosfera 'swinging London' que tem tanto de desajustado como de inexplicável. David Thewlis e Ray Winstone, secundários de luxo, são aqui os únicos motivos de realce positivo.

    13 ASSASSINS (2010), de Takashi Miike



    No Japão feudal, o jovem nobre Naritsugu assassina e viola à sua bela vontade. Devido ao seu estatuto, ninguém ousa enfrentá-lo. Contudo, Shinzaemon, samurai da velha guarda, é secretamente contratado para reunir um grupo de guerreiros com a missão de assassinar Naritsugu.

    Devendo mais a Akira Kurosawa (sobretudo, por OS SETE SAMURAIS) do que à Toho Company dos anos 60 e 70, Takashi Miike modera o seu gore habitual (as cabeças só começam a rolar mesmo no final) para construir o filme de samurais mais completo desde ZATOICHI (2003, Takeshi Kitano), onde a atmosfera da vivência feudal nipónica do Século XIX é quase palpável (mérito para a magnífica direcção de fotografia, sobretudo na primeira parte) e o seu épico clímax, com 45 minutos de duração, revela-se um autêntico deleite para os sentidos. O "método do samurai" no Cinema está vivo e recomenda-se.

    quinta-feira, setembro 09, 2010

    Festival de Veneza 2010 — Dia 9



    Takashi Miike, o rei do gore e horror nipónico, apresentou em Veneza 13 ASSASSINS (Em Competição).



    A história de um grupo de samurais, que se une para derrubar do poder um tenebroso senhor feudal, revela-se inspirada no estilo clássico deste género de filmes — coisa inédita em Miike, sempre disposto a quebrar todas as regras — e, por isso, acessível para qualquer público. Um facto confirmado pelo cineasta, que quis «educar os jovens japoneses sobre o seu passado recente. É a nossa História, não é imaginação, embora este seja um filme fictício».

    As críticas, embora não sejam negativas, sugerem alguma decepção: «surpreendentemente sem surpresas», para resumir o sentimento geral. Os maiores elogios acabaram por se centrar nas escolhas narrativas e estilísticas do realizador, o qual «joga deliberadamente com estruturas e convenções do género».

    O prolífero Takashi Miike posa para a fotografia

    SORELLE MAI (fora de Competição) é o mais recente filme de Marco Bellocchio — que o estreou em Veneza com muitas reservas.



    Sete anos depois de ter, inexplicavelmente, perdido o Leão de Ouro com BOM DIA, NOITE, Bellocchio aceitou projectar SORELLE MAI no presente Festival desde que fora de concurso. E o transalpino surpreendeu plateias com um melodrama que "viaja" entre realidade e ficção, ecoando as suas próprias memórias de vida. Um estilo que o realizador justificou por ter medo de «tratar a história de forma convencional, pois odeio e refuto a nostalgia e todas essas patetices». A animosidade de Bellocchio é palpável...

    ... mas a crítica não se importou com isso. Para muitos, «o filme é ar fresco no ambiente carregado do Festival» e a opção pela narrativa fragmentada — SORELLE MAI foi rodado durante dez anos — «não lhe retira densidade e é a natureza diacrónica dos eventos que acaba por atribuir poder à história e às personagens».

    Marco Bellocchio durante a conferência de imprensa>

    Destaque para a presença de Manoel de Oliveira em Veneza, com a sua curta-metragem PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA, VISÃO POÉTICA, (secção Orizzonti).



    Uma obra encomendada pela Fundação de Serralves, prende a sua atenção nas figuras que compõem os enigmáticos Painéis de São Vicente de Fora, em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga. «O grande mistério destes Painéis reside em não se saber ao certo quem são as personagens nele representadas, porque, se algumas são reconhecíveis, muitas outras não o são», afirmou Oliveira à imprensa sobre um filme de elevada carga histórica pois «os Descobrimentos, iniciados por Portugal, permitiram um conhecimento mais completo do mundo».

    O realizador mais velho do mundo em actividade desfrutou duma ovação de dez minutos antes da projecção e da avaliação positiva da crítica, que não hesitou em sublinhar a vontade de Oliveira «declarar a necessidade de encontrarmos a paciência para abrandar o ritmo descontrolado, desconfiança e medo que habitam o nosso quotidiano».

    Imagens retiradas de: Site Oficial do Festival, AFP e ANSA.

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