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segunda-feira, julho 30, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

CITY GIRL (1930), de F.W. Murnau



Baseado na peça "The Mud Turtle" de Elliot Lester, CITY GIRL conta a história do filho de um agricultor, Lem, que se muda para a cidade onde conhece e se apaixona por Kate, a rapariga dos seus sonhos. Quando a apresenta à família, o prevê que a relação de ambos não durará, aceitando que Kate é uma caçadora de fortunas. O medo de tal afirmação ser verdadeira acaba por sabotar o casamento, e Kate vai-se embora da quinta com Lem em seu encalço.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

terça-feira, dezembro 13, 2011

#33



... segundo as palavras do Gonçalo Trindade, duplamente nomeado nos TCN Blog Awards 2011 para Melhor Iniciativa (entrevista a John Carpenter) e Melhor Crítica (A Árvore da Vida), do Ante-Cinema:

Sem ordem específica. Hoje, são estes. Amanhã, provavelmente seriam outros.

. OLDBOY — VELHO AMIGO
(2003, Oldboy, Chan-wook Park)



Marcante. É um filme que vi inúmeras vezes, e de longe um dos meus filmes favoritos. É daqueles filmes que me parece audiovisualmente perfeito, em que o realizador tem controlo completo sobre cada aspecto, da fotografia à banda-sonora, das interpretações ao argumento. Tem cenas que me estão marcadas a fogo na memória. Ainda me lembro muito bem do impacto que teve na altura. Demorei dias até conseguir colocar o queixo no sítio certo.

. CINEMA PARAÍSO
(1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)



O primeiro filme que alguma vez me fez chorar. Sou profundamente susceptível ao sentimento de nostalgia, e sendo este filme o que é, era inevitável que me tivesse marcado como marcou. Um filme sobre o amor pelo cinema, visto por mim numa idade em que esse amor começava a despertar verdadeiramente. Mesmo hoje em dia, comove-me profundamente.

. SAGA A GUERRA DAS ESTRELAS
(1977, Star Wars, George Lucas, 1980, Star Wars: Episode V - The Empire Strikes Back, Irvin Kershner, 1983, Star Wars: Episode VI - Return of the Jedi, Richard Marquand)



Tinha de aqui estar, claro. A saga da minha infância, que cresci a ver com o meu pai, e que ainda hoje povoa por completo a minha imaginação. Para mim, talvez a grande saga de aventuras do cinema. Ainda sorrio como uma criança de sete anos quando o Darth Vader atira o Imperador para o abismo, e ainda fico entusiasmado quando o Luke destrói a Estrela da Morte. São filmes que ficarão comigo para o resto da vida. Apesar de o Lucas não estar muito a favor disso, mas isso já é outra história.

. OS SETE SAMURAIS
(1954, Shichinin no samurai, Akira Kurosawa)



O meu filme de acção predilecto. Vê-lo no cinema, na primeira vez que fui à Cinemateca, foi uma experiência que nunca hei-de esquecer. É daqueles que estaria sempre nesta lista, em qualquer dia da semana.

. AURORA
(1927, Sunrise: A Song of Two Humans, F.W. Murnau)



Oh Deus, onde é que eu começo com este? Mais uma vez, é um filme perfeito, sem falhas, tão honesto e simples quanto revelador de uma mestria exemplar por parte do Murnau, como contador de histórias. Passei anos a querer vê-lo, e só o fiz há cerca de três anos, quando um grande amigo meu me deu o DVD. Fiquei num misto de encanto e lágrimas, e creio que tem verdadeiramente alguns dos momentos mais memoráveis que alguma vez verei num filme. Demasiado belo.

. OS QUATROCENTOS GOLPES
(1959, Les Quatre Cents Coups, François Truffaut)



Repito o que disse em relação ao SUNRISE: demasiado belo. É tão simples quanto isso.

. ANNIE HALL
(1977, Annie Hall, Woody Allen)



Melhor argumento de sempre? O meu favorito do Allen, e um filme que me parece rigorosamente genial desde o primeiro ao último segundo. Literalmente, do primeiro ao último. Ainda o revejo imensas vezes.

. A VIAGEM DE CHIHIRO
(2001, Sen to Chihiro no kamikakushi, Hayao Miyazaki)



Era entre este e o CASTLE IN THE SKY... e este ganhou, porque foi o primeiro. Foi este o filme que me fez apaixonar pelo seu cinema, e que teve o impacto imediato de começar a idolatrar o homem. Ainda hoje em dia fico com lágrimas nos olhos quando o vejo, e descubro facilmente novos pormenores que fazem com que adore o filme ainda mais.

. THE FOUNTAIN — O ÚLTIMO CAPÍTULO
(2006, The Fountain, Darren Aronofsky)



Tinha de aqui estar. Perfeição audiovisual, que tem no seu cerne um coração do tamanho do mundo. Isto é, afinal, uma história de amor. Um dos poucos filmes que me arrebataram verdadeiramente, em todos os aspectos. Põe-me lágrimas nos olhos enquanto me deslumbra os sentidos.

. O MUNDO A SEUS PÉS
(1941, Citizen Kane, Orson Welles)



O meu filme favorito, ponto. Tenho um fascínio absoluto por cada plano, cada linha de diálogo, e acima de tudo pelo homem que é Charles Foster Kane. A personagem bigger than life por excelência, para mim a representação perfeita do quão impossível é, e sempre será, compreender verdadeiramente alguém. Fascina-me verdadeiramente.

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Obrigado, Gonçalo, pela tua participação!

domingo, novembro 06, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. TARTUFO
. A DAMA DO LAGO
. BRUTALIDADE
. THE PHANTOM CARRIAGE

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. TARTUFO (1925), de F.W. Murnau



Um jovem actor (André Mattoni) apresenta ao seu avô milionário (Hermann Picha) um filme sobre o impostor Tartüff (Emil Jannings), de modo a expor a hipocrisia dos planos fatais de uma empregada (Rosa Valetti) que pretende deitar as mãos à fortuna do seu velho patrão.



Exemplo modesto de Expressionismo Alemão, TARTUFO será um dos trabalhos menos conhecidos da filmografia de Murnau, mas revelador de um lado humanista do realizador que a maioria dos cinéfilos só detecta em AURORA (1927). Com essa menor predominância técnica, os valores da célebre peça de Molière sobre cobiça e hipocrisia, são imediatamente colocados em primeiro plano, por vezes de uma forma deliciosamente cómica — inclusivamente, com direito a quebra da chamada fourth wall.

A veia expressionista (iluminação, enquadramento e representação) de Murnau só se encontra na sequência nocturna em que a natureza ignóbil de Herr Tartüff é exposta, vilão irrepreensivelmente encarnado por Emil Jannings, numa perfeita combinação de humor e horror. Eis um sublime conto moral, sem pejo em lembrar a plateia, incluindo a contemporânea, de se acautelar perante hipócritas e manipuladores, pois eles, tal como a pobreza, estão sempre entre nós...

. A DAMA DO LAGO (1947), de Robert Montgomery



Uma editora (Audrey Totter) de uma revista contrata Philip Marlowe (Robert Montgomery) para descobrir o paradeiro da esposa do seu patrão. Rapidamente, o detective privado vê-se envolvido num caso de homicídio.



Curioso exercício de estilo noir, onde toda a história — com excepção de alguns interlúdios em que o próprio Marlowe partilha as suas suposições com o espectador — é contada através do ponto de vista do protagonista mas que, infelizmente, não se torna memorável após a sua visualização.

Esse tratamento subjectivo da "câmara enquanto actor" apenas pode ser considerado como parcialmente bem sucedido, revelando-se A DAMA DO LAGO como um título apropriado para aficionados do film noir clássico, para os mais atentos a truques técnicos (sobretudo, os cortes disfarçados em aparentes longos planos-sequência) e para observar o quão longe os criadores do género eram capazes de ir de forma a imprimir variedade e interesse a um argumento que, desde a sua premissa, poucos caminhos possuía para explorar.

. BRUTALIDADE (1947), de Jules Dassin



Numa penitenciária de alta segurança, o prisioneiro Joe Collins (Burt Lancaster) planeia uma revolta contra o Capitão Munsey (Hume Cronyn), um violento e implacável chefe prisional.



Esqueçam EU SOU UM EVADIDO (1932, Mervyn LeRoy), OS CONDENADOS DE SHAWSHANK (1994, Frank Darabont) ou O HOMEM DE ALCATRAZ (1962, John Frankenheimer); o melhor filme norte-americano sobre a vida de um encarcerado é este drama semi-desconhecido do grande público, absolutamente noir sem "requisitar os serviços" de um detective privado e mais interessado na dissecação de temas como poder social em detrimento da observação de justiça prisional ou da típica e heróica narrativa sobre uma fuga da prisão.

Com duas grandes interpretações de Burt Lancaster e, sobretudo, Hume Cronyn na caracterização de um guarda prisional sádico e sedento por poder, BRUTALIDADE é, também, produto do espírito norte-americano da era em que foi produzido, onde as feridas da Segunda Guerra Mundial ainda estavam em processo de catarse. Dassin não deixa de aludir ao conflito, tanto explícita como implicitamente, tornando-se inevitável a comparação entre a repressão carcereira e os métodos do Terceiro Reich. Destaque final para o extenso elenco feminino (Yvonne De Carlo, Ann Blyth, Ella Raines) que povoa as memórias em flashback dos reclusos da cela R-17.

. THE PHANTOM CARRIAGE (1921), de Victor Sjöström



É véspera de Ano Novo. Três homens evocam a lenda do destino de quem for o último pecador a morrer naquele ano: ser condutor da carruagem que recolhe a alma dos falecidos durante um ano inteiro. David Holm (Victor Sjöström), alcoólico e arruaceiro, morre quando soa a última badalada da meia-noite...



Ingmar Bergman afirmou, a certa altura, que este é «o filme de todos os filmes» e a obra mais inspiradora da sua carreira. A mesma impressão pode ser assumida pelo cinéfilo que se deparar com THE PHANTOM CARRIAGE, obra-prima de apelo universal e intemporal, intrinsecamente Dickensiana, que vagueia entre o drama moral e o terror sobrenatural e reveladora de uma proficuidade técnica quase hipnótica (a visão da "carruagem fantasma" é um portento no uso primitivo da dupla exposição em Cinema).

Mais do que um dos primeiros exemplos de terror cinematográfico, o filme de Sjöström é um importante argumento para a validade moral da Sétima Arte (e esta constatação reveste-se de tremendo significado nos dias que correm, onde o debate acerca da sua relevância actual para a educação dos públicos indica, quase sempre, o prenúncio de morte deste meio artístico). Aqui, a "carruagem fantasma" é o próprio Cinema, um veículo que nos pode entreter, assombrar ou deprimir, mas também instruir e aperfeiçoar. O filme exibe claramente a estilização da época em que foi produzido — a versão restaurada e editada pela Criterion, numa interessante decisão, deixou intactas as impiedosas marcas de degradação que o tempo aplica à película de nitrato —, mas a sua mensagem sobreviverá, sem dificuldades, ao decorrer dos anos.

quarta-feira, outubro 05, 2011

AURORA (1927), de F.W. Murnau



[filme exibido pelo 9500 Cineclube de Ponta Delgada]

Se AURORA revela-se obra cinematográfica pioneira, intemporal e multitextual, tal deve-se à feliz união entre a criatividade expressionista de F.W. Murnau, os muitos dólares que Hollywood lhe consagrou (é pena que tal acepção, hoje em dia, fosse vista como irremediavelmente negativa) e a abundância de cativantes motivos para espectadores de qualquer geração ou contexto cultural.



A narrativa de AURORA pode ser resumida em poucas linhas. Um jovem agricultor (George O'Brien) é seduzido por uma mulher imoral (Margaret Livingston), a qual convence-o a assassinar a sua esposa (Janet Gaynor, vencedora de um Óscar por este desempenho), vender a quinta e mudar-se para a cidade. O homem, contudo, não é capaz de levar o plano até ao fim, acabando por redescobrir o amor que sente pela esposa após uma breve mas marcante estadia no movimentado e imprevisível quotidiano citadino.

O que parece simples no papel torna-se extraordinário no grande ecrã pela mestria de F.W. Murnau. Representando um dos trabalhos mais sofisticados e tecnicamente brilhantes da era do cinema mudo, os dois directores de fotografia, Charles Rosher (o fotógrafo predilecto de Mary Pickford) e Karl Strauss, construíram um mundo visual que parece preso à sua época e, ao mesmo tempo, intemporal, através de inúmeras e surpreendentes perspectivas forçadas, dramáticos chiaroscuros, composições em matte e montagens ópticas registadas on camera. Os cenários apresentam-se igualmente magníficos, combinando bucólicas paisagens campestres com um fantástico desenho de arquitectura expressionista.



Para um filme produzido há mais de oitenta anos, a elevada reputação crítica de AURORA nunca desvaneceu. Tal sucede não só pela universalidade dos seus temas — as dualidades entre campo/cidade, noite/dia, vício/virtude, vida/morte, etc. — mas, sobretudo, pelo modo como esses assuntos fundem-se num conto moral capaz de materializar estados de espírito (note-se como o dilema do Homem em assassinar a esposa transforma-o num grotesco exemplo de ser humano) e incutir no espectador um sentimento compatível ao de "alma renovada".

Impõe-se conhecer AURORA. Tanto pelo estatuto que ocupa na História do Cinema — e que não se cinge apenas ao período que antecedeu o sonoro — como pela ressonância emocional que, decerto, encontra nas audiências modernas. Num mundo que se apresenta tão racional, muitos de nós só desejariam regressar à "ingenuidade" de dois camponeses numa cidade como a que Murnau aqui encena.

quarta-feira, junho 01, 2011

#12



... segundo as palavras do João Gonçalves, do blog Modern Times:

10 escolhas, 10 filmes da minha vida. Muitos ficaram de fora e foi difícil a selecção.

Como 10 tinham de ser, optei por aqueles que me dizem mais, não necessariamente os melhores. Valem o que valem. Não consigo justificar melhor, não quando os filmes são tão pessoais.


1. PRIMAVERA TARDIA
(1949, Banshun, Yasujirô Ozu)



Lembro-me de cinema, lembro-me de Ozu. Lembro-me da forma como me marcou este filme. Uma câmera, uma família.

2. O SACRIFÍCIO
(1986, Offret, Andrei Tarkovsky)



O último filme de Tarkovsky. O meu filme preferido. Uma sensibilidade uníca na arte de filmar.

3. AURORA
(1927, Sunrise: A Song of Two Humans, F.W. Murnau)



A melhor história de amor de todos os tempos. Não há filme no mundo mais belo do que Sunrise. Para City Girl e Tabu serviriam as mesmas palavras.

4. JANELA INDISCRETA
(1954, Rear Window, Alfred Hitchcock)



É o melhor filme do mestre Hitchcock. Cada vez que o revejo, novos pormenores encontro. Incrivelmente bem filmado.

5. O TOURO ENRAIVECIDO
(1980, Raging Bull, Martin Scorsese)



Porque foi dos primeiros filmes que vi quando comecei a ver cinema a sério. Scorsese no seu melhor, numa obra marcante.

6. O INTENDENTE SANSHO
(1954, Sanshô dayû, Kenji Mizoguchi)



Uma obra de arte.

7. VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS
(1975, One Flew Over the Cuckoo's Nest, Milos Forman)



Um filme perturbador, que não nos sai da cabeça por dias. Admiro a leveza, num tom quase cómico como é conduzido o filme para logo espetar um murro no estômago. Um filme que me diz muito.

8. MORANGOS SILVESTRES
(1957, Smultronstället, Ingmar Bergman)



Um filme de memórias. Sobre a vida, sobre o passado, sobre nostalgia.

9. AS PONTES DE MADISON COUNTY
(1995, The Bridges of Madison County, Clint Eastwood)



O melhor filme dos anos 90. Um romance único e apaixonante. Nada me comove mais que toda a cena do semáforo.

10. O VALE ERA VERDE
(1941, How Green Was My Valley, John Ford)



É um filme mágico, como só John Ford o sabe fazer.

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Obrigado, João, pela tua participação!

terça-feira, março 29, 2011

NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES (1922), de F.W. Murnau



Ver NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES é assistir a um filme de vampiros quando esse género nem sequer existia. Pois esta é a história imaculada do Drácula antes de ser enterrada viva em lugares-comuns, paródias, anúncios de televisão, desenhos animados, cartoons e cerca de trinta outros filmes dedicados à personagem. Pois este filme revela-se maravilhado pelo material que adapta... Até parece feito por quem acreditava mesmo na existência de vampiros.

A interpretação de Max Schreck, no papel do vampiro, é exemplo perfeito disso, totalmente liberta dos toques teatrais que contaminariam as performances posteriores de Bela Lugosi, Christopher Lee, Frank Langella ou Gary Oldman. O seu vampiro surge como um ser afligido por uma maldição pavorosa e, fisicamente, quase despojado de qualquer semelhança humana.



Inspirado no romance de Bram Stoker, NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES marca uma das primeiras adaptações daquela figura sanguinária na Sétima Arte (o primeiro registo da sua aparição será, provavelmente, LE MANOIR DU DIABLE, de Méliès) e revelou-se extremamente influente não só nas versões subsequentes de Drácula — o conceito da sua morte através da exposição à luz solar, ausente no livro, foi aqui introduzido pela primeira vez — como em toda a história do filme de terror.

[Para além da versão assinada por Werner Herzog, em 1979, com o título NOSFERATU: PHANTOM DER NACHT, Francis Ford Coppola reaproveitou muita da sua imagética em DRÁCULA DE BRAM STOKER (1992) e originou A SOMBRA DO VAMPIRO (2000), um interessante e (infelizmente?) fictício relato da produção de NOSFERATU, no qual Max Schreck é um vampiro autêntico "recrutado" por Murnau com o intuito de conferir maior veracidade ao seu filme.]



Muito deste legado deve-se à visão de F.W. Murnau. A concepção estética claramente associada ao Expressionismo Alemão, cujos elementos primários estão aqui exibidos (um cenário urbano decadente, a pesada maquilhagem que reforça o chiaroscuro, sombras tão ou mais sinistras que os indivíduos que as formam — já em 1922, muitos defendiam que uma maior exibição da silhueta do Conde Orlock torna-lo-ia ainda mais ameaçador), aumenta o sentido metafórico aqui impresso. De entre as várias interpretações que o filme suscitou, ninguém fica indiferente à abordagem a assuntos que preocupam a Humanidade de todas as eras (doença, loucura, morte) e NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES sugere esses receios no seu próprio estilo visual: a bruma domina, as personagens espreitam ou acobardam-se, e é regra de composição que se cria maior tensão quando um sujeito é filmado fora do centro de um plano.

Será NOSFERATU — UMA SINFONIA DE HORRORES um filme assustador na acepção moderna do termo? Para mim, de maneira nenhuma. Admiro-o mais pela sua atmosfera que, noventa anos depois, ainda possui a mesma capacidade de assombrar o espectador. Não nos mostra vampiros que surgem repentinamente das sombras, mas revela que o mal pode anunciar-se em qualquer molde, seja ele vivo ou morto.

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