Ninguém fica imune ao poder das estações e ao seu ciclo anual de nascimento, crescimento e envelhecimento. Nem mesmo dois monges, como os presentes em PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA, que partilham um remoto mosteiro flutuante, num lago rodeado pelas montanhas. À medida que as estações se sucedem, todos os aspectos das suas vidas são preenchidos com uma intensidade que os conduz a uma enorme espiritualidade — e à tragédia. Porque também eles não conseguem resistir à escalada da vida, aos anseios, sofrimentos e às paixões que nos arrebatam a todos.
O filme narra a jornada de um jovem monge de 10 anos, cujo nome permanecerá incógnito, desde a sua infância até à maturidade. Sob o olhar atento do Velho Monge, o jovem experimenta a perda da inocência por intermédio de um encadeado de acontecimentos dispostos da mesma forma episódica como a divisão temporal do título: brincadeiras que se transformam em crueldade; o despertar do amor quando uma mulher entra neste mundo fechado; o poder assassino do ciúme e da obsessão; o preço da redenção; e a iluminação da experiência. Assim como as estações continuam a alternar até ao final dos tempos, também este mosteiro permanecerá como a morada do espírito do protagonista, suspenso entre o agora e o eterno.
O cinema de Kim-Ki Duk notabilizou-se pela natureza visceral, chocante e agitada de obras como O BORDEL DO LAGO (2000) e HWAL (2005). Pelo contrário, PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA afirma a vertente delicada e "mundana" do seu realizador, que aqui utiliza a mudança das estações como uma metáfora para a vida. E se essa não se revela como uma abordagem original, a concretização é de uma beleza particularmente invulgar, destinada a amplificar emocionalmente a história e respectiva profundidade espiritual.
Num filme que levanta questões sobre a forma como vivemos, e como as nossas acções e as da natureza podem ter consequências inesperadas anos mais tarde, PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA restaura a esperança de que o mundo possa enfrentar os seus problemas e retirar ilações para o futuro.
por Samuel Andrade.
Elenco
. Su Oh-yeong (Velho monge), Kim Ki-duk (Monge adulto), Kim Young-min (Monge jovem adulto), Seo Jae-kyeong (Monge jovem), Ha Yeo-jin (Rapariga), Kim Jong-ho (Monge em criança)
Palmarés
. Festival Internacional de Locarno: Prémio do Júri da Juventude (Kim Ki-Duk), Prémio C.I.C.A.E. (Kim Ki-Duk), Prémio Don Quixote (Kim Ki-Duk), Prémio Netpac (Kim Ki-Duk)
. Festival Internacional de San Sebastián: Prémio do Público (Kim Ki-Duk)
Sobre Kim Ki-Duk
Cineasta orgulhoso do seu estatuto, a nível mundial, de autor outsider, tal condição tem-lhe permitido explanar, idiossincraticamente, a sua visão pessimista, brutal e confrangedora da Humanidade. Da sua filmografia, destacam-se O BORDEL DO LAGO (2000), BAD GUY (2001), SAMARITANA (2004), FERRO 3 (2004) e PIETA (2012, Leão de Ouro no Festival de Veneza).
...a um dia da cerimónia e antes das apostas finais, é altura de invocar os filmes e os nomes que (na opinião do Keyzer Soze) a Academia "esqueceu" nas nomeações da sua 85ª edição.
Eis mais um ano com muitas e notáveis omissões para a cerimónia do próximo Domingo. Portanto, não custa muito listar os especiais casos de:
Profunda e desencantada metáfora à História dos Estados Unidos, O MENTOR é, igualmente, uma das obras esteticamente mais interessantes das últimas décadas à qual a Academia não foi capaz de proporcionar atenção pública com, no mínimo, uma nomeação para o Oscar mais sonante da próxima noite dos Oscars. Rodado em fulgurante 70mm, desenvolvendo o seu argumento e temática através da imagem, banda sonora e atmosfera, o facto de Paul Thomas Anderson (Melhor Realizador), Mihai Malaimare, Jr. (Melhor Fotografia) e Jonny Greenwood (Melhor Banda Sonora) não estarem nomeados constitui um irónico decréscimo à qualidade do lote de candidatos a um Oscar este ano.
A narrativa de DJANGO LIBERTADO é como Quentin Tarantino: respira Cinema em cada centímetro de película. Homenagem a diversos géneros secundários (o Western Spaghetti, o blaxpoitation, o Hollywood Classical Style, etc.) da Sétima Arte, revela-se entretenimento e polémico em doses generosas e susceptível de múltiplas análises morais que, talvez, nunca foram pretendidas pelo cineasta. A Academia não se "seduziu" pelo virtuosismo de Tarantino.
A estética do cinema de acção em função da vincada postura autoral de Kathryn Bigelow já não surpreende quem acompanha a sua carreira. A narrativa, emocionalmente seca e moralmente ambígua, converteu 00:30 A HORA NEGRA num dos filmes do ano, ornada por uma meia hora final de intensa proficiência técnica. Contudo, nenhum desses atributos convenceu os votantes da Academia, impedindo Bigelow de repetir o sucesso de 2009 (por ESTADO DE GUERRA).
John Hawkes, por SEIS SESSÕES, para Melhor Actor Principal
Não é surpresa que os Oscars têm demonstrado, em anos recentes, uma progressiva alteração de tendências e gostos. A prová-lo, temos a ausência de John Hawkes e a sua interpretação de um ser humano extremamente limitado fisicamente — ou o género de papéis que, noutros tempos, figurava quase obrigatoriamente entre os nomeados e (basta recordar o exemplo de Daniel Day-Lewis por O MEU PÉ ESQUERDO) vencedores. Neste caso, o cumprimento dessa "quota" justificava-se inteiramente, ainda para mais quando comparadas com a mediania nomeada de Denzel Washington (FLIGHT — DECISÃO DE RISCO) e Bradley Cooper (GUIA PARA UM FINAL FELIZ).
Jean-Louis Trintignant, por AMOR, para Melhor Actor Principal
O "renascido" Jean-Louis Trintignant demonstrou, no filme de Michael Haneke, argumentos de peso para que registássemos a sua presença na cerimónia do próximo Domingo. Repentino e enigmático retrato, quase extremo, de dedicação matrimonial, bateu forças com uma das interpretações femininas mais arrebatadoras de 2012 (Emmanuelle Riva, uma das favoritas ao Oscar de Melhor Actriz) e desempenhou alguns dos momentos humanos (ou humanistas, dependendo da perspectiva) mais inesquecíveis do Cinema Europeu recente.
Samuel L. Jackson, por DJANGO LIBERTADO, para Melhor Actor Secundário
Enquanto Stephen, o «negro mais racista da História do Cinema» (as palavras são do próprio Jackson), o actor quase desaparece nas nuances psicológicas — definitivamente, um dos principais pontos de discórdia no frenesim mediático em torno da suposta imoralidade racial do filme —, transformação física e frases icónicas do personagem. Depois de lhe ter negado o Oscar por PULP FICTION, a Academia volta a impedir a consagração de Samuel L. Jackson.
As hipóteses de nomeação do argumento assinado por Joss Whedon e Drew Goddard seriam, indiscutivelmente, um "tiro no escuro". No entanto, há que realçar o poder de subversão para o género do cinema de terror (cada vez mais previsível e a atravessar um longo período de défice qualitativo) de A CASA NA FLORESTA, representando um excelente motivo para a Academia reconhecê-lo como um dos filmes mais criativos, delirantes e "metaficcionais" de 2012.
Raramente um documentário conseguiu obter indicação para Melhor Fotografia (NAVAJO, o último filme documental a ser nomeado nesta categoria, data de 1952). Contudo, a profundidade e dimensão da realidade captada (em 70mm) pelas objectivas de SAMSARA tornam-no num dos grandes feitos visuais do ano transacto e inteiramente merecedor de concorrer à estatueta.
Dizer "a realidade é mais estranha do que a ficção" parece adequar-se perfeitamente a THE IMPOSTER. Substancialmente mais sinistro e intrigante que muito do cinema de suspense produzido anualmente, a sua nomeação contribuiria para a acepção do Oscar para Melhor Documentário enquanto prémio realmente determinado em assumir, cinematograficamente, a diversidade e surrealismo existentes no mundo em que vivemos. Uma ausência tão surpreendente quanto os factos apresentados pelo filme.
O vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza é, igualmente, a obra mais comercial de toda a filmografia do sul-coreano Kim Ki-duk e que, na sua estrutura narrativa básica (história de um reencontro mãe-filho, com o protagonista a encontrar uma espécie de redenção pessoal no fim), poderia ajudar PIETÀ a arrecadar votos suficientes para uma nomeação. Sonegado pela Academia, é uma lembrança da total ausência, este ano, do cinema asiático no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
--/--
E as vossas opiniões? São, como sempre, muito bem-vindas.
Ao décimo primeiro e último dia de Festival, num atribulado anúncio marcado pela confusão na entrega de alguns dos prémios, o júri presidido por Michael Mann atribuiu o Leão de Ouro da 69ª edição do Festival de Veneza a PIETÀ, de Kim Ki-Duk.
Outro grande vencedor do certame é THE MASTER, com Paul Thomas Anderson a arrecadar o Leão de Prata (Melhor Realizador), enquanto Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman receberam, ex-aequo, a Coppa Volpi de Melhor Actor.
O prémio de Melhor Actriz foi para Hadas Yaron por LEMALE ET HA’CHALAL (de Rama Bursthein).
Prémio Marcello Mastroianni (Melhor Actor/Actriz Jovem): Fabrizio Falco, por LA BELLA ADDORMENTATA (Marco Bellocchio) e È STATO IL FIGLIO (Daniele Ciprí).
«The Japanese action aesthete plays it cool and smooth in a picture that exerts a steadily tightening grip, though not until after a first hour of near-impenetrable gangster gab that may leave the uninitiated feeling stranded. » Justin Chang, inVariety.
«A tough slog at first, Takeshi Kitano's latest yakuza crime spree should come with an explanatory manual, but the cumulative payoff of nasty humor, intrigue and visceral kill thrills is considerable.» David Rooney, inThe Hollywood Reporter.
«Olivier Assayas has made a distinctive and nuanced film about the much-chronicled post-1968 years of radical European politics, as well as providing droll insight into his self-discovery as an artist.» David Rooney, inThe Hollywood Reporter.
«The press notes for the film talk of the present generation living in an 'eternal present', with no sense of history or purpose. This could well be the case, but on the evidence of his latest effort, it would appear that Assayas' nostalgia is misplaced - and, more importantly, cinematically uninteresting.» John Bleasdale, inCine-Vue.
.DISCONNECT, de Henry Alex Rubin (Fora de Competição)
«Sleekly assembled and propelled by some strong performances, Henry-Alex Rubin's drama about the toll of technology on human connection says little that hasn't been said many times before.» David Rooney, inThe Hollywood Reporter.
Sétimo dia de Festival com importante presença portuguesa.
«As is often the case with Kim’s work, it’s far from an easy watch: repetitive, bruising and grim, set in a scuzzy part of the world, full of even scuzzier people. The filmmaking is unshowy and relatively matter-of-fact, yet the content is almost anything but.» Oliver Lyttelton, inindieWIRE.
«Though the appreciable ending will be what festival juries remember when the prizes are being handed out — and female lead Cho Min-soo is bound to be a contender at Venice — it’s not an exaggeration to say there’s not a single pleasant moment in the film’s first half, and most Western audiences are going to find this very tough going.» Deborah Young, inThe Hollywood Reporter.
«Sarmiento sometimes risks spinning the film into a memorial special; an overstuffed revue show, pulling in too many directions. For all that, she delivers the tale with a gusto that would have made Ruiz proud.» Xan Brooks, inThe Guardian.
«Somewhat turgid, and hardly exceptional. But it’s also handsome, generally well acted when the performers stick to their first language, and a detailed and smart look at a point in history that’s likely little-known outside of Portugal.» Oliver Lyttelton, inindieWIRE.
--//--
[Fotos: AFP, Reuters e Getty Images.] [Vídeos: Canal do YouTube do Festival.]
Veneza prepara-se para acolher, a partir do próximo dia 29 e até 8 de Setembro, a 69ª edição de um dos principais festivais de cinema mundiais.
2012 assinala o primeiro ano de Alberto Barbera enquanto director artístico do Festival, e a mudança já se fez sentir — uma selecção oficial mais reduzida em comparação com as edições anteriores mas enorme em qualidade dos nomes reunidos e consequente expectativa gerada.
O júri internacional, presidido este ano pelo realizador Michael Mann, irá avaliar cerca de vinte obras para decidir qual será o galardoado com o Leão de Ouro para Melhor Filme, de uma selecção que o Keyzer Soze apresenta, de seguida, os seus destaques:
Um veterano da Marinha (Joaquin Phoenix) regressa a casa depois da Guerra perturbado e incerto relativamente ao seu futuro — até ao momento em que é aliciado para A Causa e pelo seu carismático líder (Philip Seymour Hoffman).
Paris, início dos anos 70. Gilles (Clement Metayer) é um estudante secundário completamente embrenhado na efervescência política e criativa do seu tempo, oscilando, tal como os seus colegas, entre o compromisso radical e as aspirações pessoais. Das primeiras experiências sexuais até às revelações artísticas durante uma viagem que termina em Londres, Gilles e os seus amigos terão de fazer escolhas cruciais de forma a encontrarem o seu rumo.
A história dos últimos seis dias de Eluana Englaro (cujo falecimento nunca ficou totalmente esclarecido) e a sua interacção com uma série de personagens fictícias de diferentes credos e ideologias.
Christine (Rachel McAdams) retira prazer do controlo que exerce sobre a jovem e ingénua Isabelle (Noomi Rapace), conduzindo-a cada vez mais longe num jogo de manipulação e sedução, domínio e humilhação. Mas quando Isabelle dorme com um dos amantes de Christine, a guerra instala-se. Na noite do homicídio, Isabelle foi assistir a um bailado, enquanto Christine recebe um convite sedutor. De quem? Ela adora surpresas e dirige-se nua para o quarto onde o amante misterioso a aguarda...
Contratado por prestamistas, um homem (Jo Min-soo) vive da tarefa, ameaçadora e brutal, de cobrar dívidas a várias pessoas. Sem família nem nada a perder, leva a cabo o seu trabalho independentemente da dor que causa a uma série de famílias. Até ao dia em que uma mulher (Lee Jung-jin) afirma ser a sua mãe. Rejeitando-a friamente à primeira, o homem aceita-a, gradualmente, na sua vida.
A família criminosa Sanno subiu ao estatuto de enorme organização, expandindo o seu poder junto das esferas políticas e das grandes empresas legítimas. Os altos quadros da família Sanno são agora ocupados por jovem executivos, relegando os membros mais velhos para um patamar secundário. Essa fragilidade na hierarquia dos Sanno é exactamente o que detective Kataoka procurava, num momento em que a polícia se prepara para levar a cabo uma rusga a larga escala.
Durante uma operação stop, quatro universitárias são detidas pela polícia por posse de estupefacientes. Durante a sua audição em tribunal, a fiança das raparigas é inesperadamente paga por Alien (James Franco), um infame bandido local de coração doce, que lhes proporcionará uma louca viagem de férias.
Após visitarem o Mont Saint-Michel — em tempos denominado pelos franceses como "A Maravilha" (the Wonder) — no auge da sua paixão, Marina (Olga Kurylenko) e Neil (Ben Affleck) mudam-se para o Oklahoma, onde os problemas não tardam em surgir. Marina faz amizade com um padre (Javier Bardem) a atravessar uma crise de fé, e Neil renova os laços com uma amiga de infância, Jane (Rachel McAdams).
Após sofrer o seu terceiro aborto espontâneo, Shaleha agoniza por não conseguir conceber uma criança. Sentindo que o seu marido Bangas An deseja ser pai, ela decide arranjar-lhe uma companheira mais nova. Dia e noite, Shaleha e o marido procuram nas comunidades vizinhas por uma mulher fértil para Bangas An.
Depois das tentativas comandadas por Junot (1807) e Soult (1809), Napoleão Bonaparte envia um novo e poderoso exército, comandando pelo Marechal Massena, para invadir Portugal em 1810. Os franceses alcançam, facilmente, o centro do país, mas o exército Anglo-Português, liderado pelo General Wellington (John Malkovich), aguarda-os...
Para Annamaria, uma técnica de raios-x, o paraíso reside em dedicar as férias a trabalho missionário. Na sua peregrinação diária em Viena, ela vai de porta em porta transportando uma estátua da Virgem Maria. Um dia, depois de vários anos sem dar notícias, o seu marido, um muçulmano egípcio confinado a uma cadeira de rodas, regressa a casa. Os cânticos e as orações de Annamaria confundem-se com quezílias.
Filme sobre Enzo Avitabile, a sua música e Nápoles, que surge da estima recíproca entre dois artistas — Jonatham Demme é, há muito, fã do trabalho de Enzo, conhecido no mundo musical como um apaixonado pela pesquisa e experimentação artística.
Amos Gitai narra a história do seu pai, Munio Weinraub, estudante na escola de design e arquitectura Bauhaus, na cidade de Dessau, até ao seu encerramento por Hitler em 1933. Em Maio do mesmo ano, Weinraub é acusado de "traição contra o povo alemão", aprisionado e expulso da Alemanha.
Demonstrações estudantis grassam por Lahore, enquanto o jovem professor paquistanês Changez Khan (Riz Ahmed) revela ao jornalista Bobby Lincoln (Liev Schreiber) o seu passado como brilhante analista financeiro em Wall Street, o futuro promissor que tinha à sua frente e de como o iria partilhar com a sofisticada Erica (Kate Hudson). Mas o 11 de Setembro alterou todos os seus planos.
Apesar da idade e do cansaço, Gebo (Michael Lonsdale) persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia (Claudia Cardinale), e a nora, Sofia (Leonor Silveira), mas é a ausência do filho, João (Ricardo Trêpa), que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente, João aparece e tudo muda.
Jim Grant (Robert Redford) é um advogado dos direitos civis e pai solteiro que educa a filha nos tranquilos subúrbios de Albany. A sua vida muda completamente quando um jovem jornalista, Ben Shepard (Shia LaBeouf), expõe a verdadeira identidade de Grant: um fugitivo radical e anti-guerra que, nos anos 70, foi procurado por homicídio.
O programa completo, incluindo as secções secundárias, pode ser consultado no site oficial do Festival.
Uma rapariga muda (Jung Suh) vive isolada num lago transformado em resort piscatório, onde trabalha a vender isco, comida e, ocasionalmente, o próprio corpo aos turistas. A chegada à ilha de um pescador (Yoosuk Kim), fugitivo à polícia e com desejo de se suicidar, altera-lhe a rotina e, em breve, torna-se sua amante.
Guiado pela poderosa interpretação de Jung Suh, cuja personagem manter-se-à anónima e silenciosa até ao fim, O BORDEL DO LAGO é mais um exame de Kim Ki-Duk às relações humanas em contextos que têm tanto de idílico — a fotografia parece extraída de uma fábula romântica — como de horrendo surrealismo. O ritmo vagaroso funciona perfeitamente para a história, a qual ainda permite, ao espectador, segundas acepções. Excelente.
Joana (Orsi Tóth), uma jovem toxicodependente, entra em coma depois de um grave acidente. Os médicos do hospital de Budapeste salvam-na miraculosamente e, no momento em que esteve entre dois mundos, Joana adquiriu um poder divino, sendo capaz de curar doentes oferecendo o seu corpo. Mas quando ela rejeita as propostas amorosas do director do hospital (Zsolt Trill), este move-lhe uma perseguição sem tréguas.
Interpretação cinematográfica e musical da narração da paixão de Joana d'Arc, o seu impressionante trabalho visual, composto por planos-sequência e de cromagem saturada — a influência do produtor Béla Tárr nestas opções estéticas é por demais evidente —, não o salva de ser um filme apenas para quem aprecia o género musical (não é o caso por estas "paragens"), aqui levado a um extremo operático: a seriedade com que diálogos como «Vamos para a urologia!» são clamados não favorecem, pelo espectador, uma correspondência emocional idêntica.
Lugares que deixaram de fazer sentido, de serem necessários, de estar na moda. Lugares esquecidos, obsoletos, inóspitos, vazios. Não interessa aqui explicar porque foram criados e existiram, nem as razões porque se abandonaram ou foram transformados. Apenas se promove uma ideia, talvez poética, sobre algo que foi e é parte da(s) história(s) do nosso país.
Um olhar poético, saudosista e fragmentado sobre locais que já conheceram melhores dias — casas abandonadas, sanatórios, hotéis, até o Parque Mayer —, RUÍNAS dá-nos uma perspectiva diferente sobre o passado de Portugal, diferenciando-se de documentários semelhantes pela original narração que, através da leitura de correspondências, relatórios médicos ou receitas gastronómicas, invoca vivências, relações e costumes há muito perdidos. "Peca" por ter apenas sessenta minutos de duração.
Rango (Johnny Depp) é um camaleão de estimação que, acidentalmente, vai parar a uma arenosa cidade no meio do deserto, habitada por extravagantes criaturas e onde a lei não existe. Recebido como a última esperança para a sobrevivência daquela cidade, é escolhido para xerife e forçado a descobrir os responsáveis pela crescente escassez de água.
Não existe propriamente nada de novo ou verdadeiramente original em RANGO (descontando o facto de tratar-se de um "western animado"), mas também é-se incapaz de esconder o gozo que as suas referências culturais — desde O BOM, O MAU E O VILÃO até Hunter S. Thompson — proporciona. Mas, numa análise geral, e com 2011 a assumir-se para a animação repleta de sequelas e spin-offs, este bem se pode revelar como um dos títulos mais interessantes do ano para o género.
A força da fé de Céline (Julie Sokolowski) é posta à prova ao sair do convento, onde vive intensamente as suas convicções religiosas. Quando a jovem rapariga, filha de uma abastada e respeitada família, trava amizade com Yassine (Yassine Salime), um muçulmano fundamentalista, embarcará num percurso devoto incerto.
Caminhando por terrenos próprios de Carl Theodor Dreyer ou Robert Bresson, o estilo e temas são Dumont inconfundível. Contudo, o cineasta francês já se revelou mais perspicaz e incisivo na sua explanação, sobretudo pela ausência de convicção na mudança de "atitude religiosa" por parte da protagonista e da qual o sucesso do argumento está dependente, afectando um desenlace que alguns poderão, facilmente, qualificar de pretensioso. Realce para a frágil e aviltada Julie Sokolowski, assombrosa num desempenho de árdua profundidade emocional.
Sally Sorowitsch (Karl Markovics), cidadão judeu de Berlim com poucos escrúpulos, é detido por agentes nazis e levado para o campo de concentração de Mauthausen. Para sobreviver, e devido ao seu passado de contrafacção, aceita trabalhar num esquema de falsificação de libras e dólares, engendrado pelo Terceiro Reich, o qual, pelos montantes envolvidos, tornou-se num dos maiores já registados pela História.
Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, OS FALSIFICADORES é exímio enquanto drama histórico — desde a reconstituição até à caracterização das personagens, não se lhe consegue apontar um defeito — e os excelentes desempenhos de Markovics e Devid Striesow (no papel do oficial nazi que liderou a falsificação) estão à altura do trabalho visual. Felizmente, os temas de sobrevivência e esperança do argumento não ficam diluídos na vontade, em demasia, de nos ser constantemente "relembrado" que este é um filme sobre o Holocausto, quase banalizando a impiedade dos campos de concentração.
Hanna (Saoirse Ronan) é apenas uma adolescente mas possui a força e energia de um soldado, fruto do treino que o pai (Eric Bana), ex-agente da CIA, lhe facultou. Contudo, os segredos acerca do seu passado levam-na a embarcar numa missão pela Europa e à perseguição que lhe é movida por Marissa Wiegler (Cate Blanchett), uma operacional com agenda própria.
Há filmes que parecem estar a pedir para serem desancados, e HANNA acaba de se "inscrever" nesse grupo. Apetrechado de um conceito perspicaz, fotografia e montagem estimulantes, banda sonora fenomenal (da responsabilidade dos The Chemical Brothers) e uma Saoirse Ronan carismática, acaba por — incompreensivelmente — desperdiçar todas estas mais valias pela total ausência de subtileza e lógica do seu final. Exemplo pragmático de como se troca brilhantismo cinematográfico pela "preguiça"...
Três histórias retratam três gerações da mesma família: o avô, soldado durante a Segunda Guerra Mundial com uma vida de bizarras fantasias sexuais; o filho, um "atleta-comedor" obeso na Hungria ocupada pela União Soviética; e o neto, um taxidermista dos nossos dias com uma peculiar ambição acerca do seu próprio corpo.
Visceral, hilariante e inesquecível, comprova a vitalidade do cinema húngaro contemporâneo e, sobretudo, o talento único de György Pálfi, capaz de transformar uma alegoria à História recente da Hungria num festim de gore, terror físico e realismo mágico. Brilhantemente fotografado, repleto de planos fluidos e elegantes, recomenda-se a sua visualização.
Numa localidade rural da Coreia do Sul, os seus habitantes procuram conciliar desejos e obsessões com os omnipresentes vestígios de colonialismo e da Guerra Fria. Nomeadamente, as desilusões de três adolescentes, as memórias dos anciãos da aldeia e a vontade de uma mulher em contactar o soldado norte-americano, de quem teve um filho e cujas cartas são constantemente devolvidas.
Conjugando os elementos básicos de um drama trágico com o pessimismo formal de Kim Ki-Duk, somos testemunhas de uma narrativa, semi-autobiográfica, que não só explora o legado e influência que a Guerra da Coreia teve na sua população, como também é um filme humano, mas inquietante, sobre os receios de qualquer um: infelicidade, pobreza, sexualidade. A tragédia é totalmente previsível, mas sem essa violência nunca apreenderíamos os temas de ENDEREÇO DESCONHECIDO. Obrigatório.
Em 1966, Kristen (Amber Heard) é internada num hospital psiquiátrico após ser encontrada a incendiar uma casa. Na instituição, começa a ser aterrorizada pelo fantasma de uma antiga paciente, cujos motivos para o seu rancor estão relacionados com as outras residentes daquele hospital.
Carpenter, embora hábil, raramente foi detentor de terror subtil. O argumento de THE WARD confirma-o e o toque formal do "mestre" (que excelente atmosfera!) é plenamente sentido. Contudo, este já se revelou mais criativo na capacidade de entreter e aprisionar os espectadores através do sobrenatural. Salienta-se o twist final que, longe de ser inovador ou imprevisível, é eficiente e recompensa os fãs do cineasta — sem dúvida, aqueles que viverão melhor esta hora e meia de cinema.
Keyzer Soze é um personagem do filme de 1995, OS SUSPEITOS DO COSTUME.
Soze era o líder de uma secreta organização criminosa; a sua impiedosa personalidade e obscura influência granjeou-lhe um estatuto quase mítico entre agentes da lei e gangsters.
O seu papel no supreendente twist final do filme tornou-se num dos ícones da cultura popular dos anos 90.