
Vertiginoso, explosivo,
globetrotting e absolutamente obrigatório. Breves palavras para descrever o "enorme"
CARLOS,
biopic acerca do terrorista mais mediático da era pré-Osama Bin Laden. Exibido fora de competição durante a última edição do Festival de Cannes numa versão com cinco horas e meia, e emitido em três partes pelo Canal+, Olivier Assayas executa, até à data, o seu projecto mais ambicioso, almejando, aparentemente, a "reabilitação" junto do público e crítica após as reacções mornas a
TEMPOS DE VERÃO (2008) e
BOARDING GATE (2007).
Não abdicando do seu estilo próprio de realização — de câmara ao ombro e montagem "palpitante" —, o principal trunfo de Assayas reside na complexa tarefa de não só retratar, com bastante neutralidade, a vida de um homem que foi tudo menos pacífica e, ao mesmo tempo, elaborar o testemunho impressionante de um
zeitgeist (a saber, os anos 70 do Séc. XX) em que a Europa era cenário privilegiado para tira-teimas dos vários conflitos que grassavam no Médio Oriente e onde assaltar um avião parecia ser tão fácil quanto o moderno fenómeno do
carjacking.

Financiado por toda a organização opositora aos EUA e Israel (desde a FPLP até aos serviços secretos iraquianos, libaneses, sírios e líbios), o venezuelano Ilich Ramírez Sánchez assumiu o '
nom de guerre' Carlos para ameaçar os «interesses do capitalismo imperialista» no mundo árabe através da força e de uma série de golpes que o tornaram num dos primeiros criminosos perseguidos mundialmente.
Como demonstração do que o levou a conquistar tal "estatuto", o filme recria, com notável detalhe e realismo, os planos mais radicais de Carlos, sendo pontos altos sequências como a espectacular tentativa de explodir um avião da El Al recorrendo a
rockets disparados do parque de estacionamento do aeroporto de Orly ou a turbulenta tomada de reféns durante uma cimeira da OPEP em Viena.

Mas CARLOS não se limita a acções de terrorismo político. Há espaço para uma abordagem quase pormenorizada das relações pessoais do protagonista, assim como da postura que assumiu em diversas ocasiões e que terão, simultaneamente, alimentado simpatia e repugnância populares. «Sou um soldado e não um mártir!», exclama Carlos a certa altura, quando recusa levar a cabo um banho de sangue (com ele incluído) durante o irregular desenvolvimento de uma negociação de reféns, não obstante a pressão dos restantes membros do seu grupo.
Embora seja de concepção intrinsecamente cinematográfica, a fragmentação de CARLOS para a emissão televisiva em três partes distintas — ascensão, auge e queda do protagonista — permite a adequada retenção de nomes, locais e situações pelo espectador. Na sua longa duração, poucos sentirão tédio. O argumento de Olivier Assayas (apoiado nessa tarefa por Dan Franck, um dos argumentistas mais profícuos da Europa) é excelso na criação de elipses narrativas que nos mantêm sempre na "rota" dos acontecimentos, mesmo que seja escasso o nosso conhecimento do tema.

Mas a verdadeira estrela é Edgar Ramirez na pele de Carlos, 'O Chacal' (curiosamente, uma alcunha nunca mencionada em todo o
biopic), que se transfigura física, psicológica e até idiomaticamente (o actor expressa-se, pelo menos, em seis línguas diferentes) para capturar impecavelmente o ego enorme, charme considerável e manifesta disposição para a criminalidade da personalidade representada. Dominando o filme de uma ponta à outra, Ramirez apenas encontra "adversário" na breve presença de Ahmad Kaabour, reputado compositor libanês, enquanto Wadie Haddad, carismático líder das FPLP.
No cômputo geral, CARLOS é obra definitivamente a não perder. O próprio Ilich Ramírez Sánchez, presentemente a cumprir pena perpétua em França, já o viu. E deve ter ficado deveras "fascinado", pois interpôs um
processo judicial exigindo o pagamento de
royalties pela utilização da sua imagem. Mas isto é fantástico ou quê?!